É com grande satisfação que oferecemos ao nosso leitor o segundo volume do Dossiê “Estudos Jesuíticos”, por nós organizado para a Revista Clio – Série Histórica.

Neste segundo volume, estão reunidos nove novos artigos, frutos do trabalho de importantes pesquisadores que atualmente, sob diversos enfoques, tem se dedicado ao estudo da atuação e da presença jesuítica em Portugal e seu império.

No primeiro texto, a Professora Eliana Cristina Deckmann Fleck da Universidade do Vale dos Sinos (UNISINOS), propõe em Beato, sim. Santo, não! José de Anchieta, de Apóstolo e Taumaturgo do Brasil a construtor da nacionalidade, faz uma reflexão sobre a maneira como se deu o resgate da figura do Padre José de Anchieta, em meados da década de sessenta, por meio da exaltação de sua força moral, visando a difundir um projeto de defesa da integridade territorial e de luta contra as ameaças estrangeiras. Neste trabalho encontramos uma análise sobre como se criou uma memória histórica do Padre Anchieta que o fizesse integrar o panteão dos heróis nacionais e que permite compreender o apoio recebido pela causa de sua beatificação.

Debatendo importantes questões sobre a relação entre missionários e nativos, apresentamos também o artigo De gentis a defensores da missão: os Jeberos e as missões de Maynas, do Professor Fernando Torres-Londoño da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Aqui é proposta uma análise sobre a configuração e a aplicação das categorias de “gentio” e “cristão” na relação entre missionários e índios.

Em Rosário da Concórdia: Vieira e os fundamentos místicos da paz social, o professor Guilherme Amaral Luz da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) propõe um estudo dos sermões do Padre Antônio Vieira sobre a escravidão, devotados a Nossa Senhora do Rosário, no esforço de compreender os preceitos teológico-políticos dos inacianos com relação à escravidão africana.

Também analisando a obra de Padre Antônio Vieira, o artigo do professor Luís Felipe Silvério Lima, da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), As partes e gentes da África na obra de Padre Antônio Vieira: a construção da figura literária e a idéia de Quinto Império, busca apontar o debate em torno das categorias das partes e gentes do mundo na obra do Padre Vieira, tendo em vista o projeto do Quinto Império e qual seria o lugar ocupado pela África e pelos escravos negros no Brasil em tal projeto.

Trabalhando em parceria, a pesquisadora do Museu de Astronomia e Ciências Afins e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) Heloísa Meireles Gesteira e a mestranda da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Alessandra dos Santos Teixeira procuraram mostrar como as práticas médicas empreendidas pelos jesuítas no Brasil Colonial não podem ser entendidas como mera apropriação de técnicas indígenas ou apenas fruto de necessidades circunstanciais, nem tampouco uma simples cópia do que se fazia na Europa, analisando como se deram a produção, a sistematização e circulação do conhecimento médico, sobretudo na América Portuguesa.

Mostrando um horizonte inusitado da atuação dos missionários jesuítas no Brasil, o último artigo deste dossiê é de autoria de Ronaldo Vainfas, professor titular da Universidade Federal Fluminense (UFF). O ‘Plano para o bom governo dos índios’: um jesuíta a serviço da evangelização calvinista no Brasil holandês analisa o projeto missionário adotado pelos calvinistas no Brasil holandês, que fora apresentado ao conselho diretor da Companhia das Índias Ocidentais pelo jesuíta convertido ao calvinismo Manoel de Moraes, que se tornara consultor dos holandeses para assuntos relacionados ao Brasil.

Contribuindo ainda mais com a diversidade de nosso dossiê, apresentamos o trabalho Estudos sobre a contribuição da Antiga Companhia de Jesus ao desenvolvimento dos saberes sobre o psiquismo humano no Brasil Colonial, da professora da Universidade de São Paulo Marina Massimi. Esse artigo busca destacar a contribuição dos jesuítas na criação de formas e métodos do conhecimento da subjetividade e do comportamento humanos.

Analisando a organização das instituições de ensino jesuíticas em Portugal e em seu império, Marília de Azambuja Ribeiro, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em seu artigo Marquês de Pombal e o fim do projeto educacional jesuítico em Portugal e seu império (séculos XVI-XVIII), procura mostrar como os colégios de Portugal se constituíram no modelo das escolas na América Portuguesa.

Já os pesquisadores Pablo Iglesias Magalhães, doutorando em História pela Universidade Federal da Bahia, e Maria Hilda Paraíso, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), nos trazem em Cartas do Padre Fernão Cardim (1608-1618), transcrições e análise de duas importantes cartas do Provincial da Ordem no Brasil e reitor do Colégio da Bahia: a Carta Ânua, de 1607, e uma outra inédita, de 1618.

O Dossiê Estudos Jesuíticos inclui ainda a transcrição de um documento inédito: Auto de seqüestro e inventario que Dor João Cardozo de Azevedo Dezembargador dos Aggravos da Rellação do Rio de Janeiro mandou fazer em virtude da ordem abaixo copiada da fazenda de Macâe que tem os pes da Comp. do Collegio da mesma Cidade no caminho que vai para os lados denominados Campos dos Gaytacazes, que foi transcrito e comentado pela Professora Márcia Amantino, da Universidade Salgado de Oliveira.

O volume também consta de três artigos e uma resenha, externos ao Dossiê. O primeiro artigo é de autoria do professor José Bento Rosa da Silva, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no qual ele investiga a importância da Serra da Barriga como referência de identidade para militantes do Movimento Negro Brasileiro; o segundo texto, em co-autoria da Doutora Clarissa Nunes Maia e do Mestre Flávio de Sá Cavalcanti de Albuquerque Neto, ambos titulados pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), analisa algumas dificuldades enfrentadas na administração da Casa de Detenção do Recife, na segunda metade do século XIX; por fim, a professora Kalina Vanderlei Silva, da Universidade de Pernambuco (UPE) estuda o processo de conquista do sertão empreendido pela Coroa portuguesa e pelas autoridades coloniais, observando o emprego da organização militar das vilas açucareiras sob jurisdição de Pernambuco e Bahia na segunda metade do século XVII. Este volume se encerra com uma resenha do livro A formação da elite colonial. Brasil (c. 1530 – c. 1630)¸de Rodrigo Ricúpero, feita pelo professor George Félix Cabral de Souza, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Recife, agosto de 2009

Marília de Azambuja Ribeiro


RIBEIRO, Marília de Azambuja. Apresentação. Apresentação. CLIO – Revista de pesquisa histórica, Recife, v.27, n.2, jul / dez, 2009. Acessar publicação original [DR]

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