O presente dossiê, pautado pela perspectiva comparada, partilha do esforço de vincular a temática da escravidão a processos históricos e a contextos sociais multi-temporais e espaciais. Sob o prisma de variadas abordagens, tem a chance de lançar luz sobre pontos de contato e de diferenciar experiências sociais no tempo e no espaço e, nesse sentido, apontar para novas questões de estudos.

Jovens e veteranos pesquisadores, oriundos de diferentes instituições, apresentam, sob perspectivas próprias, artigos lastreados por fontes diversas, modulados com sobriedade e imaginação histórica, como é próprio ao mister do historiador. Esses artigos originam-se, em sua maioria, de estudos mais extensos e meticulosos e evidenciam, com vitalidade, a atualidade do tema, renovado por preferências e opções pessoais, mas, sobretudo, abordagens que se atêm aos sujeitos históricos e à trama de seu cotidiano. São análises que, ao considerar as sutilezas das relações sociais, desvendam processos que estariam invisíveis de outro modo.

Este dossiê garante um mosaico amplo e rico em alternativas para pensarmos a escravidão por ângulos e abordagens atentos às suas singularidades, às possíveis aproximações, ao confronto de fontes e de ideias. Reserva-se ao leitor o contato com experiências sociais interpretadas em seu movimento histórico, que se recusam a generalizações, numa postura historiográfica que assume cada vez mais importância e interesse entre nós. Este rico painel é aqui apresentado em forma de artigos e entrevista.

A entrevista é uma contribuição valiosa e inestimável do historiador norte-americano e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Robert Slenes. Com disposição, entusiasmo e zelo, o professor Slenes reflete sobre os caminhos percorridos em sua trajetória historiográfica e pessoal. Atento aos meandros que envolvem o ofício de historiador, expõe compreensões teórico-metodológicas – sempre explicitadas em seus trabalhos – e indica trabalhos nascidos de profícuas pesquisas, muitos deles já publicados, e que são cuidadosamente apresentados ao final de sua entrevista. É um registro histórico que tivemos a sorte de colher e pelo qual somos profundamente gratos.

José Ernesto Moura Knust, mestrando em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), abre a seção de artigos deste dossiê com o texto “Escravidão rural no final da República Romana: a De Re Rustica de Varrão” em que examina, no Tratado sobre as coisas do campo – escrito pelo erudito romano Marcos Terêncio Varrão, no final do século I a.C. –, relações entre senhores e escravos, em especial a autoridade de escravos em posição de chefia e a promoção de atitudes entre os escravos que visavam favorecer aos senhores. Ao analisar estratégias de controle dos escravos refletidas no referido Tratado, o autor nos transporta para a escravidão rural da Roma Antiga e identifica alguns de seus traços na escravidão americana. Para tanto, ancora-se no conceito de sociedade escravista do intelectual norte-americano Moses Finley.

O segundo artigo, “As guerras servis da Sicília”, é uma colaboração de Sônia Regina Rebel de Araújo, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF). Ao tratar das circunstâncias históricas que envolveram duas revoltas de escravos na Sicília entre 135 e 101 a. C., Sônia Rebel evidencia o alcance da resistência escrava na Roma Antiga. Seu texto se orienta por abordagens teóricas de Moses Finley e Keith Bradley e de dois grandes historiadores brasileiros, Sidney Chalhoub e João J. Reis. Com isto, busca demonstrar “como o entrelaçamento dos estudos sobre a escravidão na Antiguidade e nas Américas pode ser produtivo, profícuo, para os estudiosos deste importante tema”. Para a autora, “o diálogo entre os aportes teóricos de historiadores da escravidão nas Américas e no Brasil, como João Reis, Chalhoub e Genovese, e os historiadores da Antiguidade, revelou-se útil, na medida em que aspectos da resistência dos escravos na modernidade revelaram-se instigantes para a análise dos movimentos sociais dos escravos no mundo romano”.

Em seguida temos o artigo “Escravo, servo ou camponês? Relações de produção e luta de classes no contexto da transição da Antiguidade à Idade Média (Hispânia, séculos V- VIII)”, de Mário Jorge da Motta Bastos, professor da UFF. O autor considera que as grandes transformações que se verificaram nas sociedades ocidentais a partir do século X resultaram de um conjunto mais amplo de processos, que se desenvolveram no longo intervalo que separa a Antiguidade e o Medievo. Para Bastos, “sociólogos, economistas e historiadores, conjugando empenho e engenhosidade dedutiva, tentaram desvelar uma realidade fugidia, fugaz em suas expressões, envolta pelas brumas de uma documentação limitada em número e fundamentalmente normativa em sua natureza”.

O quarto artigo resulta da parceria entre os professores Ocerlan Ferreira Santos e Washington Santos Nascimento, ambos vinculados às atividades do Museu Pedagógico da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), campus de Vitória da Conquista, sendo o último, doutorando em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Em artigo intitulado “Dimensões da vida escrava na Imperial Vila da Vitória nos últimos anos da escravidão (1870- 1888)”, tratam da escravidão no “Sertão da Ressaca”, mais especificamente, na Imperial Vila da Vitória, atual Vitória da Conquista. Por meio de pesquisa em fontes inéditas, examinam dinâmicas que envolveram as relações entre senhores e escravos nos últimos anos da escravidão, levando-os a concluir que “o que se percebe nos últimos anos da escravidão na então Imperial Vila da Vitória é uma profunda dinâmica envolvendo a população escrava com a construção de arranjos de sobrevivências que provavelmente permaneceram após a abolição da escravatura”. É mais um estudo que se soma aos esforços da pesquisa sobre a escravidão sertaneja, que emerge de uma disposição muito tenaz de pesquisadores que “descobrem” arquivos e organizam documentos, enriquecendo em várias direções a abordagem do tema.

O quinto artigo, “Entre a morada e a roça: escravidão no Recôncavo Sul da Bahia, 1850-1888”, decorre de estudos e pesquisas desenvolvidos por Alex Andrade Costa, Mestre em História Regional e Local pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), campus V – Santo Antônio de Jesus. O autor agrega novos enfoques à escravidão no Recôncavo Sul da Bahia ao analisar a mobilidade e a autonomia na vida cotidiana de escravos de pequenas e médias propriedades rurais, identificando formas de sobrevivência próprias de escravos lavradores. Alex Costa mostra que aquela parte do Recôncavo abrigou relações entre senhores e escravos com traços muito próximos da escravidão no sertão baiano. Numa perspectiva comparada, recorre à historiografia da escravidão para expressar aproximações de análises: “como a historiografia tem demonstrado, o conflito aproximou-se muito do ato de negociar, às vezes convivendo juntos numa mesma ação com um duplo significado”.

Encerrando a seção de artigos temos o “Historiografia sobre o negro, a escravidão e a herança cultural africana na Bahia”, apresentado pelo professor Erivaldo Fagundes Neves. Revela-se ali uma espécie de cartografia da historiografia da escravidão e dos estudos sobre o negro na Bahia. Um amplo painel, que destaca temas, fontes e metodologias presentes nesses estudos.

Como se antevê, são estudos que possibilitam comparações pontuais, enriquecem campos conceituais e ampliam a nossa compreensão das experiências históricas. Também evidenciam o papel chave do “ato de comparar” como um exercício metodológico inerente ao exercício da prática historiadora.

Gostaria, por fim, de externar gratidão e reconhecimento aos colegas que colaboraram com todo o trabalho desta publicação. Em especial, ao professor Luiz Otavio de Magalhães (Uesb, editor de Politeia), que acolheu a proposta do dossiê e acompanhou cuidadosamente a sua edição. Às professoras Gabriela Reis Sampaio e Wlamyra Albuquerque (Universidade Federal da Bahia), aos professores Fábio Joly (Universidade Federal de Ouro Preto), Alexandre Galvão e Márcia Lemos (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia), que compuseram a comissão científica e se empenharam no convite a colegas, alguns deles aqui presentes. Como toda publicação da revista Politeia, espera-se que esta edição possa nutrir debates e apontar boas perspectivas para a pesquisa nas humanidades.

Maria de Fátima Novaes Pires – Professora da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) E-mail: [email protected]


PIRES, Maria de Fátima Novaes. Apresentação. Politeia: História e Sociedade. Vitória da Conquista, v. 10, n. 1, 2010. Acessar publicação original [DR]

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