É com grande satisfação que oferecemos ao nosso leitor mais um número da Revista Clio – Série Histórica, o qual contém o primeiro dos dois volumes do Dossiê “Estudos Jesuíticos” por nós organizado.

Tema tradicional e de enorme importância para nossa historiografia, os estudos jesuíticos, nos últimos anos, tem atraído novos pesquisadores e vem conhecendo uma profunda renovação de temáticas e abordagens.

A organização desse Dossiê, então, permitiu a reunião de uma amostra significativa da mais recente produção acadêmica sobre a atuação da Companhia de Jesus no mundo luso-americano.

Neste primeiro volume, estão reunidos os oito primeiros artigos, frutos do trabalho de importantes pesquisadores que atualmente, sob diversos enfoques, tem se dedicado ao estudo da atuação e da presença jesuítica em Portugal e seu império.

O primeiro artigo, intitulado As prisões e o destino dos jesuítas do Grão-Pará e Maranhão: narrativa apologética, paradigma de resistência ao anti-jesuitismo, do professor SJ Luiz Fernando Medeiros Rodrigues, da Universidade do Vale dos Sinos (UNISINOS), é um estudo dos meios de resistência adotados pelos os religiosos da Companhia de Jesus perante o anti-jesuitismo pombalino.

A professora Márcia Eliane Alves de Souza e Mello, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), por sua vez, nos apresenta, em seu artigo O Regimento das Missões: poder e negociação na Amazônia Portuguesa, um novo estudo sobre a formação do Regimento das Missões no Maranhão e Grão-Pará, enfatizando as negociações entre o poder central e as elites locais na formulação da legislação.

Ocupando-se do mesmo contexto geográfico, o professor Rafael Chambouleyron, da Universidade Federal do Pará (UFPA), analisa as percepções dos jesuítas em torno dos problemas do uso da força de trabalho indígena na Amazônia, ao longo da segunda metade do século XVII.

Deixando o espaço do Estado do Grão-Pará e Maranhão pelo do Estado do Brasil, a professora Maria Emília Monteiro Porto, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), traz seus Estudos sobre as missões jesuíticas na Capitania do Rio Grande: arcaísmo e modernidade nas fronteiras coloniais.

Seguem-se as contribuições do professor Carlos Alberto M. R. Zeron, da Universidade de São Paulo (USP) e do professor Rafael Ruiz, da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Ambos os textos baseiam-se nos conteúdos jurídicos da Apologia pro paulistis, texto inédito, por eles transcrito e traduzido e que se encontra publicado ao fim deste volume.

O texto de Carlos Zeron, intitulado Interpretações das relações entre ‘cura animarum’ e ‘potestas indirecta’ no mundo luso-americano, debate elementos importantes sobre a orientação teórica da missionação jesuítica no Brasil, discutindo a maneira como certas noções dominantes em âmbito europeu foram incorporadas localmente pelos missionários da Província do Brasil e propondo uma reflexão sobre a dimensão política da missão jesuítica na América Portuguesa.

Já o artigo A Interpretação das leis reais: Ambigüidade e prudência no poder das autoridades locais na América do século XVII do professor Rafael Ruiz propõe um exame de como a interpretação de leis por juristas e teólogos residentes na América era usada pelas esferas de poder locais na consecução de seus interesses.

O sétimo, e mais longo artigo apresentado neste dossiê, nos foi gentilmente enviado pelo Professor Adone Agnolin, também da Universidade de São Paulo (USP), com o título: Religião e Política nos ritos de Malabar: Interpretações diferenciais da missionação jesuítica na Índia e no Oriente (séc. XVII); ele procura discutir a polêmica desencadeada a partir da tentativa do jesuíta italiano Roberto de’Nobili de conciliar hinduísmo e cristianismo na empresa evangelizadora em Madurai, que traria um conflito nas missões indianas quanto à concessão do direito aos neófitos de continuar a praticar alguns ritos ligados à tradição de seus país e, posteriormente, uma divergência na interpretação de tais ritos.

Por fim, o professor Luís Miguel Carolino, da Universidade de Lisboa, especialista em história da ciência, em O paraíso do astrônomo, analisa a teoria do céu empíreo, segundo o astrônomo Cristóforo Borri (1583-1632). Teoria essa amplamente defendida pela intelectualidade católica do período moderno, em particular pelos membros da Companhia de Jesus.

Sempre no contexto do Dossiê, podemos incluir a contribuição da doutoranda pela École des Hautes Études en Sciences Sociales: Camila Loureiro Dias, que nos enviou a resenha da obra Los jesuítas e la modernidad en Iberoamérica, organizada por Manuel Marzal e Luis Bacigalupo.

O volume também consta de dois artigos, externos ao Dossiê, um do professor Carlos Alberto Cunha Miranda, outro do professor Ricardo Pinto de Medeiros, ambos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O primeiro trata do interessante tema da repercussão do pensamento eugênico no Brasil durante os séculos XIX e XX; o segundo, por sua vez, aborda o papel dos povos indígenas nas guerras de conquista do sertão nordestino no período colonial.

Assim, satisfeitos com os resultados obtidos, agrademos a todos aqueles que de algum modo permitiram a realização deste volume.

Recife, junho de 2009

Marília de Azambuja Ribeiro


RIBEIRO, Marília de Azambuja. Apresentação. CLIO – Revista de pesquisa histórica, Recife, v.27, n.1, jan / jun, 2009. Acessar publicação original [DR]

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