O campo dos Estudos Africanos se consolidou a partir de uma perspectiva abertamente interdisciplinar e que, por isso mesmo, objetiva a análise dos mundos sociais que compõem o vasto continente africano em um viés plural e criativo. Este dossiê filia-se a este diapasão e o faz duplamente: i) para pensar, problematizar e interpretar as diversas camadas de significados que são partilhados quando se foca a “África” enquanto problema de pesquisa e ii) para propor e discutir suas diferentes possibilidades hermenêuticas enquanto fenômeno aberto.

Afinal, como ficará evidente nas páginas a seguir, os fenômenos sociais africanos – como quaisquer outros, aliás – possuem como característica fulcral uma historicidade radical e uma multi-escalaridade temporal que faz com que tempos, memórias (orais ou escritas) e experiências sociais se intercalem em âmbitos diversos e à partir de suportes factuais distintos. Assim sendo, não é difícil perceber a interconexão entre demografia, história social, crítica literária e história política em um mesmo dossiê. Sabemos todos – e lá já vai tempo! – que o humano, como experiência viva e como desafio hermenêutico, não é redutível à demarcação (política) de campos do saber historiográfico. Pensar a África como problema histórico é, necessariamente, abrir-se para uma dimensão em que conhecimentos transitam por patamares outros, diferentes dos quais a ciência histórica (ainda resilientemente eurocêntrica) foi construída. Problematizar a historicidade das experiências e saberes oriundos ou vivenciados na ou sobre a África é, por certo, um convite para a originalidade do enfoque interpretativo e para um cuidado mais denodado com a documentação e seu trato.

O produto historiográfico que este Dossiê quer apresentar manifesta-se em diferentes línguas. É internacional, plural e multicultural, primando pelo rigor acadêmico e pelas distintas trajetórias intelectuais em tela. É interdisciplinar e plurivocal, características com as quais quer-se contribuir para o debate acadêmico e social que tem nos Estudos Africanos seu foco.

Isso pode ser constatado já no primeiro trabalho aqui apresentado, elaborado por José Carlos Curto (York University, Canadá) e Arshad Desai (York University, Canadá), intitulado The Early Demography of Moçâmedes, 1839-1869: a Preliminary Analysis, que munido de um amplo aporte documental, nos conta sobre a história de Moçâmedes, cidade portuária localizada mais ao sul de Angola, através dos vários censos produzidos pela administração colonial portuguesa desde a sua fundação em 1839-1840 a 1869. Através da reconstrução do passado demográfico desta cidade, o texto revela os milhares de africanos negros, alguns libertos, outros escravizados, que foram afastados de suas sociedades de origem e forçados a trabalhar em ambientes distintos ao que pertenciam, como em outro país, por exemplo.

Por sua vez, em Um reino em arquipélago: reflexões sobre a organização geopolítica de Angola no século XIX, da Carolina Perpétuo Corrêa (UFRJ, Brasil), reflete sobre a organização geopolítica de Angola por meio de relatos escritos por aqueles que andavam pelas paragens angolanas a serviço de alguma coroa europeia. A autora discute a presença portuguesa na região e as suas relações com as chefias autóctones, trazendo as ilhas de poder da soberania portuguesa, que mesmo ainda débil, produzia através dos sobadose estados autônomos vassalidades de líderes políticos que detinham grande parcela de poder e autonomia.

Tracy Lopes (York University Canadá), contribui com o texto Free, Enslaved, and “Liberated” Women Imprisoned in Luanda – 1857 to 1884, onde analisa mulheres africanas encarceradas em Luanda, capital colonial de Angola, entre 1857 e 1884. Apesar de ser uma minoria da população encarcerada, mostrará que as mulheres eram mais propensas a serem punidas por certos “crimes”, particularmente em virtude da lei municipal de violações, cambolação e “atos desonestos”. Esses casos-crime revelam como a procura da independência econômica pelas mulheres africanas as levou diretamente a conflitos com a polícia, e ainda problematiza o papel que a cor da pele dessas mulheres desempenhava no cotidiano prisional.

Em De Ujamaa à Class Struggle: o conceito de “socialismo” em disputa na África pós-colonial, Pedro Oliveira Barbosa (PUCRS, Brasil), problematiza com aporte da história intelectual o pensamento socialista e sua influência no continente africano durante o período das descolonizações. O conceito de socialismo era colocado de forma muito particular no texto de dois autores: o tanzaniano Julius Nyerere e o ganense Kwame Nkrumah. Através dos livros Ujamaa – Essayson Socialism, publicado em 1968 pelo primeiro autor, e Class Struggle in Africa, publicado em 1970 pelo segundo, um momento desse debate político é representado. O autor os analisa considerando sua utilização por diversas lideranças políticas africanas, como se fora um contraponto ao capitalismo que predominava nas potências coloniais.

Já Bruno Ribeiro Oliveira (Universidad de Granada, Espanha), contribui com o artigo Caravaneiros árabe-suaílis no tempo de Tippu Tip: organização caravaneira e modos de operação, 1850-1905, onde enfoca as caravanas que partiam de Zanzibar e adentravam o interior da África na segunda metade do século XIX através das memórias de Tippu Tip, um mercador caravaneiro e guerreiro árabe-suaíli, que comerciava no interior da África. Essas memórias compõem a principal fonte documental e o marco temporal a partir do qual o autor analisa o relato de Tippu Tip sobre diferentes momentos do impacto desse comércio na costa leste do Índico e no interior africano oitocentista.

Por fim, João Bortolotti (PUCRS, Brasil), contribui com o texto Ualalapi ou a ficcionalização do conflito armado FRELIMO X RENAMO – Ngungunhane como representação de Samora Machel. O artigo contextualiza a narrativa de “Ualalapi”, obra do escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa, publicada em 1987. O autor trabalha a obra literária como um ato discursivo produzido em Moçambique em plena Guerra Civil entre Frelimo e RENAMO no sentido de estabelecer a relação entre o contexto com o texto e a ação do texto naquele específico contexto. Através da literatura moçambicana outros vieses sobre a história nacional de Moçambique são, assim, possíveis.

Organizar um dossiê é sempre tarefa trabalhosa, mas também muito prazerosa, pois a rotina de recebimento dos textos e envio destes para as avaliações feitas pelos pares, e ainda as demais tarefas, possibilita a todos os envolvidos nesse processo reflexões de grande valia. Logo, precisamos dizer de imediato que somos gratos pela possibilidade de coordenar a organização do dossiê “Estudos africanos: problemas de pesquisa e perspectiva de análise”. Certamente a historiografia africanista foi brindada, visto que os textos aqui selecionados, publicados no formato de artigos acadêmicos, além de possuir um amplo marco cronológico que circunscreve os séculos XVIII ao XX, carregam lugares epistemológicos distintos, que reflete a construção de um momento hermenêutico nos estudos africanos de muita lucidez intelectual dos pesquisadores.

Marçal de Menezes Paredes (PUCRS)

Priscila Maria Weber (USP)

Organizadores


PAREDES, Marçal de Menezes; WEBER, Priscila Maria. Apresentação. Historiae, Rio Grande- RS, v. 10, n. 2, 2019. Acessar publicação original [DR]

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