A produção significativa de eventos comemorativos em torno dos chamados 500 anos de Brasil motiva a Revista Brasileira de História a trazer a público o dossiê “Brasil, Brasis”. Distante da efeméride, seu objetivo é estimular reflexão sobre os diversos sentidos que o conceito de Brasil apresentou historicamente. Visando repensar as interpretações do passado, os artigos que o constituem abrem-se para diversidades sociais, econômicas políticas e culturais, abordadas em tempos e espaços múltiplos.

Seu ponto de partida localiza-se no significado dos três séculos de colonização portuguesa que implicaram na configuração de um território, de relações com a metrópole, de uma sociedade colonial e na difusão da língua portuguesa. Na seqüência, busca-se repensar tal herança na atual sociedade brasileira.

O artigo de Seth Garfield abre o dossiê com o estudo das relações entre a população indígena e as políticas nacionalistas do Estado Novo, sobretudo a da Marcha para o Oeste. A partir de uma perspectiva de dupla direção, aborda tanto a política indigenista construída e aplicada por intelectuais e funcionários do governo, quanto a interlocução obtida com seus destinatários. No campo da cultura política situa-se também o artigo de Antônio Penalves Rocha, que analisa a difusão das idéias antiescravistas da Ilustração no Brasil, no início do século XIX, evidenciando a especificidade de sua reconstrução por intelectuais, numa releitura que configura um dos Brasis, o da escravidão e de suas contradições presentes nos movimentos abolicionistas. O artigo de Élio Serpa examina aspectos da cultura política nacionalista durante a Primeira República. Desavindos ou desacordes eram os intelectuais portugueses e brasileiros, na tarefa de produzir representações sobre a antiga colônia. A existência de um “Brasil mental” construído por portugueses teve como referenciais o nacionalismo e o colonialismo; veiculado em periódicos, esse discurso estabeleceu contraponto no diálogo entre a metrópole e as colônias remanescentes na África.

Analisando redes mercantis a partir de contratos e inventários Helen Osório desenvolve pesquisa minuciosa sobre a formação do “grupo mercantil” no Rio Grande de São Pedro, dada pela perspectiva de sua inserção na América Portuguesa. Sua leitura atenta de amplo corpus documental resulta na construção temática de um Brasil pouco estudado, em suas relações, por vezes conflituosas, com a elite comercial hegemônica do Rio de Janeiro e com a metrópole.

Dois artigos ampliam o leque das interpretações sobre o Brasil, ao abordarem o campo artístico. O texto de Eduardo Morettin elabora uma interpretação historiográfica do tema do descobrimento cruzando diversos tipos de fontes e de perspectivas analíticas, a historiografia do século XIX, o cinema, as artes plásticas e, completando o circuito, os livros didáticos. A interpretação da produção e circulação da temática inova ao cotejar elementos que permitiram a construção de um quadro de referências no qual a nação brasileira constitui presença obrigatória. Marcos Napolitano e Maria Clara Wasserman dão continuidade aos estudos historiográficos do campo artístico ao analisar metodologicamente as discussões em torno das origens da música popular brasileira. Neste Brasil feito de experiências e de obras musicais, Brasil e samba são sinônimos? Este e outros mitos são desconstruídos ao longo do estudo que tece um quadro polifônico de sons e idéias. O artigo de Luís Felipe Miguel completa o dossiê ao desvendar o Brasil da mídia, produzido pela moderna indústria de comunicação de massas, a qual teve nas últimas décadas impacto decisivo na história política.

Integrado aos estudos das relações entre história e música, José Geraldo Vinci de Moraes abre a seção de artigos ao sistematizar reflexões acerca da avaliação teórico-metodológica da canção popular em termos historiográficos. Indica a necessidade de superação da tradicional história da música por uma abordagem interdisciplinar especialmente promissora ao permitir análises integradas de manifestações musicais em movimentos sociais, abrindo possibilidades de releituras da música / canção popular numa perspectiva de circularidade fornecida pela história cultural. No mesmo sentido de abertura da história às manifestações artísticas e literárias, o artigo de Antônio Paulo Rezende analisa a obra de Octávio Paz. O Labirinto da solidão desafia a historiografia a compreender a história como dimensão poética que confronta o antigo e o moderno em sua leitura do mundo.

Finalmente, o artigo de Olga Brites analisa representações sobre a infância e a família construídas pela propaganda durante as décadas de 1930-1950, caracterizando seus vínculos com as questões referentes a higiene e saúde. A análise de anúncios veiculados sobretudo em periódicos fundamenta a abordagem do discurso publicitário, dos valores que foram por ele expressos e de suas propostas de sociedade, seu papel decisivo para a formação de hábitos e a configuração de um imaginário social.


Conselho editorial. Apresentação. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.20, n.39, 2000. Acessar publicação original [DR]

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