Ensino e História de Alagoas / Crítica Histórica / 2010

Talvez o trabalho mais árduo e o mais compensador do ofício historiográfico é aquele da pesquisa e da elaboração sistemática de seus resultados. As horas dedicadas às leituras, à investigação em arquivos e fundos documentais somadas às discussões com alunos e colegas são resumidos e apresentados em textos que deverão cumprir, por sua vez, um outro ciclo de debates. Estes, quando bem recebidos, transformar-se-ão em fontes e referências para novas pesquisas e tantas outras discussões. Esse processo da produção historiográfica, apresenta-se como um continuum nas universidades, grupos e centros de pesquisa e ensino no Brasil e em outros países.

Tendo isso em mente, os Cursos de História (Bacharelado e Licenciatura) da UFAL, através do CPDHis (Centro de Pesquisa e Documentação Histórica) apresenta ao público a Revista Crítica Histórica. Tal publicação almeja fazer parte do processo continuado de debate e produção historiográfica nacional e local, contemplando as diferentes temáticas e os resultados de pesquisa originais, contribuidores para a fortificação de linhas teórico-metodológicas explicativas dos processos históricos. Com isso, quer-se contribuir para o aumento de uma consciência crítica histórica em nossa sociedade, essencial para a constituição de um espaço social mais justo e plural.

Este primeiro número foi, portanto, pensando para atender a essas perspectivas. O Dossiê Ensino e História de Alagoas traz artigos da produção historiográfica local em diferentes temporalidades que renovam o tratamento dado à História alagoana, apresentando novas fontes e análises. Os textos de Antonio Filipe Pereira Caetano (Existe uma Alagoas Colonial?…) e de Janaína Cardoso de Mello (Alagoas e a Escrita de Si Mesma…) problematizam temas consagrados sobre a história de Alagoas, tais como a identidade cultural e política da região, os cabanos e os conflitos em torno do poder político. Pela contribuição na renovação dos debates tais textos tornam-se referência para os estudantes e pesquisadores da área. Sobre a história política contemporânea de Alagoas, José Alberto Saldanha (Governadores Alagoanos e os “Tempos de Antes”) analisa através do debate sobre identidades, memória e mito político os discursos dos governadores Arnon de Mello e Muniz Falcão que nas décadas de 1950 e 1960 apresentavam-se como “portadores da modernidade”. O tratamento dado pelo historiador aos discursos, é exemplar do uso das fontes, esclarecendo aspectos importantes da história política alagoana. No debate sobre a criação do Curso de História da UFAL e sobre o Ensino em Alagoas têm-se os textos de Ana Luiza de Araújo Porto (O Curso de História da Universidade Federal de Alagoas) e Maria Aparecida de Farias (Uma Prática Pedagógica Comum…). Os dois artigos abrem oportunidades para novos pesquisadores pensarem a História da Educação em Alagoas, contribuindo sobremaneira, para um olhar crítico sobre a formação e profissionalização do historiador local, como também do entendimento de parte das transformações institucionais na UFAL ocorridas nas últimas décadas.

Para fechar o Dossiê tem-se a análise comparativa de documentação apresentada por Osvaldo Batista Acioly Maciel (Estatutos de Sociedades Mutualistas e a História Social do Trabalho…). Este texto contribui ao apresentar a história e a memória dos trabalhadores de Fernão Velho no século XIX e seus modos de organização, tendo em vista suas demandas e as necessidades de “proteção e auxílio” mútuos, comentandos a partir de seus estatutos.

Os artigos de fluxo contínuo, abordam temáticas e temporalidades diversas, em que são privilegiados diferentes tratamentos teórico-metodológicos para a documentação histórica e sua análise. Rossana Pinheiro (Apontamentos sobre poder, autoridade e ascetismo: Uma breve comparação entre Agostinho e João Cassiano) apoia-se em Max Weber e Hannah Arendt para discutir os conceitos de poder, autoridade e ascetismo nas obras de Agostinho de Hipona e João Cassiano. Já Grazielle Rodrigues do Nascimento (No Tempo dos Loronhas se Erguia uma Ilha Presídio no Atlântico, 1504-1800) apresenta uma análise da história da Ilha de Fernando de Noronha, defendendo sua participação na história do Brasil como “espaço” de configuração de relações sociais e econômicas. Marcelo Souza Oliveira (Um Confronto Literário: abolição e cidadania negra na ficção baiana na segunda República) traz o interessante artigo que discute a produção de Anna Ribeiro (1843-1930) e Xavier Marques (1860-1942), em que se pode compreender como os temas ligados à cidadania negra no Brasil foram importantes para as futuras definições e debates sobre a identidade nacional. Na temática História e Literatura temos o texto de Ana Cláudia Aymoré Martins (Não há Pecado ao Sul do Equador: histórias de amor construindo o Brasil), debatendo a construção simbólica da identidade nacional através das obras Iracema, de José de Alencar, O Cortiço, de Aluísio Azevedo e O Xangô de Baker Street, de Jô Soares. Por fim, os textos de Irinéia Maria Franco dos Santos (História e Antropologia: relações teórico-metodológicas, debates sobre os objetos e os usos das fontes de pesquisa) e João Carlos de Oliveira Luna (História e Pensamento Hermenêutico na Alemanha do Século XX) contemplam temáticas de Teoria e Métodos da História, apresentando panoramas sobre a relação multidisciplinar da História e Antropologia, e também os autores e as discussões importantes sobre a hermenêutica alemã, respectivamente.

A seção Documentação, traz a análise de Marco Antonio Mitidiero Junior (A Geografia dos Documentos Eclesiais: o envolvimento da Igreja Católica com a questão agrária brasileira) sobre a participação de parte do clero católico no debate sobre a questão agrária no Brasil e a sua decorrente produção teológica contemporânea. Esta teve como substrato ideológico a Teologia da Libertação e luta política dos movimentos sociais de base.

Fechando esta primeira edição tem-se duas Resenhas que são outros exemplos de tratamentos dados às fontes visuais, em especial ao cinema e, suas possibilidades de análise histórica. Karine Mileibe de Souza, escreve sobre a obra Cinematógrafo: um olhar sobre a história organizada por Jorge Nóvoa, Soleni Biscouto Fressato e Kristian Feigelson. Fábio Henrique Gonçalves (Quando a guerra faz da verdade um butim), problematiza a construção da verdade histórica através do filme polonês Katyn de Andrezj Wajda.

Este número inaugural da Revista Crítica Histórica marca um processo muito rico para o Curso de História da UFAL, de modo particular. De modo geral, insere a produção historiográfica local no âmbito nacional da articulação de espaços em rede para troca de informação e produção entre diferentes centros, grupos de pesquisa, pesquisadores e estudantes de História. Tal construção coletiva do conhecimento historiográfico só é possível mediante a participação e apoio dos estudantes, professores e pesquisadores-autores. A eles é dedicado esta edição.

Irinéia Maria Franco dos Santos – Conselho Editorial.

Maceió, Junho de 2010.


SANTOS, Irinéia Maria Franco dos. Editorial. Crítica Histórica, Maceió, v. 1, n. 1, junho, 2010. Acessar publicação original [DR]

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