Fragmentos da História: Portugal e Brasil (séculos XVI-XX) / Revista Trilhas da História / 2018

O dossiê temático intitulado Fragmentos da História: Portugal e Brasil (séculos XVI-XX), coordenado pelas signatárias, é o mais recente resultado de um conjunto de iniciativas que ambas têm levado a efeito, desde 2012, no sentido de aprofundarem os laços de cooperação universitária entre a Universidade Estadual de Londrina e a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Deste modo, este número de Trilhas da História conta com textos de jovens investigadores mestrandos, doutorandos ou recém-doutores portugueses e brasileiros, que escreveram textos em português de Portugal (aceitando ou não o acordo ortográfico) e português do Brasil, em total respeito pela diversidade.

Nos Fragmentos da História: Portugal e Brasil (séculos XVI-XX) o leitor pode encontrar, independentemente do diálogo entre vários assuntos, seis grandes temas, ou seja: a corte, a cidade, os comportamentos desviantes, o trabalho e a industrialização, as relações entre história e literatura e a história da alimentação. Os artigos apresentam uma enorme diversidade temática e cronológica, resultante das unidades curriculares lecionadas e dos interesses dos formandos, uma vez que se abordam matérias como a cortesania e os servidores da Casa Real, os guias turísticos, a literatura e a história, as cidades e os seus patrimónios, as políticas agrícolas e industriais, a alimentação, a cultura material e a prostituição. Vejamos com mais cuidado as diversas contribuições, tendo como critério de apresentação a cronologia dos textos.

Marcus Vinicius Reis, doutorando sanduiche na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sob a orientação de Isabel Drumond Braga, enveredou pelo mundo das crenças mágicas em “Circulação de crenças e saberes mágico-religiosos no mundo luso-africano do século XVI: os processos inquisitoriais de Catarina de Faria e Mónica Fernandes”, optando pela micro-história e analisando dois estudos de caso, cujo palco geografico incluiu espaços ligados pelo Atlântico.

Igualmente na ótica da micro-história, temos o texto de Isabel Drumond Braga, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no qual prepassa imigração, comércio, cultura material e protestantismo, denominado “Um Bufarinheiro Francês na Lisboa Quinhentista: Trabalho, Pobreza e Luteranismo”. A autora utilizou um processo do Santo Ofício cuja particularidade mais relevante consiste na inclusão de um inventário de bens, um dos raros documentos deste género nos processos da Inquisição do século XVI.

Carolina Rufino, mestranda na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em “A literatura de cortesania como lugar de memória: os casos de Castiglione e Rodrigues Lobo” levou a efeito um trabalho de prospeção e de análise do carácter memorialístico da literatura de cortesania, comparando duas obras diversas e produzidas com quase um século de intervalo, Il Libro del Cortegiano (1528) e a Corte na Aldeia (1619). A autora inquiriu as obras como lugares de memória, uma vez que estas retrataram os comportamentos dos cortesãos em termos ideais, matéria bastante relevante na Europa Moderna.

Julia Castiglione, doutoranda na Université Sorbonne Nouvelle – Paris 3, estudou “Os guias de Roma no século XVII: entre a abordagem ritual e estética da cidade”, desenvolvendo uma abordgem pela qual entendeu que os guias do século XVII desempenharam um esforço para o entendimento de uma Roma moderna que passou de um sistema de referência histórico-religioso para um sistema histórico-cultural, partindo da ideia de “função do autor”, de Michel Foucault.

Com “Tanoeiros e luveiros na Época Moderna: trabalho, sociabilidade e cultura material”, João Furtado Martins, doutorando na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sob a orientação de Isabel Drumond Braga, procedeu à divulgação de resultados parciais da sua investigação em curso. Tratou-se de utilizar fontes inquisitoriais, designadamente processos, para estudar as atividades laborais, a posse de bens, os conflitos e as sociabilidades de diversos grupos sócio- profissionais, no caso, tanoeiros e luveiros, dois ofícios correntes, um da madeira e outro do couro, durante os séculos XVII e XVIII.

Alex Farvezani da Luz, então doutorando sanduiche na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sob a orientação de Isabel Drumond Braga, agora já doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no texto “O fomento manufatureiro em Portugal e os efeitos da política econômica pombalina (século XVIII)”, dedica-se ao estudo do fomento manufatureiro no Portugal setecentista durante o reinado de D. José I e da administração do Marquês de Pombal, fixando-se na Real Fábrica das Sedas.

Em “As cidades brasileiras do século XIX: Rio de Janeiro e Franca”, Maria Renata da Cruz Duran propôs uma visita a dois espaços urbanos lendo-os como património histórico, a partir dos olhares dos viajantes estrangeiros, sob a fundamentação teórica de que o património histórico pode ser entendido como um bem destinado ao usufruto de uma comunidade e se constituiu pela acumulação contínua de objetos com um passado comum.

Por seu lado, o graduado em História pela Unisantos, David Francisco de Moura Penteado apresenta um extrato de seu trabalho de conclusão de curso, defendido em 2016. No presente artigo, “O Auxiliador da Indústria Nacional: um periódico ao serviço do Estado Brasileiro? (1833-1896)”, o jornal, bem como a indústria brasileira, entram em cena dando lugar a um, embora inicial, já consistente trabalho no incipiente terreno do estudo da indústria e da agricultura brasileiras.

O graduado em História pela Universidade Estadual de Londrina, Júnior César Pereira, defende o objeto de estudos do trabalho de conclusão de curso em “Manuel Inácio da Silva Alvarenga: trajetória de um homem de letras (1749-1814)”, no qual a biografia é colocada à prova no escrutínio de um percurso formativo.

O resultado dos primeiros estudos do igualmente graduando em História pela Universidade Estadual de Londrina, João Gabriel Côrrea, intitulado “A Singularidade do romance O adolescente no conjunto literário de Fiódor Dostoiévski de 1861 a 1881” debate o único romance de formação do autor russo no panorama literário europeu do período.

João Pedro Gomes, doutorando na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, com uma tese sobre doçaria portuguesa, orientada por Maria José Azevedo Santos e Isabel Drumond Braga, enveredou pelo texto que intitulou “‘jantares por preços certos’: a publicidade dos serviços alimentares da Empreza Culinária (1896-1899)”. Trata-se do estudo das estratégias de comunicação de uma empresa com sede em Lisboa cuja publicidade permite conhecer a natureza e a logística da venda de refeições “take-away” / ”delivery” muito próxima dos modelos atuais e que se apresenta como um tipo de serviço original à época.

Francisco Pardal, mestrando na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sob a orientação de Isabel Drumond Braga, foi seduzido pela História da Alimentação, analisando as ofertas culinárias e hoteleiras do Alentejo em “Sabores ao Sul do Tejo: alimentos e pratos típicos do Alentejo e do Algarve no Guia de Portugal (1927)”. Partiu do referido Guia de Portugal, uma obra muito relevante em termos de divulgação do país aos turistas, ajudando a difundir a ideia de “portugalidade”, pensado e parcialmente concretizado por Raul Proença, na década de 1920, e continuado por outros vultos da cultura portuguesa, nas décadas seguintes.

A História da Alimentação conquistou igualmente a atenção e o interesse de Fábio Banza Guerreiro, mestrando na mesma faculdade sob a orientação de Manuela Santos Silva e Isabel Drumond Braga, que escolheu esta área do saber numa outra cronologia, escrevendo “Uma cozinha portuguesa, com certeza: a Culinária Portuguesa, de António Maria de Oliveira Bello”. A investigação dedicou-se à compreensão do surgimento da cozinha regional através da análise do receituário Culinária Portuguesa (1936), o primeiro livro que tentou abarcar toda a cozinha portuguesa, com distinções entre pratos nacionais e regionais, de forma consistente.

A prostituição e as matérias conexas foram objeto de manifesto interesse para Raquel Caçote Raposo, mestranda na Universidade de Lisboa, autora de “O ‘negócio’: marketing e prostituição feminina em Lisboa no início do século XX”. A autora estudou as transformações dos locais de exercício da prostituição em Lisboa, desde o final de Oitocentos, passando pelas estratégias de divulgação do negócio, nos alvores do século XX, a partir de autores coevos e de vários periódicos. O foco principal do artigo foi ensaiar os motivos que levaram à adoção de estratégias para atrair clientes, procurando concluir a que estamentos sociais se destinavam.

Como se comprovará com a leitura de Fragmentos da História: Portugal e Brasil (séculos XVI-XX), os leitores poderão desfrutar de uma panóplia de temas e cronologias. Na maioria dos casos, estamos perante autores a dar os primeiros passos na investigação. Assim, a oportunidade oferecida pretende ser um estímulo à continuação do trabalho.

Seções: Artigos livres, ensaio e resenha

Este número conta ainda com artigos livres, ensaio e resenha. Na primeira modalidade temos o texto de Ana Coelho, sob o título Novas possibilidades de leitura sociológica: o Principado de Augusto sob os conceitos de Simmel e Weber. A autora analisa a legitimação política do principado de Otávio Augusto, primeiro imperador de Roma e o responsável pela fundação desse novo sistema político no Mundo Antigo.

Na sequencia o artigo Centralizar o Império e civilizar os sertões: o “Brasil profundo” no discurso político de Paulino José Soares de Sousa, de Alan Cardoso, aborda a relação entre centralidade política, o mundo rural e o projeto civilizatório no Império brasileiro guiado pela dicotomia entre litoral e sertão. O Império também é abordado pelo artigo de Ana Sousa Sá – Varnhagen, o Visconde de Porto Seguro: um diplomata a serviço do Império, um historiador a serviço da nação –, mas a partir de uma discussão historiográfica que busca compreender as ideias e propostas do historiador Varnhagen no século XIX.

O artigo As intervenções sindicais no contexto do Golpe de 1964, de Alejandra Estevez, avança no tempo histórico e traz um tema caro para a história brasileira contemporânea: a intervenção do Ministério do Trabalho no movimento sindical, nos dois primeiros anos da ditadura civil-militar. Ainda o tema da ditadura, ou do processo de “transição sem ruptura”, é abordado por Cássio Guilherme em A transição rejeitada: PMDB e PFL na eleição de 1989, que discute o protagonismo dos dois maiores partidos brasileiros nas primeiras eleições diretas pós-ditadura.

Na seção “Ensaio de graduação” temos o texto de coautoria dos estudantes da UFSC Luiz Florentino e Hudson Silva, sob o título Os reflexos da imprensa na Reforma Protestante e seus efeitos sobre a crítica popular europeia ao clero, que aborda o surgimento da imprensa no século XV enquanto um fato que marcou a Modernidade.

Por fim, Helena Silva resenha a obra de Tania Regina de Luca A Ilustração (1884-1892): circulação de textos e imagens, entre Paris, Lisboa e Rio de Janeiro, tema que dialoga diretamente com o dossiê publicado neste número e organizado por pesquisadoras do Brasil e de Portugal. Silva destaca na obra de Luca a intensa relação estabelecida entre Paris, Lisboa e Rio de Janeiro a partir do entendimento da difusão cultural do polo irradiador que era a França no século XIX.

Isabel Drumond Braga

Maria Renata da Cruz Duran

Lisboa, novembro de 2018


BRAGA, Isabel Drumond; DURAN, Maria Renata da Cruz. Apresentação. Revista Trilhas da História. Três Lagoas, v.8, n.15, jul. / dez., 2018. Acessar publicação original [DR]

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