Crise: a exceção que se tornou regra

O dossiê “Crise na e da História: desafio à escrita e à reflexão crítica” foi concebido no contexto de crise sem precedentes vivenciada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), que vem se tornando alarmante desde, pelo menos, 2015. A situação de crise aguda inclui não só atrasos sistemáticos nos pagamentos de trabalhadores terceirizados, servidores, bolsistas, alunos cotistas, mas também a falta de verba de custeio para o funcionamento básico da universidade. Entendemos que propor uma reflexão sobre o conceito de “crise” representa não só uma forma de resistência ao lastimável momento atual da universidade, mas sobretudo uma abertura, uma provocação à reflexão. A crise da UERJ ganha então um sentido de metonímia, ou de um exemplo mais extremo dos dilemas atuais da universidade pública no Brasil. A crise da universidade pública, por sua vez, se articula com um cenário de crise nas ciências humanas.

Os artigos aqui apresentados são propostos como diferentes formas de tratar o conceito de “crise”, observando a sua amplitude semântica, e também almejam instigar a reflexão histórica, teórica e multidisciplinar. Deste modo, a temática central acolhe escritos relativos a historicidades diversas, abrangendo diferentes marcos espaço-temporais e abordagens interdisciplinares. Nessa pluralidade, os textos tratam de temas relativos à crise do capitalismo, crise na política, crise da universidade, crise das humanidades – compreendido o termo como formas variadas de conhecimento do mundo social –; sempre levando em consideração a crise enquanto problema histórico, empírico e teórico.

Para além da realidade da universidade no Brasil, não há dúvidas de que a crise está presente enquanto experiência, como uma vivência que se desdobra em sensações de insegurança, insatisfação e espanto diante da vida cotidiana, quando não de horror. A experiência do caráter movediço do presente alimenta atos vigorosos de repulsa aos poderes instituídos e às formas convencionais da política, da economia, do pensamento e das manifestações culturais. Se este parece inicialmente um cenário nacional ou latino-americano, os meios de comunicação, oficiais ou alternativos, mostram se tratar também de uma questão mundial. Por sua vez, os ensaios e textos acadêmicos revelam que essa vivência da crise ou seu conceito recorrente atingem todo o âmbito das humanidades, seja no que se refere aos objetos de conhecimento das diversas áreas, seja no que tange à própria fragilização dos arcabouços teóricos que as sustentavam, sendo estas duas dimensões de um só horizonte.

Articular presente, futuro e indagações acerca do passado é uma das facetas deste dossiê. O vocabulário da crise e sua relação com a crítica, como sublinhado por Reinhardt Koselleck, entre outros autores, não se restringe apenas a um diagnóstico do presente, mas remete a um sentido projetivo marcado pelo futuro, quer como esperança, expectativa, utopia ou distopia. Pensar sentidos para a(s) crise(s) não significa, então, tratar somente de decadência, decomposição ou fim, pois crise impulsiona reelaboração. A etimologia mesma da palavra, em grego ou latim, remete ao ato de separar, discernir e, portanto, à decisão, julgamento, evento ou momento decisivo. Ao mesmo tempo, é evidente que não vivemos mais na mesma ambiência otimista da modernidade: a contemporaneidade, independentemente da alcunha que receba (pós-modernidade, modernidade tardia, quarta cascata da modernização, regime de historicidade presentista, entre outras), suscita respostas, para novas e velhas questões. Sendo assim, o dossiê publicado agora pela Revista Maracanan busca tratar dessa perspectiva plural envolta no conceito de crise e por isso a sua estrutura visa oferecer uma resposta também múltipla por meio de entrevistas, ensaios, artigos analíticos e notas de pesquisa destinadas a tal indagação. Nos itens que se seguem, procuramos apresentar os artigos aqui reunidos, organizando-os em alguns blocos temáticos para os quais os assuntos tratados nos textos confluem.

Crise nas humanidades e crise na / da história disciplinar

O amplo espectro de contribuições presente no dossiê conflui para um questionamento da própria natureza da ideia de “crise”. Alguns artigos correlacionaram certo esgotamento das premissas epistêmicas que orientam a historiografia, associando-as à necessária ressignificação do papel do historiador. Esse é o tema presente em “Muito além das virtudes epistêmicas. O historiador público em um mundo não linear”, de Fernando Nicolazzi, que explora, por meio da análise da atuação do historiador Leandro Karnal, a zona de interseção entre a dimensão ética e a dimensão política do historiador. Esta mesma zona fronteiriça entre ética e política é abordada por Arthur Lima de Avila, no texto “Indisciplinando a historiografia: do passado histórico ao passado prático, da crise à crítica”, em que investiga o conceito de “passado prático” proposto pelo historiador Hayden White, questionando seus usos e limites diante dos impasses da historiografia contemporânea. Por sua vez, o artigo de Carlos Maia, “A crise da história e a onda pós-estruturalista” expõe uma argumentação que associa a crise da história às reflexões pós-estruturalistas, atento à categoria “narrativa histórica”, e defensor da tese de que a “crise da história” é uma crise dos historiadores motivados por uma ontologia alheia aos valores históricos e que reagem negativamente à perda de seus referentes realistas.

Também cabe destacar a contribuição de Thamara de Oliveira Rodrigues e Marcelo de Mello Rangel, “Temporalidade e crise: sobre a (im)possibilidade do futuro e da política no Brasil e no mundo contemporâneo”, que procura, a partir de um quadro teórico que considera o problema da temporalidade tal qual pensado por autores como Hans Ulrich Gumbrecht e Reinhard Koselleck, compreender as implicações da presença ubíqua da noção de crise em nossa sociedade.

Crise e democracia

Com balizas cronológicas distintas, mas analisando acontecimentos históricos concretos, os artigos de Daniel Pinha e de Luis Edmundo da Souza Moraes trabalham de forma geral com os impasses históricos da democracia representativa, seja, no caso de Moraes, ao procura estudar o peso da crise generalizada que atinge a Alemanha, a partir do inverno de 1929-1930, como fator explicativo para a derrota do projeto republicano liberal e para a emergência do nazismo; seja, no caso de Pinha, ao procurar compreender a centralidade das Manifestações de Junho de 2013 como um ponto de inflexão para a abertura da crise do modelo democrático-representativo experimentada ainda hoje no Brasil. A contribuição de Ana Elisa Cruz Corrêa, na Nota de Pesquisa intitulada “Crise do capital e crise da gestão estatal: a social democracia e o Brasil Potência” também se articula com esse contexto, posto que investiga particularidades da inserção da política econômica do Partido dos Trabalhadores na década de 2000 no sistema capitalista mundial. De um prisma diferente, o artigo “A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro”, de Joana D’Arc Fernandes Ferraz procura compreender como certas marcas do passado condicionam os impasses do presente no que diz respeito à questão da resistência e da memória da Ditadura Militar no Brasil, a partir do estudo sobre a peça A Pandorga e a Lei (1983-1984), de João das Neves.

Crise político-econômica

Na perspectiva da crítica à economia política, o conceito de crise sempre ocupou um papel estratégico, sendo destacada agora a rotinização de seu uso como uma espécie de metáfora do capitalismo atual. Nesse sentido, os artigos de Maurílio Lima Botelho, “Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo”; de Javier Blank, “Um museu de grandes novidades: capital fictício, fundo público e a economia política da catástrofe”; e de Dilma Andrade de Paula, “Dimensão temporal da(s) crise(s)”, demostram desde prismas distintos como o sistema capitalista atual naturalizou a “crise”, não mais como um momento de exceção, mas como regra, que reequilibra – num modus operandi que se poderia talvez chamar de ficticionalização – o funcionamento de um sistema financista que se expande exponencialmente sem necessário lastro real. Tais artigos sugerem que a naturalização da noção de crise em nosso vocabulário social e político gera um efeito nefasto, pois permite que se atribua uma sensação de normalidade a alguns dos aspectos mais desiguais, injustos e desumanos do sistema capitalista. Como nos explica Botelho, “uma mera repetição do nexo interno das categorias é incapaz de enxergar a processualidade histórica, tornando-se a crise um fenômeno sempre igual num tempo abstrato vazio”. Essa problemática também é aprofundada em uma das contribuições da seção Notas de Pesquisa. O texto de autoria de Frederico Lyra de Carvalho, “Crise: entre o comum, o sentido, o governo, o motim e a comuna”, discute o conceito de crise nas obras de Myriam Revault d’Allonnes (La crise sans fin); Pierre Dardot e Christian Laval (Ce cauche marqui n’en finit pas) e Joshua Clover (Riot, strike, riot), e mostra o processo de transformação desse conceito em signo fundamental da fase atual do capitalismo.

Nossas entrevistas, resenha e seção especial

No que tange às entrevistas, este dossiê foi agraciado com duas incursões de fôlego. A primeira foi elaborada junto ao poeta, crítico literário e professor Marcos Siscar, com o título “Escrever a crise”, na qual as perguntas são apenas estopim para o mergulho em um longo e consistente trabalho teórico e prático sobre poesia e crise executado há décadas pelo autor. Recuperando o argumento de seu último livro, De volta ao fim: o ‘fim das vanguardas’ como questão da poesia contemporânea (ed. 7Letras, 2016) e de seu Poesia e Crise (Ed. Unicamp, 2010), Siscar indaga como a ideia de uma crise nas vanguardas consistiu fundamentalmente numa operação discursiva, de caráter performativo (e não necessariamente a uma verdade factual). Esta hipótese pode ajudar a compreender melhor como as imagens variantes da noção de fim, incluindo a crise, oferecem um ponto de partida para aquilo que está em jogo no contemporâneo.

Por sua vez, a entrevista concedida à Revista Maracanan pelo filósofo e professor Marildo Menegat, intitulada “A crítica da economia política da barbárie”, volta-se a indagar os múltiplos sentidos da crise, sua relação com a história do capitalismo e seus efeitos degradantes sobre as relações sociais. Pautado em seu denso trabalho sobre movimentos sociais, militarização do cotidiano e crítica da cultura afiada na dialética negativa, Menegat compara as “teorias da crise” de viés marxista e liberal para desdobrar sua análise acerca da experiência mundial contemporânea e, especificamente, da situação do Brasil hoje, tanto do prisma econômico quanto político e cultural.

Ainda compõe esta edição a resenha “Testemunhos de um mundo partilhado” de autoria de Alfredo Bronzato da Costa Cruz, a respeito da obra When christians first met muslims: a sourcebook of the earliest syriac writings on Islam, de Michael Philip Penn (Univ. of California Press, 2015).

Finalmente, como texto de abertura deste dossiê, o ensaio de Pedro Meira Monteiro sobre Antonio Candido busca encarar impasses da civilização no contexto do imediato pós Segunda Guerra Mundial, recorrendo intertextualmente ao seu diálogo com Sergio Buarque de Holanda e ao repertório de Nietzsche mobilizado por Candido em “O portador” (originalmente publicado no Diário de São Paulo em 1946). Em um gesto de homenagem a Antonio Candido, falecido em 2017, os editores deste dossiê convidaram Pedro Monteiro a publicar seu texto nesta Seção Especial.

Crise para quê e para quem?

De um modo geral, todas as contribuições deste dossiê ajudam a compreender melhor a nossa atual situação já que apontam para a construção histórica e discursiva do conceito de crise. Contudo, no presente contexto de crise da UERJ, consideramos ser necessária uma nota conclusiva acerca deste problema que nos atinge diretamente agora e surge como horizonte para outras universidades públicas brasileiras, estaduais e federais. Acreditamos que as universidades, especialmente aquelas em processo acelerado de desmonte, como a UERJ, encontram-se diante de desafios nunca antes experimentados. De fato, algumas premissas do conhecimento disciplinar, especialmente na área de história, devem ser revistos; a demanda por uma maior abertura aos diversos públicos é hoje um truísmo, dentre outros problemas estruturais. Todavia, dizer que a universidade brasileira está em crise, sem qualquer tipo de adjetivação ou explicação, significaria ocultar uma motivação central na crise por ela vivenciada: os ataques aos diversos sentidos do que é público pelo governo federal dos últimos dois anos no Brasil. A legitimação aos ataques criminosos feitos pelo governo estadual às universidades de seu âmbito e a busca, no nível federal, da diminuição dos sentidos do que é público são cara e coroa de uma mesma moeda voltada a sustentar um projeto retrógrado para o país.

Cabe, à guisa de conclusão, um agradecimento a todos os colegas e alunos / as da comunidade UERJ que mesmo nas circunstâncias desfavoráveis já mencionadas contribuíram para que o dossiê aqui apresentado tomasse forma: ao Programa de Pós-graduação em História (PPGH-UERJ), ao Laboratório Redes de Poder e Relações Culturais, à COMUM – Comunidade de Estudos de Teoria da História da UERJ, bem como devemos reiterar o agradecimento ao apoio fundamental do corpo técnico da Revista Maracanan, incluindo os editores executivos e o secretariado, Claudio Correa e Magide Vieira.

Beatriz de Moraes Vieira – Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-graduação em História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Atualmente, realiza estágio pós-doutoral na Cornell University. Possui graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF); mestrado em Letras; doutorado em História Social por esta mesma instituição. É pesquisador associado à COMUM – Comunidade de Estudos de Teoria da História da UERJ. Seus temas de pesquisa voltam-se para: relação entre história e literatura / poesia; história e cultura contemporânea no Brasil e América Latina; experiência histórica dolorosa; memória social traumática.

Eduardo Ferraz Felippe – Professor do Departamento de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Possui doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (USP); mestrado em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio); graduação em História pela UERJ; além de ter realizado estágio pós-doutoral na USP. Seus interesses de pesquisa estão voltados para a questão da ética e da narrativa histórica, a relação arte-educação e as estratégias discursivas e formas de popularização do passado, com ênfase entre Memória e História das ditaduras, em prosa em fins do século XX e início do XXI.

Thiago Lima Nicodemo – Professor do Departamento de História e do Programa de Pós-graduação em História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Atualmente, realiza pesquisa na Freie Universität Berlin como fellow da fundação Alexander von Humboldt, categoria pesquisador experiente. Possui graduação em História pela Universidade de São Paulo (USP) e em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); mestrado e doutorado em História Social pela USP; além de ter realizado estágio pós-doutoral no Instituto de Estudos Brasileiros desta mesma instituição. É pesquisador associado à COMUM – Comunidade de Estudos de Teoria da História da UERJ. De sua autoria são Urdidura do Vivido (EDUSP, 2008) e Alegoria Moderna (UNIFESP, 2014), livros concentradas na obra de Sérgio Buarque de Holanda.


VIEIRA, Beatriz; FELIPPE, Eduardo Ferraz; NICODEMO, Thiago Lima. Apresentação. Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n.18, 2018. Acessar publicação original [DR]

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