Revista Brasileira de História oferece aos seus leitores dois dossiês neste número. O primeiro, proposto pelo Conselho Editorial, centra-se no ensino de história. Justamente no momento em que os profissionais da área defrontam-se com parâmetros e diretrizes que trazem no seu bojo propostas de redefinição dos conteúdos, objetivos e métodos; e com uma realidade que obriga a repensar as noções de tempo, espaço e memória, a reflexão a respeito do saber e do fazer histórico assumem caráter de urgência.

Os três artigos iniciais articulam-se em torno do tema currículo. Maria Stephanou discute a noção de conteúdo curricular e analisa os currículos oficiais da disciplina. Evidencia que, longe de se tratar de uma questão técnica ou formal, o discurso curricular não apenas elege alguns objetos e exclui outros, mas também envolve a produção de sensibilidades, formas de compreender e interpretar, constituindo-se em importante instrumento no processo de formação da consciência social. Maria Martins e Claudia Ricci, voltam-se para uma experiência concreta: a mudança curricular paulista iniciada na década de 1980. As polêmicas que envolveram a proposta de história e os conflitos no interior da CENP são discutidos por Martins, que se vale de depoimentos orais daqueles que estiveram diretamente envolvidos na elaboração da reforma. Já Ricci dirige sua atenção para os professores, perscrutando nas suas falas os sentimentos, desejos, esperanças, necessidades e expectativas que possuíam em relação às mudanças em curso.

Com Ernesta Zamboni, alcançamos o próprio espaço da sala de aula. Os materiais didáticos disponíveis para serem utilizados com os alunos na produção do conhecimento histórico – filme, vídeos educativos, fotografias, gravuras, pinturas, contos infantis, documentos, livros paradidáticos – são analisados pela autora, que alerta para a especificidade da linguagem de cada um deles.

A importância estratégica atribuída ao ensino de história é evidenciada nos textos de Katia Abud, Luis Fernando Cerri, Maria das Graças Almeida e Newton Dângelo, que se atêm sobretudo à Era Vargas. Os programas da disciplina e os manuais escolares do período atestam, de acordo com Abud, uma concepção pragmática que pretendia difundir o sentimento nacional brasileiro, alicerçado na irmandade de raça, língua e religião. Entretanto, a construção de uma história nacional envolve uma complexa dinâmica, como bem lembra Cerri, que discute os embates em torno da incorporação – ou não – das versões regionais, tomando por mote o discurso da paulistanidade, que teve na escola um de seus meios privilegiados de difusão.

O projeto pedagógico pernambucano proposto durante o Estado Novo, seus princípios norteadores e a concepção de educação enquanto ferramenta para a regeneração do Estado e importante aliada contra o que se qualificava de desordem, são abordados por Almeida, que também chama a atenção para as exonerações e aposentadorias forçadas, estratégias utilizadas para silenciar vozes dissonantes. No âmbito das iniciativas que perseguiam a regeneração nacional, estava a radiodifusão educativa, tema de Dângelo. O autor revisita projetos, relatórios, publicações e alguns programas da época, que objetivavam consagrar uma memória histórica oficial.

O segundo dossiê, Do Império do Brasil ao Império de Portugal, foi organizado com base nas contribuições enviadas ao Conselho Editorial. Um conjunto significativo de texto abordava as redes de poder e pertencimento que vinculavam a metrópole portuguesa e sua colônia na América. A semelhança temática permitiu enfeixá-los num todo articulado. O artigo de Russell-Wood discute, a partir de uma ampla perspectiva cronológica, a noção de centro-periferia, enfatizando estas redes de poder e seus significados, as negociações e tensões envolvidas, esmiuçando como a metrópole se enraizava no além-mar, e alertando para as contrapartidas.

Os trabalhos de Maria Fernanda Bicalho, Maria de Fátima Gouvêa e Iara Lis Carvalho e Souza analisam a atuação da Câmara, principalmente seu sentido político. O papel da Câmara do Rio de Janeiro durante os setecentos, época em que a região assume a hegemonia política no centro-sul do Brasil, é tratada por Bicalho, que relaciona a prática desta instituição aos conceitos políticos que sustentavam o Império Português. Gouvêa empreende um breve e necessário balanço historiográfico, atentando para a composição social do Senado da Câmara do Rio de Janeiro em fins do século XVIII e início do seguinte, estudando a formação desta elite. Carvalho e Souza, por sua vez, flagra a desmontagem desta arquitetura de poder. Concentrando-se na atuação das Câmaras no início de 1820, a autora esclarece a forma pela qual estas acabam por estabelecer um pacto social com D. Pedro, que nelas fundava sua real soberania.

Ilana Blaj, ao concentrar sua atenção na São Paulo colonial, lança luz a respeito da formação de uma elite local, suas relações familiares, modos de enriquecimento. Sob este aspecto, seu texto encontra parentesco com as contribuição de Marcus de Carvalho, que aborda a história das lutas em Pernambuco, a conformação das elites locais, as descensões familiares que vão definindo uma dada noção de independência.

O último artigo do dossiê, de Maria de Lourdes Lyra, detêm-se nos escritos de Frei Caneca e aponta para um problema novo e radical no Brasil do início dos oitocentos, isto é: de que maneira se concebe a pátria, como vem enviesada pela idéia de nação, como vai ganhando força e sentido políticos.

Ao longo dos anos, a Revista Brasileira de História ganhou projeção nacional, tendo publicado artigos que enriquecem nossa cultura historiográfica, alargam os horizontes desta produção, contribuem para redefinir seus sentidos. Se, por um lado, este fato expressa tanto a vitalidade da pesquisa histórica brasileira quanto o reconhecimento da RBH na comunidade científica; por outro, a grande quantidade de artigos que a revista tem recebido ocasionou um desmesurado aumento no número de páginas, colocando um novo desafio para o Conselho Editorial, ainda mais agravado pela diminuição das verbas provenientes das agências financiadoras.

O Conselho manifesta seus agradecimentos à artista plástica Regina Silveira, que permitiu a reprodução de sua obra na nossa capa; à ANPUH Nacional, Núcleo Regional de Minas Gerais e FAPESP, que viabilizaram os recursos financeiros para a publicação deste número. A edição também contou com a decisiva colaboração do Centro de Documentação e Apoio à Pesquisa em História da Educação Instituto Franciscano de Antropologia da Universidade São Francisco.

Conselho Editorial.


Conselho editorial. Apresentação. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.18, n.36, 1998. Acessar publicação original [DR]

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