As dinâmicas socioespaciais contemporâneas das e nas cidades, como também no campo, demandam per si leituras recorrentes em diferentes escalas e perspectivas. Isso é tanto mais legitimo em virtude da velocidade em que o tempo enreda o urbano enquanto totalidade. Decerto que metodologicamente as leituras podem se realizar segundo abordagens de mundo diversas usando arcabouços distintos teórica e empiricamente. Não obstante, a percepção que gera a urgência ininterrupta dessas leituras decorre da problematização de evidencias fenomênicas cujos conteúdos transcendem o fenômeno desgarrando-o de sua escala instantânea. Ou seja, implicitamente impulsiona a necessidade de superar a percepção inicial convertendo-a processualmente em análises que levem a maior aproximação possível da realidade com as determinações que a constituem. O fato é que o investigador que se interessa por esse tema tem que se aproximar empiricamente da realidade a ser investigada, sem se deixar fascinar pelo empirismo que o levaria a submergir na armadilha da obviedade de convenções instituídas. E desde o horizonte da singularidade da problematização avançar nas particularidades das determinações reposicionando-se no plano da totalidade.

É desde essa esfera que o investigador se sente desafiado na formulação de perguntas e buscas de encaminhamentos que possibilitem a compreensão do fenômeno dado, em suas interações com as sucessivas escalas de conteúdo, processos e estruturas horizontais e verticais que o vincula. O arcabouço que dá suporte a essas leituras e análises do rural e do urbano deve ser bem orientado de acordo com o tema a que se vai privilegiar na articulação com os demais com os quais interage nas escalas sucessivas do mais próximo ao mais distante e vice-versa. Parte-se do entendimento simples e complexo que o urbano é um processo que se impõe em escala mundial, evocando, no sentido lefebvriano, reunião e simultaneidade. Como o rural e o urbano trazem em si um conjunto de processos tangíveis e intangíveis, sensíveis e subjetivos, tergiverso e ubíquo atinentes a formas sociais de produção e reprodução do capital que se afirma e se refaz ao longo do tempo, exige acuidade na sua análise.

Neste volume constam artigos de fluxo contínuo que abarcam questões como Patrimônio Histórico e Preservação; Cidade e representação; Perspectivas distintas de desenvolvimento social e econômico em países distintos; e as dinâmicas no mundo agrícola como agricultura alternativa e o comércio internacional de frutas.

Essa edição conta com o Dossiê Especial Dinâmicas Urbanas. Trata-se de um conjunto de publicações finais apresentadas no curso de especialização Urban Dynamics, dentro do Erasmus Plus, conduzido sob a nossa coordenação no âmbito de um acordo de cooperação com as universidades Carl Albrecht Universitaet Kiel (Alemanha), Université Paris-8 (Paris), Universidad Santiago (Argentina), Universidad Santiago de Compostela (Espanha) e Universidade Federal de Pernambuco (Brasil) e sob financiamento do BMBF (Ministério da Educação da Alemanha).

Para efeito de recorte espacial partiu-se do entendimento da cidade como uma circunstância e forma territorial que ocupa um lugar, uma situação e que tem suas determinações históricas. Agentes produtores do espaço foram analisados no uso de estratégias e táticas socioespaciais em diferentes movimentos hegemônicos e contra hegemônicos, nas intencionalidades e processos reversos de resistência, mas também de resiliência.

Instigados pelas dinâmicas urbanas resultantes de um dos mais vigorosos vetores econômicos da contemporaneidade, ou seja o segmento de Turismo e seus enredamentos, os turismólogos e pesquisadores Nathália Körössy Leite e Itamar José Dias e Cordeiro, nos brindam com o artigo Turismo e Dinâmicas Urbanas: Reflexões sobre a utilização do turismo enquanto estratégia de empresariamento urbano. Como o título sugere, os autores revisam a emergência do arranjo sob a forma de parcerias entre o poder público e o setor privado do empresariamento, atuantes na elaboração de estratégias para extrair maior rentabilidade das singularidades das cidades, seja no concernente aos atrativos físico-naturais e ou culturais, na atração de fontes externas de financiamento, de investidores e de fontes geradoras de empregos. Nesse sentido, usando dados econômicos e de receitas apresentam o turismo no mundo e como ele dinamiza os espaços e a sociedade de uma forma geral.

Exemplificando a força da resistência nesse jogo de relações e com uma abordagem que privilegia a antropologia urbana foi trabalhada pela pesquisadora e Arquiteta Amanda Martinez Elvir o recorte de um setor dentro de uma comunidade no Recife, denominada Coque. No artigo O estigma do favelado: ressignificando o conceito de favela nas dinâmicas urbanas internas na areinha (comunidade do coque – Recife) ela recupera historicamente conceitos como de favela no intuito de através de entrevistas realçar as dinâmicas e práticas socioespaciais que permitem uma ressignificação deste conceito. Esta comunidade com quase 13 mil habitantes, é um dos exemplos emblemáticos na análise escalar da cidade do Recife, visto que se localiza em uma área central e cobiçada pela disputa do capital imobiliário e de intervenções sistemáticas dos gestores públicos. A sua origem e localização apresenta um quadro multifacetado no perfil dos seus habitantes, persistindo o IDH mais baixo da Região Metropolitana do Recife e ocupando a quarta posição na cidade de pessoas que vivem com renda de até um salário mínimo, correspondendo a metade dos habitantes da comunidade.

As opções de desenvolvimento socioeconômico repercutem nas formas como as dinâmicas urbanas institucionalmente são tratadas nos agendamentos e protocolos internacionais. E, dentro dessas ou a partir dessas como se transformam em mecanismos de intervenção nos espaços. Na perspectiva do desenvolvimento sustentável e seus objetivos do milênio, bem como os focos de agendas futuras foi desenvolvido o artigo do biólogo e mestre em desenvolvimento ambiental Dweison Nunes Souza da Silva. Com o título Urbans Dynamics and environment: reflections from the 2030 agenda for sustainable development ele se propõe a refletir sobre o entendimento do direito de acesso à cidade e os desafios para se atingir alguns dos objetivos do desenvolvimento para materialização de uma cidade sustentável e acessível a todos. Através de argumentos pautados sobre as contradições inerentes ao capital, em especial no modelo neoliberal vigente, o artigo escrito em inglês, suscita discussões futuras sobre a necessidade de redirecionamento de processos de planejamento.

Elementos dessa natureza foram abordados por Fernando Aureliano de Araújo no seu artigo Espaços de resistência: dinâmicas urbanas de concepção do espaço público na cidade do Recife, com ênfase nos equívocos e necessidades de aprofundamento do que e para quem são os espaços públicos na cidade. Tomando como referência um Parque urbano, e valorizando a sua formação, foi tratada a questão histórica do espaço, resgatado o compromisso com a função social a terra, e realçado o seu caráter conceptivo. O jogo de forças até o estabelecimento final e materialidade do parque no movimento resistências e reafirmações de interesses hegemônicos e contra hegemônicos ilustra essa contribuição.

Os textos são agradáveis convites à reflexão e decerto vai preencher os leitores com novos questionamentos e oxalá interesse em dialogar com o tema, aprofundando-o e ampliando as analises, deixamos registrado o agradecimento ao programa Erasmus Plus por ter possibilitado essa construção conjunta.

Edvânia Torres Aguiar Gomes

Mariana Zerbone A. de Albuquerque

Maria Rita I. M. Machado


GOMES, Edvânia Torres Aguiar; ALBUQUERQUE, Mariana Zerbone A. de; MACHADO, Maria Rita l. M. Editorial. Rural e Urbano, Recife-PE, v.2, n.2, 2018. Acessar publicação original [DR]

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