A Arqueologia é uma das disciplinas que mais se desenvolveu no Brasil nas últimas décadas, tanto em termos de métodos, quanto de resultados e enfoques. Desenvolvimento este que se encaixa com a própria situação da disciplina na América Latina, onde os pesquisadores vêm desenvolvendo uma arqueologia claramente de cunho social [1].

A alteração da imagem das populações mais antigas caberá à arqueologia. Evidentemente outros estudos contribuíram substancialmente para modificá-la, mas é a arqueologia que será capaz de construir um mundo por trás dos artefatos, das fogueiras e dos ossos, estabelecer um processo, enxergar uma organização espacial e a exploração deste espaço. Neste sentido, é que afirmamos que o trabalho do arqueólogo, visto como reconstituição e entendimento do passado, confunde-se com o próprio objetivo do historiador.

Porém, os meios do arqueólogo seriam, a priori, mais reduzidos. Os vestígios arqueológicos permitem construir um sistema de oposições que não têm significados sociais absolutos. Assim, o grande desafio seria passar das propriedades materiais dos objetos (ou restos) à percepção de características sociais. Objeta-se que uma série arqueológica, mesmo que representativa de uma cultura, não permitiria compreendê-la em termos de processo, ou seja, as relações entre cultura material e processo social só seriam inteligíveis com a ajuda de outras fontes, como textos literários ou testemunhos etnográficos. Portanto, o conhecimento real do fenômeno social só se daria através da linguagem.

A arqueologia moderna e social, porém, recusa a distinção entre elementos materiais e não materiais de uma cultura, entendendo que as informações sociais estão presentes tanto nos objetos quanto na linguagem. Os limites da arqueologia resultariam dos métodos empregados, não das características de seus materiais. Ultrapassar estas barreiras significou questionar conceitos já estabelecidos e desenvolver novas estratégias.

As estratégias atuais preconizam que o conjunto de estruturas e objetos que a arqueologia revela devem ser vistos como conjuntos de informações com propriedades definidas, que devem ser consideradas espacialmente e temporalmente, associando as relações verificadas as características dos materiais e buscando para cada relação à sua função. Utilizando ainda informações externas ao revelado pela pesquisa, torna-se possível reconstituir o processo e os modos culturais da sociedade em estudo. Desta forma, cada vestígio contém todos os níveis das manifestações culturais e sociais de seus autores, integrando- -se em um conjunto completo em que cabe ao arqueólogo ler as relações que cada um contém, desde um artefato até o próprio sítio.

Assim, a arqueologia se mostra hoje uma ciência extremamente moderna e o trabalho do arqueólogo, atividade de profissionais altamente capacitados.

Por outro lado, é natural que na América Latina (e, por extensão, no Brasil) continente de impressionante multiplicidade étnica e com uma antiguidade considerável, a arqueologia possua um lugar de destaque. Desde que as primeiras populações aqui adentraram, foram produzidos movimentos e entrelaçamentos sociais e culturais. Movimentos e entrelaçamentos que, grande parte das vezes, somente a arqueologia é capaz de revelar.

Neste sentido, em seu sétimo número, a Maracanan, apresenta, com os quatro primeiro artigos, o Dossiê: Arqueologia Brasileira – movimentos e entrelaçamentos, com temas ligados por esta preocupação e que revelam o estado da arte da disciplina.

Inicialmente, Jorge Eremites e Rodrigo de Aguiar, apresentam um trabalho inédito, seja pela região estudada, seja pela temática. Tratam da região do Jalapão, no Estado do Tocantins, praticamente desconhecida para a arqueologia brasileira, onde foram localizados alinhamentos de pedras (megalitismo), com possível significado arqueoastronômico.

Em seguida, Sibeli Viana e Pedro Paulo Guilhardi, de forma bastante didática, tratam dos contextos sócio-culturais de instrumentos líticos, a partir de sítios arqueológicos do Brasil Central. Seu estudo privilegia a abordagem antropotécnica na análise dos instrumentos, os pensado a partir do ambiente humano.

Paulo Seda, Christiane Machado, Gláucia Sene e Laura Ribeiro da Silva, abordam a tradição ceramista Una e sua longa caminhada pelo sudeste até atingir o litoral do Espírito Santo. De forma bastante inovadora, entendem que o dinamismo das tradições arqueológicas representa um verdadeiro processo histórico.

Por fim, Marcos André de Souza, traz uma contribuição nova e importante ao estudo da escravidão, abordando-a, a partir da arqueologia, através da cultura material. São materiais escavados no interior das senzalas do Engenho São Joaquim, Goiás, e o autor discute as práticas sociais associadas a estes materiais.

Os trabalhos que se seguem ao dossiê, sem perder de vista os movimentos e entrelaçamentos, continuam a discutir a América Latina.

No âmbito da América Colonial, Rogério Basile, tratando do processo de urbanização no México, contrasta as percepções espanhola e asteca sobre um mesmo fenômeno: as cidades. Já Ana Raquel Portugal, debruça-se sobre a temática da bruxaria e da feitiçaria nos processos inquisitoriais e de extirpação de idolatrias no Peru colonial, mostrando como estes termos foram aplicados a práticas mágico-religiosas.

Mariana Moreno Castilho, por sua vez, aborda a concepção de mestiçagem indígena no século XIX, a partir da visão de José Veríssimo em Cenas da vida Amazônica. Com Mariana del Rocio Aguilar, os movimentos e entrelaçamentos chegam à contemporaneidade. A autora discute os direitos indígenas, seu lugar na legislação em vigor e sua relação com o exercício da cidadania. Encerrando o volume, em um extremo de movimento e entrelaçamento, Mariana Abramova, com um pequeno ensaio trata do governo Evo Morales, analisando a Nueva Constitucion Politica del Estado, sua aprovação, conseqüências e significados.

Desta forma, se o volume inicia discutindo como as etnias originais da América Latina se relacionavam com os astros e fabricavam seus instrumentos de pedra, termina discutindo como hoje exercem o poder a nível nacional na Bolívia. Movimentos e entrelaçamentos não cessam, mostrando o enorme poder de resistência e renovação das etnias.

Nota

1. Andrés ZARANKIN; Félix A. ACUTO (eds.). Sed non satiate. Teoría social en la arqueología latinoamericana contemporánea. Buenos Aires, Ediciones del Tridente, 1999; Félix A. ACUTO; Andrés ZARANKIN (eds.). Sed non satiate II: acercamientos sociales en la arqueología latinoamericana. Córdoba: Encuentro Grupo Editor, 2008.

Paulo Seda – LEPAmA – Laboratório de Estudos e Pesquisas da América Antiga / NUCLEAS – Núcleo de Estudos das Américas


SEDA, Paulo. Apresentação. Revista Maracanan, Rio de Janeiro, v.7, n.7, 2011. Acessar publicação original [DR]

Acessar dossiê

Deixe um Comentário

Você precisa fazer login para publicar um comentário.