A Aprendizagem Histórica e os usos de Narrativas (Auto) biográficas / História Revista / 2018

A interpretação histórica desemboca em uma forma de saber, na qual a factividade do acontecimento passado se torna narrável; ou seja, estende‐se na forma de apresentação de uma história. As duas coisas não podem ser separadas, exata e absolutamente, em sua sequência.

Jörn Rüsen

O dossiê A Aprendizagem Histórica e os usos de Narrativas (Auto)biográficas, da revista da Faculdade de História e do Programa de Pós‐Graduação em História da Universidade Federal de Goiás, História Revista, reúne artigos relacionados com a aprendizagem histórica, em suas diversas vertentes teórico‐metodológicas, e os usos de narrativas (auto)biográficas, seja na formação de professores de história, seja na práxis escolar na educação básica. Narrativas (auto)biográficas ou narrativas de vida devem ser entendidas para além dos limites da autobiografia escrita, pois o conhecimento não pode ser reduzido a uma representação total ou atomizada de um sujeito, mas sempre como conhecimento de si a partir da inserção em fenômenos sociais coletivos. A experiência de ensino e aprendizagem de história envolve necessariamente as experiências de formação docente, as experiências e práxis escolares, assim como a experiência escolar e a formação discente.

“Nas sociedades desenvolvidas, a escolarização, atualmente, faz parte de toda a experiência de vida. Ela visa primeiramente socializar e desenvolver as capacidades dos indivíduos: nisso ela produz, simultaneamente, o mesmo e o diferente” (BERTAUX, 2010, p. 55). Portanto, neste dossiê da História Revista foram admitidos artigos relacionados com a formação docente baseada em narrativas de si enquanto projetos de formação, assim como relatos de práticas de ensino de história e aprendizagem histórica. Todos ancorados em práticas do uso de histórias de vida – biografias, autobiografias, diários, memórias, etc. – como instrumentos e contextos formativos, analíticos e interpretativos, pois “mais do que um ser no mundo, o ser humano se tornou uma presença no mundo, com o mundo e com os outros. Presença que, reconhecendo a outra presença como um ‘não eu’ se reconhece como a ‘si própria’.” (FREIRE, 1996, p. 18). Esta estratégia de aprendizagem, que relaciona o ensino de história, a aprendizagem histórica e os usos de narrativas (auto)biográficas, apresenta‐se como necessária nos tempos presentes da modernidade capitalista e conservadora, que naturaliza os conceitos e práticas educativas como instrumental objetivo de construção de um ‘não humano’ – previsível, individualista, consumista –, e portanto infeliz, pela não consciência de si e consequente inacessibilidade à consciência histórica.

O primeiro artigo, intitulado Reminiscências do tempo de escola no ensino de história da educação: autobiografias, memórias e acervos familiares, de autoria de Terciane Ângela Luchese, tem como objetivo pensar o ensino de História da Educação, analisando uma vivência metodológica que se inscreve como inovação pedagógica ao relacionar (auto)biografias, memórias, história oral e acervos familiares com história no campo da educação. O texto resulta de uma experiência realizada pela autora nos últimos cinco anos, que sistematicamente tem trabalhado com o ensino de História da Educação na formação de professores em cursos de graduação em pedagogia, onde a disciplina é obrigatória. As análises dos materiais didáticos e dos registros produzidos nessa experiência docente constituem o campo empírico do artigo que, ancorado nos referenciais da História Cultural, reflete e analisa as potencialidades e os limites do ensino da disciplina de História da Educação. A distância entre a produção de pesquisas no campo da História da Educação e as práticas de ensino inspiradas nesses novos referenciais constitui ponto de reflexão que buscam instigar os acadêmicos e mobilizá‐los intelectualmente para aprender História da Educação com o objetivo de provocar efeitos na qualidade do ensino escolar a partir da experiência formativa narrada e pensada.

Blasius Silvano Debald, é o autor do artigo intitulado Docência e currículo de história por competências: aprendizagem significativa e protagonismo estudantil. O estudo, do qual resultou este trabalho, averiguou a organização curricular por competências do curso de história no Centro Universitário União das Américas, na cidade de Foz do Iguaçú/Paraná, primeira instituição brasileira a aplicar as Metodologias Ativas de Aprendizagem no ensino superior. A problemática investigativa teve como questão norteadora compreender de que forma estrutura‐se o currículo por competências no Curso de História.    A opção metodológica orientou‐se pelos estudos e aplicações no campo educacional da narrativa autobiográfica a partir de pesquisadores considerados clássicos e reconhecidos epistêmica‐ metodologicamente como Gaston Pineau, Daniel Bertaux, Antônio Nóvoa e Maria da Conceição Passeggi, entre outros. Os resultados apresentados indicaram que o currículo por competência centra‐se em conhecimentos que terão aplicabilidade no campo profissional. A produção de aprendizagens significativas e o protagonismo estudantil contribuem para o desenvolvimento da autonomia, rompendo com a dualidade teoria‐prática. As conclusões apresentadas no artigo demonstraram que o estudante que aprende por competências tem maior compreensão das particularidades da profissão escolhida.

Com o título Narrativa, História de Vida e Aprendizagem Histórica, Sandro Luis Fernandes e Maria Auxiliadora Schmidt apresentam o trabalho que tem como foco a análise desenvolvida nas produções de narrativas de uma turma de oitavo ano de Escola da Cidade Industrial de Curitiba (CIC): região ocupada por migrantes a partir dos anos 1970. Um estudo exploratório considerado como a primeira fase da pesquisa ação, detectou a ausência de relações entre a história da localidade e as memórias individuais e coletivas dos alunos. A partir dos resultados obtidos foi dada continuidade à pesquisa ação, adotando‐se estratégias como narrativas autobiográficas, produção de árvore genealógica, entrevistas e pesquisa documental. Elementos obtidos no resultado final indicam a importância de narrativas autobiográficas como referência para o trabalho da aula histórica, cujo objetivo é a formação da consciência histórica, isto é, o autoconhecimento dos alunos, bem como sua relação com a memória e a construção de identidades, para dentro, isto é, a relação consigo mesmo e, para fora, a relação com o outro, na perspectiva da orientação temporal do presente, passado e futuro.

Adriane Sobanski e Rita de Cássia Santos, autoras do artigo Experiências de professores, Ensino de História e o desenvolvimento do conhecimento histórico, discutem teoricamente o papel do professor e de como ele utiliza o seu conhecimento do passado para se desenvolver enquanto professor pesquisador. O texto apresenta discussões teóricas, a partir de aportes bibliográficos e empíricos sobre o desenvolvimento do professor pesquisador e do papel da sua experiência autobiográfica. Além de debater a formação deste profissional e como a perspectiva da Educação Histórica auxilia o desenvolvimento da consciência histórica de alunos, tendo como ponto de partida o reconhecimento de que o professor e suas experiências estão intrinsicamente ligados a um trabalho pedagógico bem desenvolvido. Trata‐se de uma apresentação do resultado de trabalho empírico, realizado pelas autoras, junto a professores da rede estadual de ensino do Estado do Paraná; interpretado teoricamente a partir da produção de autores como Maria Auxiliadora Schmidt, Isabel Barca, Jörn Rüsen, Peter Lee, entre outros.

Sob o título A cultura histórica como possibilidade investigativa a partir de histórias em quadrinhos (auto)biográficas com personagens históricos latino‐americanos, Marcelo Fronza apresenta um estudo que investiga como a cultura histórica latino‐americana está relacionada com a forma como os jovens tomam o conhecimento para si a partir de histórias em quadrinhos (auto)biográficas. A investigação é estruturada nas relações entre a cultura jovem, as histórias em quadrinhos e a cultura histórica de uma sociedade. Parte da preocupação de compreender os processos históricos vinculados à relação entre a interculturalidade e o novo humanismo, desenvolvido pelo teórico da Educação Histórica Jörn Rüsen; e o princípio da burdening history, proposto por Bodo von Borries, na divulgação dos resultados de suas pesquisas relacionadas com o ensino de história, o qual propõe que o fardo da história pode ser superado pela interpretação multiperspectivada instauradora de controvérsia provida pela autocrítica na teoria da história.  No transcorrer do texto analisam‐ se histórias em quadrinhos que narram experiências (auto)biográficas de sujeitos que enfrentaram e resistiram à escravidão, à violência política e ao racismo na América Latina e participaram dos processos revolucionários de Cuba. O autor, Marcelo Fronza, considera que o gênero (auto)biográfico nos quadrinhos é fundamental para a compreensão da imagem pública dos sujeitos.

Autobiografia, carência de orientação e produção historiográfica: um exercício de meta‐narrativa é o artigo de autoria de Gilmar Arruda, que afirma que uma boa parte da produção historiográfica contemporânea admite a influência da subjetividade do historiador na construção do conhecimento histórico e considera que a autobiografia está sempre presente na formulação das perguntas, métodos, narrativas e explicações no processo de construção do pensamento histórico‐científico. Com base nesse pressuposto, o artigo pretende, em primeiro lugar, ser uma análise de como a autobiografia influenciou a construção da produção de um determinado pensamento histórico‐cientifico a partir da análise de uma tese de doutoramento de 1997; e, em segundo lugar, como o tempo presente do próprio personagem da autobiografia, orientou a análise atual da relação entre autobiografia e pensamento histórico‐científico. O autor pretende demonstrar que a autobiografia é fundamental para compreender a construção do pensamento histórico‐ científico e a aprendizagem histórica dos historiadores, considerando, também, que o artigo é, portanto, uma meta‐narrativa sobre a autobiografia.

Como conclusão do dossiê A Aprendizagem Histórica e os usos de Narrativas (Auto)biográficas, é apresentada a Entrevista com Bodo von Borries, Universidade de Hamburgo – Alemanha (Interview mit Bodo von Borries, Universität Hamburg – Deutschland), realizada e traduzida por Jorge Luiz da Cunha, em setembro de 2016. Bodo von Borries, considerado um dos mais importantes pesquisadores do campo da Didática da História, marca sua produção intelectual e suas práxis de formação de professores a partir da Aprendizagem Histórica, por meio do levantamento e interpretação hermenêutica de narrativas autobiográficas. Trata‐se de importante registro da produção científica e conceitual, relacionada e experienciada pelo entrevistado, entre os conceitos teórico‐ metodológicos do ensino e aprendizagem histórica e as narrativas autobiográficas, como fonte de pesquisa e significação e como metodologia estratégica e transformadora: “História não é ‘passado’, mas ‘a exigência por relatos reais sobre acontecimentos passados, processos, mudanças, desenvolvimentos, que ainda hoje são relevantes para a atualidade e para o futuro” (Bodo von Borries).

As Narrativas (Auto)biográficas são exercício de significação da realidade, em todos os seus contextos, especialmente os históricos. Sendo assim, fazem parte da educação de todos os sujeitos, discentes e docentes, e são fundamentais para a Aprendizagem Histórica – estratégia política de manutenção da condição humana, através da autonomia garantida pela Consciência Histórica. Uma “opção epistêmico‐política, ancorada na pesquisa (auto)biográfica de formação e pesquisa, tem possibilitado entender a formação como uma disposição centrada no sujeito que aprende a partir de suas próprias histórias e trajetórias de vida‐formação, entendendo a formação como uma construção de sentido” (SOUZA, 2018, p. 109).

Referências

BERTAUX, Daniel. Narrativas de vida: a pesquisa e seus métodos. Tradução Zuleide Alves Cardoso Cavalcante, Denise Maria Gurgel Lavallée. Natal: EDUFRN; São Paulo: Paulus, 2010.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

SOUZA, Elizeu Clementino de. Autobiografia como acontecimento: vida, pesquisa e formação. In: ABRAHÃO, Maria Helena Menna Barreto et al. (Orgs.). A nova aventura (auto)biográfica. Porto Alegre: EdiPUCRS, 2018.

Jorge Luiz da Cunha –  Universidade Federal de Santa Maria – UFSM. E-mail: [email protected] 

Maria da Conceição Silva –  Universidade Federal de Goiás – UFG.  E-mail: [email protected]


CUNHA, Jorge Luiz da; SILVA, Maria da Conceição. Apresentação. História Revista, Goiânia- GO, v. 21, v. 23, n. 2, mai/ago, 2018. Acessar publicação original [DR]

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