Diz que eu não sou de respeito

Diz que não dá jeito

De jeito nenhum

Diz que eu sou subversivo

Um elemento ativo

Feroz e nocivo

Ao bem-estar comum

(Chico Buarque. Fica. 1963)

Há um forte aspecto moral atrelado ao vocábulo “subversão”, como bem o sintetizou Chico Buarque, na figura do sujeito “nocivo ao bem-estar comum”. A preservação do bem-estar comum é justamente uma prerrogativa daqueles que mantêm a ordem, ou seja, as autoridades responsáveis pela preservação das estruturas que nos tornam parte deste coletivo “comum”. A comum-unidade seria nossa garantia de pertencimento, constituição portanto de uma identidade subjetivo-objetiva, pois nos daria o sentido efetivo de ser à medida em que estamos em um grupo.

Nesse contexto hipotético de “bem-estar comum”, a subversão assume uma conotação política extremamente negativa, na medida em que emperra ou ainda, inviabilizaria o necessário e esperado desenvolver dos indivíduos, grupos, sociedades. Uma problemática cara à modernidade foi justamente o deslocamento da concepção de subversão e de atos subversivos para o campo das lutas contra todo tipo de estruturas e conjunturas excludentes, opressivas, repressoras e promotoras da desigualdade. A subversão, nessa abordagem genérica, seria então tudo aquilo que gera tensão, posicionamento crítico, inversão, suspensão, desestabilidade, de maneira indireta ou direta, nas normas e estruturas predominantes sejam no plano moral, político, religioso, subjetivo, amoroso, tempo-espacial, etc., etc.

A opção por agregar diversas pesquisas com diferentes recortes temáticos, teóricos e temporais, que incluíssem no rol de problemáticas a questão das práticas subversivas nos pareceu extremamente oportuna, no contexto da cultura brasileira e internacional atual. Vivemos ainda o impacto de uma “ressaca moral”, resultante das decepções contínuas e dos aparentes / efetivos fracassos dos projetos revolucionários que deram fôlego e ânimo para as gerações que nos antecederam. As possibilidades de transformações radicais, amplas e de cunho global não ressoavam como mero devaneio de esquerdistas jovens e barbudos. No meio da dor e vazio de presenciar minguadas assembléias de trabalhadores (em especial dos profissionais do ensino superior), centrais sindicais e sindicatos em “pé de guerra”, movimentos populares cooptados por governos ditos populares, conflitos étnicos e confrontos bélicos nos morros, nas montanhas, no deserto, brotava verde, bem verde mesmo, a pergunta: não há “reação”? A apatia e silêncio dos lugares antes considerados legítimos representantes do coro dos descontentes é sinal de que nos consideramos “vencidos” ou simplesmente não queremos mais “brincar” de democracia com lugares e cartas marcadas e estruturas estatais viciadas? Foram as práticas, os atos e sujeitos da subversão que sofreram mutações e nossos conceitos, categorias e ferramentas não mais se ajustam à dinâmica dos novos movimentos? Onde podemos encontrar os sinais vitais do que resiste, desconcerta e revigora nossa esperança na construção de formas e modos de ser e de viver menos claustrofóbicos? Onde estão os novos e muitas vezes invisíveis muros que nos enredam e nos alienam dos laços afetivos, da participação política, do engajamento no nosso “bem-estar”? O que temos feito consciente, voluntária e involuntariamente em função daqueles princípios básicos e elementares que caracterizaram a modernidade: autonomia, a liberdade, diante de nossa servidão aos outros e ao império dos nossos desejos e sentidos? A “sociedade de consumo” teria consumido a matéria-prima de nossas ilusões e paixões revolucionárias e domesticado nossas agendas políticas?

O lado instigante do termo subversão é justamente este, a não inerência de um projeto específico ou de uma ideologia ao seu conteúdo político. Nem toda subversão colabora ou vai ao encontro das transformações que ousaríamos promover na luta por subjetividades menos egocêntricas, sociedades menos desiguais em termos de distribuição e usufruto das riquezas naturais e sociais. Certas subversões no interior, por exemplo, de um estilo musical ou artístico mainstream não necessariamente contraria os interesses da Indústria do disco ou do status quo das artes tomadas como objetos de luxo de extremo valor financeiro. No entanto, o olhar atento para as manifestações inusitadas ou vulgarizadas no estilo pop “autorizado” de determinadas práticas subversivas, as quais, em alguns casos, utilizam-se da linguagem kitsch para se manifestarem, abrem poros, ainda que minúsculos, por onde se renova o oxigênio que alimenta nossa produção de outras humanidades.

Cada artigo que compõe este dossiê traz um destes poros, aberturas e instigam nossa capacidade crítica e ética a rever temas clássicos. Ampliam, ora com telescópio, ora com microscópio, nossa percepção do mundo e da própria noção e singularidade das subversões que, felizmente, nos rondam. Os artigos foram organizados em três grupos seqüenciais: 1) o grupo de artigos que, por diferentes vias, problematizam as sexualidades subversivas, ou, ainda, os conceitos e o próprio histórico do que consideramos ser a sexualidade, a prostituição, o homoerotismo, as diferenças entre identidade de gênero e identidade sexual, e as variações na composição estética da imagem ora viril ora efeminada de homens que “transam” homens. Assim, Piscitelli nos apresenta uma instigante e polêmica análise dos conflitos entre o próprio pensamento feminista, os “acordos” e protocolos (no caso o de Palermo) que visam garantir direitos de minorias e o enunciado produzido pelas trabalhadoras do sexo sobre o lugar que ocupam no jogo do mercado sexual e suas expectativas de vida, que muitas vezes frustram o ideal moralista que temos sobre o ato da prostituição e o perfil vitimado da praticante. Algumas fronteiras, tais como a migração de mulheres brasileiras para a Europa para trabalharem na indústria do sexo e o Tráfico (e toda a violência nele implícita) de pessoas, são alvo de uma fina reflexão que tem na categoria do consentimento um dos principais aportes. Parizi, a partir de sua prática como psicólogo, nos coloca diante de imagens fotográficas e cinematográficas cujo conteúdo traz à baila um rico contexto histórico de mudanças na auto-imagem do “homossexual” e algumas tentativas que convivem com a tensão entre enfrentar a homofobia a partir de práticas afirmativas ou autodestrutivas. O universo erótico produzido por Tom of Finland potencializa o que Piscitelli havia denominado de relação entre “sujeição-subversão”. Daniel Barbosa dos Santos, a partir de uma leitura rente da história da sexualidade de Michel Foucault e de D. Halperin, envereda pela indagação antropo-filosófica sobre os possíveis elos e distâncias culturais entre a tradição clássica helenista, sua arte erótica e a ética das práticas e predileções sexuais por parceiros do mesmo sexo e a maneira como a modernidade “cria” determinadas condições de objetividade à sexualidade e à homossexualidade. O último artigo deste grupo, embora não toque na questão da sexualidade, aborda, de maneira instigante, as relações de gênero e as reformulações das representações do masculino e do feminino no sertão nordestino. Nesse sentido, tendo a prática do bordado como mote, Martins e Liliana Chagas estudam as mudanças nas relações de trabalho, cultura e identidade do sertanejo, pois junto com a nova “técnica” vem toda uma mudança nos modos de subjetivação.

O segundo grupo tem a arte como ponto de partida para pensar as ligações entre o estético e o político, as acomodações e subversões do repertório artístico no diálogo com o seu momento. Assim, Costa retorna à poética de Pablo Neruda unindo trajetória literária e trajetória de vida e engajamento político naquilo que elas se complementam e-ou transcendem. Marko Monteiro, enfrenta um tema “da hora”. A bio-arte, as mútuas e múltiplas interfaces entre teconologia, corpo e criação estética propondo fundamentalmente uma revisão das nossas concepções artísticas e filosóficas sobre a materialidade do corpo e de seu diálogo com a racionalidade tecno-lógica contemporânea que extravasa e recria os limites entre natural-cultural, biológico-maquínico.

Os últimos artigos do dossiê tocam nas feridas da historiografia, tanto nas questões metodológicas e conceituais, quanto nos temas clássicos do debate político. Débora Andrade, com fôlego e densidade, busca na releitura e reescrita da biografia do historiador escocês do século XIX, Thomas Carlyle, conjugar sua obra escrita com os grandes embates políticos e pensadores de sua época. Mais do que um contexto de sua produção intelectual, a autora provoca a historiografia contemporânea a rever os lugares atribuídos a Carlyle, não para redimi-lo ou glorifica-lo, pelo contrário, para avaliar a dimensão de sua contribuição e temporizar a áurea conservadora do autor e a importância dos temas que o mesmo trouxe à tona, tais como o entendimento moral e político do culto aos heróis em diferentes momentos históricos. Alysson Freitas analisa as representações mais comuns ao universo sertanejo, elaboradas pela historiografia colonial. Coloca como contraponto as interpretações e produções representativas de um “novo sertão”, produzidas no século XIX, em contraste com as leituras historiográficas do período.

Por último, de certa maneira o texto que finaliza o dossiê e inaugura uma nova sessão na revista, figura o ensaio experimental de Fabrício que não só coloca o tema da subversão como reflexão, mas subverte de forma lúdica e instigante o que em geral concebemos como corpo do texto e notas de rodapé. História e literatura se bicam uma vez mais, colocam uma à outra seu próprio inventário de questões dirigidas ao Alienista e seus arredores estético-éticos.

Pode ser que o leitor desconfie, indague, revire ou se entusiasme com as diferentes leituras agrupadas neste dossiê. No entanto, o mais importante é que deixe seu olhar e seu ver voltados para as brechas, frestas, que o façam atinar para as suas próprias subversões.

Karla Bessa

Dezembro de 2006


BESSA, Karla Adriana Martins. Subversões. História & Perspectivas, Uberlândia, v.1, n.35, 2006. Acessar publicação original [DR].

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