A presença oficial de protestantes no Brasil data de 1810, com a chegada dos primeiros ingleses e alemães na corte real do Rio de Janeiro, motivados pela abertura dos portos aos países amigos de Portugal. Em 1822 ergue-se a primeira capela anglicana, e em 1827, os imigrantes alemães, radicados no Rio de Janeiro, constroem seu primeiro templo para celebrar o culto reformado. Entretanto, como integrante do campo educacional, a presença de protestantes só é percebida nas últimas décadas do século XIX. É neste período de grandes mudanças, que representantes das sociedades missionárias norte-americanas metodistas, presbiterianas, congregacionais e batistas chegam ao Brasil com propósitos idênticos de evangelizar e educar a nação de acordo com os ideais de uma civilização cristã. A partir do final da década de 1910, alguns grupos pentecostais, dentre eles a Assembléia de Deus, instalam-se no Brasil e com o passar do tempo erigiram templos e fundaram suas primeiras escolas passando também a disputar espaço no campo educacional brasileiro.

Diante do discreto mas crescente interesse pela pesquisa sobre a história da educação protestante no Brasil e do surgimento de novas abordagens interdisciplinares que levam em conta o pluralismo das forças sociais, políticas e culturais dos contextos analisados, novas indagações podem ser formuladas sobre as mudanças administrativo-pedagógicas e sociais introduzidas pelas escolas protestantes no campo educacional. A busca por estas respostas permite-nos atribuir um sentido para a construção de suas identidades culturais e educacionais de uma forma mais abrangente e trazer a discussão para o centro do debate da História da Educação Brasileira.

Esse dossiê reuniu oito artigos de pesquisadores e estudiosos, de diversas regiões do Brasil, que tem investigado distintos aspectos dessa particularidade da educação brasileira, revendo conceitos e apresentando novas perspectivas de análises; questionando práticas e discursos nem sempre claros nas interações entre igrejas e escolas. São educadores, historiadores, pedagogos, sociólogos e teólogos que aqui apresentam suas contribuições para a reflexão dessa modalidade de escola compreendida em sua interface com questões religiosas, de gênero, políticas e culturais. A relevância desses estudos pode ser percebida na diversidade das fontes utilizadas para a elaboração dos artigos. O dossiê traz contribuições de ações educativas desenvolvidas por metodistas, batistas, presbiterianos e assembleianos no Brasil do final do século XIX e início do XX, e do grupo religioso tcheco denominado de hussitas, no século XVI.

Abre o conjunto de artigos o texto de Sérgio Marcus Pinto Lopes, A crença na superioridade dos valores ocidentais e a fundação das escolas. Fruto de sua tese de doutorado, o autor procura identificar as principais características da educação protestante realizada pelos metodistas no Brasil e coloca-las em relação a outras práticas educacionais protestantes desenvolvidas ao redor do mundo. Sérgio Marcus revela que a crença na superioridade das propostas políticas, econômicas, culturais e sociais do ocidente pode ser percebida como uma característica comum aos diversos contextos.

O artigo de Cesar Romero Amaral Vieira e Thais Gonsales Soares, intitulado A presença de escolas protestantes na educação brasileira do final do século XIX, analisa o contexto da educação nacional das últimas décadas do período monárquico, de modo a perceber os principais aspectos sociais, políticos e culturais que propiciaram as condições necessárias para a implantação e desenvolvimento de escolas protestantes na província de São Paulo. Os autores partem do princípio de que para os partidários do republicanismo os modelos educativos praticados no Império eram considerados inadequados para as pretensões de seus projetos políticos.

Em Mulheres metodistas e ensino: enfrentamentos femininos na educação escolar, Vasni de Almeida analisa os esforços feitos para a fundação de duas escolas metodistas no interior do estado de São Paulo, apontando às origens dos recursos para a manutenção e as parcerias com setores sociais locais para desenvolvimento do projeto educacional proposto. O autor revela sinais de um ensino afinado com os interesses de uma sociedade que carregava as marcas do regime republicano instaurado. Analisa as principais mudanças que se processaram na educação oferecida pelas missionárias e suas opções pela formação da mulher para atuar na assistência social dentro e fora das igrejas. O estudo sinaliza para uma prática educacional como elemento de empoderamento feminino.

No artigo Colégios Batistas no Brasil: instrução, evangelização e disputas no campo religioso, Elizete da Silva e Maria do Carmo Souza Santos apresentam um estudo sobre a educação batista e analisam as práticas pedagógicas desenvolvidas por estas escolas no enfrentamento com os modelos tradicionais oriundos das escolas católicas.

Em O sagrado como elemento de territorialização das missionárias batistas na educação escolar no antigo norte goiano, Maiza Pereira Lôbo apresenta uma pesquisa que também se dedica ao estudo da educação batista. Busca entender, a partir do conceito de territorialização, a ação das missionárias no desenvolvimento da educação escolar no antigo norte de Goiás no enfrentamento com grupos religiosos católicos em prol do monopólio do campo religioso.

Sob o título Horace Lane e a formação de uma rede de escolas americanas no Brasil (1885-1912), Ivanilson Bezerra da Silva analisa o protagonismo de Horace Manley Lane na proposição da criação de uma rede de escolas americanas nas cidades que se configuravam como importantes centros no cenário político brasileiro, entre os anos 1885-1912. Estratégia essa que tinha o intuito de disseminar a cultura e os valores do presbiterianismo norte-americano no cenário nacional.

Reginaldo Leandro Plácido e Valdinei Ramos Gandra, no artigo Centenário das Assembleias de Deus no Brasil (1911-2011): “memórias ensinadas, subjetividades fabricadas”, apresentam as práticas de ensino no interior das Igrejas Assembleias de Deus. O artigo analisa as estratégias identitárias ensinadas nestas igrejas diante da fragmentação do campo religioso pentecostal, ocorrido especialmente, a partir da segunda metade da década de 1980.

Thiago Borges de Aguiar e Maria Aparecida Corrêa Custódio no artigo intitulado O que perguntam as crianças: o catecismo de Lukáš de Praga (1501) refletem sobre a influência do grupo religioso hussitas nos escritos de Lutero. Os autores demonstram que no âmbito das relações entre catecismos e educação escolar nos movimentos cristãos do século XVI, o Dětisnké Otázky [pergunta das crianças], considerado como um dos instrumentos educativos da União dos Irmãos, marca a aproximação entre a cultura universitária, a instrução elementar e a confessionalidade hussita, com sua visão de salvação pela fé, caridade e esperança.

Encerra este dossiê um artigo atípico do professor Charles Wood, da Methodist University. Atípico, pois, flexibilizando as diretrizes editoriais da revista a editoria resolveu sugerir a reedição de um artigo sobre educação teológica e educação confessional. A importância atribuída a este texto e sua integração neste dossiê obedeceu a duas razões principais. Primeiro, uma razão histórica, uma vez que desde as suas origens a educação protestante no Brasil teve entre os seus objetivos oferecer uma instrução escolar para aqueles nacionais, ou “nativos” – como se dizia – que iriam ser incorporados ao ministério pastoral e as missões protestantes. Em segundo lugar, uma dimensão contemporânea, pois, cento e cinqüenta anos depois de sua introdução no Brasil, o lugar da educação em relação a formação de quadros ainda não é uma questão pacificada sendo tema revisitado de forma recorrente nos órgãos diretivos das diversas denominações protestantes até hoje. Para ale disso, considere-se que este clero formado no âmbito das instituições teológicas confessionais, em regra vão operar como “intelectuais orgânicos” dos grupos religiosos, alçados a diversos espaços de liderança, portanto, tomando para si a tarefa de formulação mais direta ou mais tangencia daquela filosofia da educação que permeia os diversos universos escolares das denominações protestantes.

Esperamos que os textos aqui reunidos possam contribuir para fazer avançar a reflexão sobre a história da educação protestante, tanto em nível nacional como internacional, auxiliando no desenvolvimento de novas pesquisas sobre esta temática.

Desejamos a todos uma boa leitura!

Cesar Romero Amaral Vieira

Vasni de Almeida


VIEIRA, Cesar Romero Amaral; ALMEIDA, Vasni de. Apresentação. Mnemosine Revista, Campina Grande – PB, v.7, n.3, jul / set, 2016. Acessar publicação original [DR]

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