No ano de 2019, o Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade de Passo Fundo (UPF), completou 20 anos. Fomos a primeira universidade do interior do Rio Grande do Sul a implantar um programa de História, sendo a UPF uma instituição de perfil público não-estatal, definida como comunitária. Essa iniciativa demandou um trabalho árduo e constante de qualificação do programa, até obter o reconhecimento de sua maturidade que se deu em 2013 quando da aprovação do curso de doutorado, pela Capes.

Atualmente tendo como área de concentração História, Região e Fronteiras, o Programa tem seu eixo epistemológico representado por três linhas de pesquisa: Política e Relações de Poder; Espaço, Economia e Sociedade; e Cultura e Patrimônio, nas quais atuam docentes permanentes titulados em diferentes instituições do Brasil e do exterior, e docentes colaboradores e visitantes que transitam frequentemente para ministrar disciplinas, compor bancas e participar de projetos de pesquisa em redes, entre outras atividades inerentes ao stricto sensu.

O Programa de Pós-Graduação em História titulou, até o momento, 343 mestres e doutores, além de ter certificado estágios de pós-doutorado. Esses diplomados estão inseridos em atividades junto a instituições de ensino superior no Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Pernambuco, Maranhão e no Cone Sul. Esse alcance geográfico dá a dimensão de que o Programa, pela sua proposta de área de concentração e linhas de pesquisa, tem se constituído em uma referência buscada por candidatos de diferentes regiões.

A revista História – Debates e tendências acompanhou esse percurso desde o início e nesse ano também completa duas décadas de vida. Em seu primeiro número, lançado em junho de 1999, com periodicidade semestral, a revista teve como temática A regionalidade do regional. Limites e possibilidades. O tema escolhido para fundar a revista coadunava-se, então, com nossa a área de concentração, História Regional. Na ocasião, vários especialistas se dedicaram a explicar a abrangência do conceito de região e a discutir questões teóricas-metodológicas relacionadas à história regional enquanto uma prática historiográfica não reduzida a análises de contornos locais.

O perfil da revista foi se transformando ao longo desse tempo, desde a publicação de temas livres até a concepção de dossiês temáticos, vigente no momento. Em 2007, a revista foi inserida on-line, mantendo-se a publicação impressa. A partir de 2015, a edição passou a ser exclusivamente digital pois consideramos que a circulação por esse meio tem um alcance muito maior de leitores, mas não pudemos deixar de lamentar que, em razão do custo cada vez mais elevado da edição impressa, não tenha sido possível compatibilizar os dois formatos.

Contamos com um quadro de aproximadamente 230 avaliadores, no sistema duplo cego, e a revista publica apenas artigos de pesquisadores com titulação de doutor e restringe a publicação de artigos de docentes do Programa. A diversidade institucional e o aumento de autores estrangeiros, são reveladores do alcance da publicação que se consolida em âmbito nacional e procura avançar além-fronteiras, atraindo autores estrangeiros.

Após quase duas décadas de persistência e de compromisso com os parâmetros de qualidade, a revista foi indexada pelo Redalyc, em 2018, consagrando o trabalho de seus editores, as contribuições dos autores e a assiduidade dos leitores.

Por todos esses motivos, a História – Debates e tendências resolveu comemorar com uma edição especial, um quarto número do volume 20, pelo qual quer agradecer a todos que colaboraram ao longo desse tempo, aos que ainda irão contribuir e, especialmente, aos pesquisadores que estão tendo seus artigos publicados nesse número.

O artigo Maria nos altares de Oshun: pedidos e ex-votos em contextos de hibridação cultural (Zárate e Campana)da doutora Patricia Alejandra Fogelman, professora da Universidade de Buenos Aires, parte da história cultural, especificamente com a história das religiões e utiliza como fontes de pesquisa a fotografia Com esse suporte teórico e metodológico, analisa os altares de Óxun e as imagens relacionadas ao culto da Virgem Maria presentes nesses locais, no espaço da província de Buenos Aires.

O artigo, Linguagem, Unidade e Ordem: aspectos da teoria de Hobbes sobre a paz social, do doutor Fabrício Pontin, docente da Universidade LaSalle, trata sobre o pluralismo liberal e sugere que se mantém um vínculo com o modelo Hobbesiano de ordem social. Procura identificar na obra de Thomas Hobbes duas teses fundamentais: legitimidade e representação, argumentando que seguem orientando demandas por inclusão e igualdade na sociedade contemporânea.

A trajetória de Alberto Pasqualini antes do “teórico do trabalhismo”: background, entrada e estratégias de ascensão na política-partidária (1928-1937), escrito pelo doutor Diego Orgel Dal Bosco Almeida, vinculado à Unisc, aborda a trajetória política de Alberto Pasqualini entre 1928 e 1937, em um contexto no qual ocorreram diversos realinhamentos políticos e que coincide com a ascensão de Getúlio Vargas no cenário nacional. O artigo se debruça, também, sobre a faceta de Pasqualini enquanto “homem de pensamento”, cuja origem remonta à Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre, e que lhe dará parte do background com o qual se apresentará no mundo políticopartidário.

O artigo, “Red Fascists”: anti-Nazi Germans under suspicion of the FBI, do doutor Wanilton Dudek, da UNIUV, trata do Free German Movement e do Council for a Democratic German, movimentos políticos antinazistas de fala alemã, e da atuação do Federal Bureau of Investigation (FBI) nas investigações destes grupos na Califórnia e ao sul da fronteira dos Estados Unidos no contexto da Segunda Guerra Mundial, a partir de extensa pesquisa documental nos arquivos da University of Southern California (USC).

No artigo, Modos de pertencimento, fontes de guerra: nacionalismo e identidade religiosa nos séculos XX e XXI, a doutora Tatiana Vargas Maia, aborda a relação entre os efeitos da politização de identidades religiosas e nacionalistas e as formas de conflito e guerra da sociedade atual. Usando como suporte conceitual o nacionalismo e a religião, a partir do estabelecidos nos campos da História e das Ciências Sociais, relaciona as noções de identidade nacional e identidade religiosa com a incidência de conflitos violentos, explorando como esses padrões de pertencimento político e social específicos podem servir como combustível para a incidência de violência política.

Textos de fundação: a constituição narrativa da Guerra contra o Paraguai e a produção do patrimônio moral da Nação, é o artigo escrito pelo doutor Odair Eduardo Geller, docente da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), no qual analisa a obra dos militares Bernardino Bormann, Juan Crisóstomo Centurión e José Ignácio Garmendia que depois de terem tomado parte no conflito, o reconstruíram literariamente, utilizando-se de referências clássicas e românticas na perspectiva de promover textos fundacionais para a nação.

O artigo Sobre intereses agrarios y agroindustriales en la Argentina (1910-1960): representaciones históricas, a doutora Noemí Girbal-Blacha, da Universidade Nacional de Quilmes e pesquisadora do Conicet, analisa, na perspectiva da história regional, as continuidades e mudanças nas estratégias adotadas pelos setores agro-industriais e as respectivas medidas adotadas pelo Estado, o qual, apesar dos distintos modelos verificados no período em questão, manteve o viés de um modelo sempre excludente.

No artigo A indústria frigorífica no oeste catarinense e a participação dos ítalos (1940- 1960), o professor José Carlos Radin, do Programa de Pós-Graduação em História da UFFS, aborda a estruturação dos frigoríficos nessa região e a atribui aos descendentes de italianos, que primeiramente se instalaram nos assentamentos agrícolas e posteriormente investiram no comércio do qual extraíram o capital que foi aplicado na indústria frigorífica. Vincula a ascensão sócioeconômica desse grupo à participação na vida pública, em âmbito regional e até nacional, e nesses espaços públicos, favoreceram de algum modo o crescimento de suas empresas.

Encerrando essa edição especial apresentamos o artigo Guenoa minuanos: caciques y território, dos doutores Diego Bracco e José Maria Mazz, que traduz os resultados de pesquisa sobre os caciques guenoa-minuanos considerando o sistema hierárquico, com a existência de um chefe máximo, perdurou por longo tempo. Abordam, também, os requisitos necessários para atingir o grau de cacique, a prática da poligamia e a atividade de criação de gado no regime de propriedade privada.

Aos nossos autores e leitores, nosso agradecimento.

Ana Luiza Setti Reckziegel – Professora Doutora. Coordenadora do Programa de Pós-graduação em História Universidade de Passo Fundo, Brasil


RECKZIEGEL, Ana Luiza Setti. Editorial. História – Debates e Tendências, Passo Fundo- RS, v. 19, n. 4, dez, 2019. Acessar publicação original [DR]

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