Em janeiro de 1959, as tropas revolucionárias do Movimiento 26 de Julio, sob a direção de geração de revolucionários que apenas ultrapassava os trinta anos, entraram em La Havana, recém-desertada pelo ditador Fulgencio Baptista (1901-1973), que fugira para o exílio dourado em Miami. Apenas dois anos mais tarde, a pequena ilha referendava seu avanço em direção à construção de ordem socialista e, em 1967, com a Olas, conclamava oficialmente os revolucionários, sobretudo latino-americanos, a lançarem guerra à morte ao imperialismo e ao capitalismo, na perspectiva sintetizada nos versos “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, do virtuoso e malogrado poeta brasileiro. Tudo isso a noventa milhas do poderoso, agressivo e desembaraçado coração do imperialismo mundial.

A Revolução Cubana fez parte de um enorme empuxe revolucionário que sacudiu poderosamente o mundo. Processo que teve ápices na revolução anticolonial, que a antecedeu e nas revoluções vietnamita, cambojana, moçambicana, angolana, portuguesa, chilena, nicaraguense, salvadorenha, etc., que a seguiram. Momento singular desse processo mundial foram os sucessos europeus, com destaque para o Maio Francês, em 1968, e o Outono Quente italiano, em 1969, questões abordadas pelo Dossiê “Maio de 1968: O Brasil e o mundo”, de jan. / julho de 2008, da revista História – Debates e Tendências, do Programa de Pós-Graduação em História da UPF. Tão forte foi essa maré revolucionária crescente que, fora de seu contexto, torna-se impossível a compreensão de fenômenos fundamentais daqueles anos, com destaque para a própria conclamação da direção revolucionária cubana de exportar a revolução e das dezenas malogradas tentativas pela América de concretizar aquela orientação.

No Dezoito Brumário de Luis Bonaparte, Karl Marx (1818-1883) defendeu que os “homens fazem a história” não como pretendem, mas determinados e atados às férreas “circunstâncias e condições históricas herdadas do passado”. Seus seguidores sempre tiveram – e continuam tendo – o propósito de moldar esse processo fortemente condicionado, na forma mais acabada possível, por meio de intervenção performativa da realidade, a partir de análise científica das tendências sociais, segundo a antiga e clássica conclamação de George Plekhanov (1857-1918) em O papel do homem na história. O certo é que, mesmo o homem propondo, de forma mais racional e precisa possível, sua ação individual e coletiva, é a intrincada, complexa e, não raro, aparentemente errática resolução dos grandes embates sociais que determina substancialmente o curso geral da história.

Em fins dos anos 1980 o empuxe revolucionária esgotara-se, retrocedera e seria inapelavelmente batido pela maré neoliberal contrarrevolucionária, em 1989-90, com a dissolução da URSS e dos Estados Operários do Leste Europeu. Tão ampla foi a vitória sobre o mundo do trabalho do capital que seus apologistas, parafraseando as conclusões conservadoras da belíssima construção intelectual de Hegel (1770- 1831), declararam literalmente o “fim da história”. Desde então, a satisfação das necessidades da humanidade seria plenamente garantida por uma ordem capitalista agora de caráter definitivamente perene e imutável.

Em 2009, Cuba socialista, duramente atingida, enfraquecida e determinada por aquele processo patológico, completou seus cinquenta anos de existência, demonstrando, no mínimo, as profundas raízes que a revolução assentara em sua sociedade. Nesse momento, os processos que a dilaceram são, talvez, tão decisivos como os ocorridos em 1959.

Ao assumir com a Doutora Ana Luiza Setti Reckziegel a tarefa de organizar o presente dossiê, abrimos as páginas da revista para autores de diversos horizontes interessados na temática proposta. Foram convidados, igualmente, cinco intelectuais – dois chilenos, hoje vivendo na Inglaterra (Francisco Dominguez), e Hugo Cancino Troncoso (Dinamarca); um argentino (Roberto Ramírez), um italiano (Tiziano Tussi) e uma brasileira (Roselena Leal Colombo). Todos acompanharam e apoiaram incondicionalmente a Revolução Cubana nas últimas décadas, ainda que comumente sob viés fortemente crítico, situação na qual me enquadro, ao registrar a orientação não fortuita de parte do presente dossiê, também compreendido como necessária celebração àquela revolução.

Mário Maestri


MAESTRI, Mário. Editorial. História – Debates e Tendências, Passo Fundo- RS, v. 10, n. 1, jan / jun, 2010. Acessar publicação original [DR]

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