KEAN, Hilda; MARTIN, Paul (Org). The Public History Reader. London / New York: Routledge, 2013. Resenha de: SANTHIAGO, Ricardo. A história pública e suas vertentes em The Public History Reader. Resgate, v.22, n.28, p.103-106, jul./dez., 2014.

Um “reader” pode ser tão somente aquilo que a adoção deste termo exige que ele seja: uma antologia, um compêndio, uma reunião de traba­lhos escritos por uma variedade de autores. Mas um “reader” de certa área de conhecimento, propondo­-se como tal, pode ter também – e desejavelmente tem – um caráter pedagógico valioso: o de compilar aquilo que se produziu de mais significativo nessa área, embrulhando esse conteúdo numa obra única, amplamente acessível, que contribui, para o bem ou para o mal, para a fixação de um cânone.

Essa é uma tarefa um tanto quanto ingrata – pelo menos se levada a cabo com responsabilidade. Ela compreende percorrer criticamente a vastidão de toda uma literatura, decompondo-a e recompon­do-a de modo a decifrar certa tradição intelectual e propor trilhas de compreensão a serem seguidas por leitores nem sempre despertos para o nível de interpretação subjacente a elementos que se apre­sentam como editoriais. Ela comporta, ainda, um encargo nada modesto: guiar os que doravante se dirigirão à antologia não para se introduzirem a um corpo de conhecimento, ou para complementá-lo, mas para substituir a leitura integral de um número colossal de obras. Nesse sentido, um bom reader de uma área teria uma espécie de função cartográfica.

Os historiadores ingleses Hilda Kean e Paul Martin tomaram para si o trabalho de organizar o The Public History Reader, que a Routledge lançou em 2013. Não foi uma tarefa inédita, já que, entre outros trabalhos de história pública, eles já haviam organizado inclusive coletâneas. Com o australiano Paul Ashton, Hilda organizou People and their Pasts: Public History Today (Palgrave Macmillan, 2009), ed­itado em brochura como Public History and Heritage Today: People and their Pasts (Palgrave Macmillan, 2012). Junto com Sally J. Morgan, Kean e Martin organizaram Seeing History: Public History in Britain Now (Francis Boutle, 2000). Neste, reuniram-se re­latos de experiência em história pública na Inglater­ra. No outro, o mesmo enfoque projetava-se para uma dimensão internacional. E em The Public His­tory Reader, o que se encontra?

São 19 capítulos divididos em três partes. “The Past in the Present: Who is Making History?”, a primeira delas, sustenta-se sobre a ideia de que exis­te uma relação simbiótica entre passado e presente: sua meta é compreender como o passado, fluido por natureza, é reelaborado para atender aos obje­tivos no presente. Essa relação se dá em diferentes níveis, inclusive na vida cotidiana – como mostram Raphael Samuel, com um trecho de seu clássico Theatres of Memory tratando das “mãos invisíveis” da história, e Roy Rosenzweig e David Thelen, com o influente The Presence of Past: Popular Uses of His­tory in American Life, investigação sobre as maneiras através das quais as pessoas se relacionam com o passado no dia a dia. Segundo o organizador do livro, Paul Martin, isso poderia ser entendido como história pública: “Elas estão fora da academia e apontam para um conhecimento personalizado, experiencial ou autodidata que informa o indivíduo sobre o papel da história em moldar seu presente. É história pública também porque, em seu reco­nhecimento, ela empodera o indivíduo na percep­ção de sua posse e como colaboradores para aquilo que a história é e como ela é feita” (p. 2).

Ao longo de toda a coletânea, seja nos tex­tos apresentativos ou nas peças escolhidas para nela figurar, evidencia-se o projeto dos organiza­dores de reorientar a concepção de “história públi­ca” para algo que não passa necessariamente por bens culturais produzidos por historiadores profis­sionais e dirigidos ao público. Diante da pergunta “quem está fazendo história?”, os organizadores apontam para respostas que quase sempre levam à ideia de povo. Assim, ainda na primeira parte, Iain J. M. Robertson (“Heritage from Below: Class, Social Protest and Resistance”) defende o caráter democrá­tico e anti-hegemônico que o patrimônio material ou imaterial, quando gerenciado pela comunidade, pode adquirir; Graeme Davison (“The Use and Abu­se of Australian History”) trata dos desafios práticos das histórias de família, ramo muito praticados de história pública, no trato dos povos aborígines aus­tralianos; James Green (“Taking History to Heart: The Power of Past in Building Social Movements”) revisita a transformação em sua maneira de encarar a pesqui­sa e o ensino de história após sua participação no History Workshop de 1976; Jorma Kalela (“Making History: The Historian and Uses of the Past”) focali­za questões como a valoração e a legitimidade da pesquisa histórica no trabalho comunitário que faz com sindicalistas; e Matthew J. Taylor e Michael K. Steinberg (“Forty Years of Conflict: State, Church and Spontaneous Representation of Massacres and Mur­der in Guatemala”) problematizam as demandas me­moriais na Guatemala, trinta anos após o fim da Guerra Civil no país, avaliando como os massacres e assassinatos são representados e interpretados no presente. A abordagem das maneiras como públi­cos e historiadores envolvem-se na construção de conhecimento histórico é a linha comum destes ca­pítulos.

A segunda parte de The Public History Reader, intitulada “Materials and Approaches to Making His­tory”, trata dos materiais e dos métodos com que a história pública lida – na perspectiva dos organiza­dores, em abordagens que distariam da história por assim dizer convencional, uma vez que esta última se basearia fundamentalmente em arquivos e regis­tros escritos. A história pública teria outros pontos de partida, como a relação das pessoas com seus objetos pessoais, mediando seu contato com o pró­prio passado e com a sociedade, tema do capítulo de Sherry Turkle (“Evocative Objects: The Things That Matter”). Na dupla posição de historiadora e filha, a organizadora do livro Hilda Kean comparece com um trecho de seu livro autoral (“London Stories: Per­sonal Lives, Public Histories”) no qual radiografa os objetos colecionados por sua mãe e herdados por ela. Já Paul Martin (“The Trade Union Badge: An Ep­och of Minority Symbolism? The Pervasion of the Badge and the Contraction of the Union”) explora o simbo­lismo dos broches com emblemas sindicais que, destinados ao uso em público, visam transmitir de madeira inequívoca o orgulho dos trabalhadores por seu associacionismo.

Em outra chave, Daniel Cohen (“The Future of Preserving Past”) trata da formação, preservação e acesso a acervos digitais, com suas especificidades em termos de cobertura e de aprofundamento. De­borah Dean e Rhiannon Williams (“Critical Cloth: To Be Continued…” e “The Time I’m Taking: Sewing Proust”) comentam o trabalho original em artes visuais desta última, baseado em um processo de corte e colagem de textos que ambas aproximam conceitualmente da acumulação. A segunda parte do livro encerra-se com um trecho do trabalho já canônico de Paul Ashton e Paula Hamilton (“His­tory at the Crossroads: Australians and the Past”), base­ado em uma pesquisa de abrangência nacional na Austrália, a respeito de como as pessoas, as insti­tuições e os historiadores se relacionam com o pas­sado e com bens culturais que carregam conteúdo histórico.

As relações intangíveis e tangíveis com o passado, respectivamente nos âmbitos da interpre­tação de visões internalizadas sobre o passado e de sua representação, enovelam os textos que formam a terceira parte da coletânea, “Intangible and Tangible Presentations of the Past”. James A. Flath (“The Cult of Happiness: Nianhua, Art and History in Rural Nor­th China”) comenta o papel das fotografias nianhua como formas de narrativa histórica no ambiente rural chinês. Cahal McLaughlin (“‘Under the Same Roof ’: Separate Stories of Long Kesh/Maze”) mapeia as várias relações estabelecidas, por seus sujeitos e seus públicos, com os significados da Prisão de Maze, na Irlanda do Norte. Sandra Prosalendis e seus colaboradores (“Recalling Community in Cape Town: Creating and Curating the District Six Museum”), abordam o dilema de constituir um museu em Cape Town a partir da problemática da destruição com­pleta ocasionada pelo apartheid, o que põe em foco a relação da instituição museológico com os obje­tos ou a ausência de objetos. O ficcionista Lawren­ce Scott (“Golconda: Our Voices, Our Lives”) mostra parte de um trabalho baseado em histórias orais com ex-cortadores de cana de açúcar. Michael Bel­grave (“Something Borrowed, Something New: History and the Waitangi Tribunal”) trata da atuação de histo­riadores como peritos – no caso, na interpretação do Tratado de Waitangi, que garantiria propriedade de terras ao povo nativo Maori, na Nova Zelân­dia. Alan Rice (“Creating Memorials, Building Identities: The Politics of Memory in the Black Atlantic”), por fim, propõe indagações sobe o apagamento da história de participação da cidade marítima de Lancaster na rota de tráfico de escravos.

Ao contrário de algumas obras multiautorais de história pública mais antigas, The Public History Reader apresenta essencialmente capítulos com base empírica sólida, o que adensa seu significado. São ideias e propostas calcadas em pesquisas efetivamen­te executadas, informadas por uma variedade mui­to grande de concepções sobre a história pública. Através dos capítulos, passeamos pela China, pela África do Sul, pela Nova Zelândia, pela Inglaterra, pela Austrália – de modo que a bem vinda represen­tação de autores internacionais, traduzida em temas locais, permite observar como os desafios da his­tória pública têm sido colocados e enfrentados em diferentes paisagens, com especificidades históricas, sociais, culturais. O horizonte de possibilidades e o cosmopolitanismo da história pública é efetivamente ampliado graças a cada um desses textos.

A coletânea, contudo, é regida por uma perspectiva unívoca, que não permitiu que essas ex­plorações muito arejadas de história pública dialo­gassem com outras tantas. A public history que Hilda Kean e Paul Martin trazem para esta antologia é a mesma que eles levaram para seus trabalhos ante­riores: marcadamente comunitária, assumidamente ligada a uma história vista de baixo, elementos que caracterizam a corrente principal da história públi­ca britânica. A reprodução de uma visão particular em um reader que, em princípio, deveria ser abran­gente, significa na prática a negligência à tradição de uma história pública ligada à profissionalização do historiador, à sua atuação em campos que não a pesquisa acadêmica ou o ensino. Não há em The Pu­blic History Reader qualquer abordagem sobre mídias impressas e eletrônicas, sobre o papel dos governos na produção e na administração da memória, sobre políticas públicas, sobre história empresarial e ins­titucional, sobre mercado editorial, sobre literatura histórica. Mesmo a história digital é mal represen­tada, já que o capítulo de Daniel Cohen restringe-se a acervos e fontes digitais. A história pública como apresentação pública da história não tem lugar nes­te reader, sequer em um gesto retórico por parte dos organizadores no reconhecimento da dignidade de outras vertentes.

Um posicionamento como esse se traduz inevitavelmente na ausência de nomes e trabalhos essenciais. Na introdução geral ao livro e nas óti­mas apresentações a cada uma das partes, os or­ganizadores demonstram sua erudição, mencionan­do problemas chave no enfrentamento da história pública e aludindo a autores que escreveram obras importantes que não estão representadas em The Public History Reader. É difícil entender o porquê. Um retrato daquilo que de mais criativo se produ­ziu sobre história pública nos últimos anos estaria incompleto sem a presença do abrangente trabalho de Jerome De Groot sobre o consumo popular da história. O comentário algo desabonador ao tra­balho de David Lowenthal em The Past is a Foreign Country deveria ser equalizado com a reprodução de um trecho dele, que tanto influenciou praticantes e estudiosos do patrimônio. E não parece possível que qualquer obra que se pretenda um “reader” de história pública não contenha um extrato de A Sha­red Authority, de Michael Frisch, trabalho de resso­nância internacional inequívoca.

Isso, aliás, aponta para um terceiro proble­ma: o pouco reconhecimento que se dá à história oral como um campo que contribuiu muito para o desenvolvimento da reflexão sobre história publica – já que seus pesquisadores se relacionam inevita­velmente com públicos, isso não é de surpreender.

Esse não é o caso só da história oral, mas de outros campos avizinhados que, de certa forma, têm sua força questionada por uma antologia que parece se pretender fundadora – à medida que a preocupação em defender uma postura única acaba deixando de lado a própria história da história pública. Acontece que os demais sujeitos e acontecimentos da trajetó­ria desse campo seriam fundamentais para contex­tualizar a perspectiva que Hilda Kean e Paul Martin nos apresentam; mais do que isso, essa contextuali­zação serviria para intensificar a eficácia deste ramo de história pública polifônico e multidirecional. Não é o que acontece neste livro. Ele certamente é um reader” – uma boa coletânea, que cumpre a fun­ção de reunir em um só volume amostras e insights sobre a história pública de pendor comunitário –, mas definitivamente não é o reader” de uma área de atuação e reflexão multifacetada.

Ricardo Santhiago – Pós-graduando na Universidade Federal Fluminense. [email protected].

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