Com planisférios, atlas, cartografia com paisagens e manuscritos produzidos na Europa em tempos modernos nascia uma nova forma de representar espaços políticos com temáticas voltadas para as ocupações humanas e seus territórios, integrando populações e fronteiras. Na busca por imagens para explicar as partes que formam o globo terrestre, foi possível dar ideia sobre uma unidade envolvendo continentes, ilhas, oceanos, pessoas e culturas distintas. Rotas e caminhos marítimos ligaram sociedades de Norte a Sul e de Leste a Oeste com participação de múltiplos canais de informação. A rota marítima para as Índias encontrada por Vasco da Gama, em 1497, foi possível graças ao esforço de muitos conhecimentos, incluindo o do navegador e piloto muçulmano Ahmed ibn Majib, com quem ele saiu de Malindi, na costa oriental da África para chegar a Calicut (Thrower, 2002: 73). Ao contrário, portanto, da ideia de uma cartográfica moderna como resultado de estudos e ações de apenas homens europeus, ela resulta de conhecimentos de diferentes povos e culturas que passaram a ser registradas por conquistadores, corsários e cientistas dos tempos de Colombo e Cabral. Uma cartografia da soma de conhecimentos resultantes de relações antigas e modernas, constituídas por formas de ocupar e representar espaços e ações humanas incluindo formas de diferentes partes do mundo.

As descrições narrativas de conquistadores, pilotos e escrivães, entre outros, partiram de observações sobre a natureza e seus habitantes e passaram a fazer parte das mudanças ocorridas no mundo moderno europeu envolvendo os espaços alcançados com navegações pelos oceanos. A carta de Pêro Vaz de Caminha sobre o “descobrimento do Brasil” é um exemplo sobre uma das primeiras narrativas enviadas ao rei Dom Manuel, em Portugal, para dar conhecimento sobre os feitos da expedição liderada por Pedro Álvares Cabral. Sendo o rei o leitor principal a quem se destina a carta escrita em 1500, Caminha constrói texto informativo sobre a viagem, os nativos, os animais e a flora que encontra, descrevendo o que vislumbra com poucas dúvidas. O eixo central escolhido pela Revista Clio para os dois volumes de 2012, com dossiê Fronteiras e Sociedade, permitiu a reunião e seleção de artigos e resenhas para divulgar alguns dos mais recentes trabalhos de pesquisadores no campo da história social e política que reportam diferentes períodos da história. Trata-se de artigos de pesquisadores com exercício de análise sobre espaços e territórios com suas fronteiras e paisagens que se utilizam de diferentes áreas do conhecimento como o da história, o da antropologia e o da geografia.

Seguindo as diretrizes de M. Santos e J. B. Harley, entre as quais um território representa espaços e sistemas de objetos que podem ser lidos como textos, o segundo volume do dossiê Fronteiras e Sociedade se inicia com seis artigos dedicados a diversas realidades espaciais e temporalidades: Stephanie Caroline Boechat Correia se debruça sobre a África centro-ocidental no séc. XVII, em “Nas fronteiras da cristandade: as missões como baluartes dos impérios europeus na África centro-ocidental”; Christine Rufino Dabat investiga a atuação do engenheiro francês Henrique Milet em “A produção de açúcar nas fronteiras da modernidade: o percurso de Henrique Augusto Milet (Pernambuco, século XIX)”; algumas facetas dos conflitos entre indígenas e a sociedade colonial / nacional em áreas de fronteira do Nordeste brasileiro podem ser encontradas em “Nas fronteiras da sociedade envolvente: políticas indigenistas na província da Bahia nos anos de 1820 e 1860 – comarcas do sul e extremo oeste”, de André de Almeida Rego, e em “Do litoral aos sertões de Ararobá de Pernambuco: fronteiras, poder local e sociedade na América portuguesa (1762-1822)”, de Alexandre Bittencourt Leite Marques; Jonas Moreira Vargas, por sua vez, investiga “Os charqueadores de Pelotas, o comércio de carne-seca e as suas propriedades na fronteira com o Uruguai (século XIX)”; e Patrícia Genovez, Vagner Valadare e Thiago Santos se debruçam sobre “Entre as fronteiras do poder, do cotidiano e da narrativa: a experiência da realocação da ‘nova’ Itueta”.

Na secção dedicada aos artigos livres temos cinco estudos que tratam de várias questões relacionadas à história da África – “Moçambique e o fim do tráfico atlântico no século XIX”, de Diego Zonta – e do Brasil: “Coerção e controle: a educação superior no Brasil durante a ditadura civil-militar (1964-1988)”, de Jaime Valim Mansan; “A Gênese da Editoração Protestante no Brasil: o circuito de difusão das publicações (1830-1920)”, de Micheline Reinaux de Vasconcelos; “Memórias trajadas: roupas e sentimentos no diário íntimo de uma prostituta”, de Ivana Guilherme Simili; e “A Zona da Mata Pernambucana e a Serra Gaúcha: apontamentos sobre a estrutura fundiária em meados do XIX”, de Cristiano Luís Christillino.

Este número da Clio conta ainda com duas resenhas: Tissiano da Silveira resenha a obra “O Alufá Rufino: tráfico, escravidão e liberdade no Atlântico Negro (c.1822 – c.1853)”; já a obra coletiva “Cultura, identidade e território no Nordeste indígena: os Fulni-ô”, é resenhada por Edson Silva.

A organizadora externa seus agradecimentos a todos aqueles que colaboraram para a consecução deste volume.

Bartira Ferraz Barbosa


BARBOSA, Bartira Ferraz. Apresentação. CLIO – Revista de pesquisa histórica, Recife, v.30, n.2, jul / dez, 2012. Acessar publicação original [DR]

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