A Revista Brasileira de História, a RBH da Anpuh, chega ao seu 46° número cada vez mais fortalecida pelo prestígio que os historiadores brasileiros lhe atribuem. Ao longo de sua trajetória, já contada em décadas, a RBH publicou centenas de autores nacionais e estrangeiros, contribuindo para a divulgação de temas e teses importantes para a historiografia. A RBH foi, também, dirigida por dezenas de professores universitários que, em suas participações nos Conselhos Editoriais, orientaram a entrega ao público de artigos de excelência científica. O levantamento dos assuntos tratados nesses textos pode apontar, guardadas as limitações relativas, os interesses mais enfocados no período de sua existência. Apenas considerando o início dos anos 90 até os dias atuais, isto é, os 32 últimos números editados, a RBH publicou principalmente dossiês de teoria da história ou historiografia, cerca de 25% do total — o que atesta vivamente que o ofício do historiador, seus métodos e dificuldades, apresentam-se como a preocupação mais constante da comunidade. Espaço pouco inferior ocuparam os dossiês sobre política — nacional, internacional e / ou teórica — indicando a questão do poder como sempre parceira dos caminhos do pensamento. Como temática de época, registrando o encontro com objetos historiográficos menos tradicionais, os assuntos de gênero e família aparecem em terceiro lugar entre os dossiês mais publicados. Mas não se restringem a estes nomeados os temas centrais do período: tratou-se também de ensino da história, de religião, de viagens, de escravidão, de artes, de ciências, de migrações, de história da América etc.

Levando em consideração essa distribuição temática que a história do periódico legou, o Conselho Editorial que ora passa a dirigir a RBH, houve por bem reafirmar a conveniência de dar continuidade ao andamento editorial já consolidado, acrescentando como parâmetros a atenção com problemas sugeridos pela conjuntura e a cobertura de dossiês / temáticas ainda não aquinhoados pelos números anteriores.

É nesse sentido que apresentamos o número que está em suas mãos. Nele concentram-se artigos sobre Experiências Urbanas, justamente numa circunstância social em que tanto nossas vidas nas pequenas ou médias aglomerações humanas, como nas metrópoles globais, merecem reflexão e cuidado especiais. O pensamento histórico que o dossiê atual oferece, percorre caminhos variados que vão de Campina Grande ao Rio de Janeiro, de São Paulo a Piracicaba ou São José do Rio Preto, passando pela cidade de Goiás, tudo dentro de um registro temporal significativo: a passagem do século XIX ao XX, incluindo sua primeira metade. Um espaço de tempo caracterizado pela criação das condições para o Brasil atual. Esses estudos da vida urbana atravessam temas variados: Mônica Schpun esquadrinha a São Paulo de Mário de Andrade, para captar uma sensibilidade talvez perdida; Fábio Sousa estuda a atribulada reforma urbana de Campina Grande, para entender a teatralização do poder que acompanhou “o advento das cidades modernas no Brasil”; André L. Paulillo avalia “as relações que a administração pública estabeleceu com saberes escolares e práticas educativas”, no Rio de Janeiro dos anos 20 do século passado; Graciela Oliver e Tamás Szmrecsányi examinam o “processo de ressurgimento da agroindústria canavieira paulista”, lançando luzes sobre o crescimento daquela atividade num período em que a crise do café ocupava as atenções; Maria da Conceição Silva discute a atuação do “clero no sentido de normalizar o comportamento das pessoas por meio da celebração do casamento na cidade de Goiás”; e Airton Cavenaghi apresenta o cotidiano da São José do Rio Preto de seus primórdios, por meio da análise de fotografias.

Os artigos que se seguem ao dossiê ocupam-se de diplomacia (Eugênio V. Garcia), política (Sandro Coelho), historiografia (José A. Cavenaghi), colonização (André F. Rodrigues) e violência (Myrian S. dos Santos), formando um verdadeiro panorama diversificado dos interesses historiográficos contemporâneos. Entre si, no entanto — e somados aos artigos componentes do dossiê — configuram um número da RBH integralmente dedicado ao estudo da história ou historiografia brasileiras.

O próximo número desta revista, que circulará em meados de 2004, cuidará do Brasil: do ensaio ao golpe (1954-1964), numa tentativa, uma vez mais, de abrir suas páginas para o entendimento da cultura política que cercou a relação entre democracia e autoritarismo, entre vida pública e privada, naquela turbulenta quadra da vida nacional. Os números seguintes tratarão da produção e divulgação de saberes históricos e pedagógicos, e da relação entre história e manifestações visuais, incluindo o estudo das fontes concernentes.

A definição dessas temáticas, a partir da análise dos pregressos dossiês, acompanha a reformulação da identidade visual da RBH, que agora ganha uma personalidade única e reconhecível para o período de vigência do atual Conselho Editorial.

Conselho Editorial


Conselho editorial. Apresentação. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.23, n.46, 2003. Acessar publicação original [DR]

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