O dossiê Estado e controle social, que a Revista Brasileira de História apresenta aos seus leitores, traz inicialmente um documento de Maurice Halbwachs registrando suas impressões sobre sua eleição para o Collège de France. O autor, que elaborou significativa contribuição teórica para os estudos sobre memória, desvenda neste texto sua própria vida em atividade de memorialista, abrindo perspectivas para a história das ciências humanas e de suas relações com a política. O “grupo de Strasbourg” e suas ramificações no mundo acadêmico francês, suas estratégias de inclusão / exclusão constituem temáticas que remetem à história e à sociologia.

O documento, inédito no Brasil, inicialmente foi publicado na Revue d’ Histoire des Sciences Humaines graças ao trabalho de transcrição e notação de Laurent Mucchielli e Jacqueline Pluet-Despatin. Infelizmente, por motivo de formatação de nossa revista, tais notas foram aqui suprimidas. A apresentação do documento, feita pelos dois autores, contextualiza sua escrita na França ocupada pela Alemanha nazista e revela dados biográficos do autor relacionados à Resistência. O Collège de France é também analisado a partir da perspectiva de campo social dada por Bourdieu, revelando aspectos complexos da inclusão acadêmica dos durkheimianos e de suas ligações com o Estado, até o extremo da eliminação física dos indesejáveis, presenciada por uma instituição incapaz de reagir.

O campo acadêmico e suas relações com o Estado também constituem o tema do artigo de Cláudia Callari, publicado postumamente com a revisão de Lilian Starobinas. Nele, o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais é analisado do ponto de vista da produção do saber histórico e sua instrumentalização pela política durante o Império e a República, mediante a construção de narrativas modelares.

João Fábio Bertonha analisa o Estado a partir das concepções do Integralismo, discutindo as relações deste movimento com o fascismo italiano e sua difusão entre os descendentes de italianos no Brasil. Retoma as discussões sobre as relações entre o modelo europeu e a proposta dos seguidores de Plínio Salgado, tendo como referência as variáveis étnica e de classe especialmente em São Paulo, sem perder de vista outras regiões de colonização italiana.

As políticas emergenciais de Getúlio Vargas para minorar os efeitos da seca no Nordeste constituem o tema do artigo de Frederico de Castro Neves. As relações entre o Estado e os retirantes das secas de l932 e 1942 foram focalizadas em sua intenção de controlar a população migrante mediante a implantação de campos de concentração de flagelados, visando evitar saques e depredações.

O período do governo Vargas constitui também o tema do artigo de Elio Chaves Flores, que analisa as representações cômicas da República publicadas entre 1930 e 1954. O traço memorialístico presente nas caricaturas publicadas em jornais e revistas, é aqui confrontado com discursos satíricos e irônicos numa perspectiva de intertextualidade.

A seção de artigos inicia-se com o trabalho de Anita Novinsky sobre os marranos em Minas Gerais no período colonial. A análise de processos de cristãos-novos revela uma identidade específica, antes uma visão de mundo que uma prática religiosa. A Inquisição atuou nas regiões auríferas motivada pela ação confiscatória, revelando nos documentos arquivados em Portugal aspectos da vida dos acusados de práticas judaizantes, tais como as sociedades secretas e as atividades profissionais a que se dedicaram.

O período colonial foi também abordado por Cristina Pompa, que analisou outro aspecto da religiosidade no Brasil, a construção de profetas e santidades. A partir de relatos missionários, a autora analisa o campo semântico da leitura do xamanismo e a interpretação do profetismo tupi-guarani na perspectiva da alteridade, no contexto do encontro entre indígenas e europeus no Brasil.

Néri de Almeida Souza dá continuidade aos estudos sobre religiosidade no artigo sobre a hagiografia medieval portuguesa, no qual aborda os temas de peregrinação, conquista e povoamento a partir da Vida de Santo Amaro. Trata-se de uma narrativa de viagem ao paraíso terrestre cisterciense, que permite a compreensão de relações entre pensamento histórico e pensamento mítico, da Reconquista aos Descobrimentos portugueses.

Descobrimentos constituem o tema do artigo de Paulo de Assunção em análise das descrições feitas por jesuítas sobre as terras brasileiras. A mentalidade do século XVI é ali abordada a partir de relatos que enfatizavam a natureza tropical da região ao sul do Equador.

O artigo de Carlota Boto insere-se também nos estudos sobre Portugal, desta feita abordando o debate pedagógico ali travado no final do século XIX e início do século XX. A partir de periódicos, a autora analisa o tema da hereditariedade como fator determinante da ação educativa e sua influência sobre as concepções de método e conteúdo. Este número contou com a colaboração financeira dos Núcleos Regionais da AMPUH.


Conselho editorial. Apresentação. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.21, n.40, 2001. Acessar publicação original [DR]

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