Diálogos entre história, imagem e palavra

Nesta edição de Maracanan, o termo visual qualifica não apenas as fontes e as questões tratadas, mas procura nomear também certo modo de reconstrução do conhecimento e do passado. A aposta no enlace entre legibilidade e visibilidade levou ao acolhimento de formatos variados – o artigo, o ensaio, o depoimento, a entrevista – nos quais a reflexão se oferece como algo mais do que uma justaposição de diferenças. As colaborações reunidas revelam pontos de contato para além do interesse na imagem gráfica, retórica, poética, plástica. Como enfatizam Paulo Knauss e Ana Maria Mauad, a cultura visual coloca novos desafios para o historiador. “A elaboração dos quadros da historicidade deve partir da materialidade das experiências sociais, dos seus indícios, vestígios, restos e pistas”, argumenta Mauad: “não basta olhar, é fundamental estranhar”.

O número se inicia com os textos do Dossiê. Encontram-se lado a lado reflexões teóricas, análises pontuais e o registro de trajetórias individuais. No percurso intelectual de Paulo Knauss, o interesse pela arte e a pesquisa em acervos e coleções levaram ao encontro com especialistas de diversas áreas. A experiência foi decisiva no entusiasmo que o historiador nutre pela erudição e pela história da imagem. Para ele, a erudição significa “considerar qual o diálogo que a imagem estabelece em sua criação, na sua circulação”. Em seu depoimento, Knauss destaca a importância da imagem na definição da prática da história. O campo da cultura visual, assim designado desde a chamada “virada pictórica” dos anos 1990, afirma ele, tornou possível interrogar e reunir objetos e temas de tradições disciplinares aparentemente distintas. Referência nas pesquisas brasileiras na área, o pesquisador defende que a cultura visual não se feche institucionalmente, mas que, ao contrário, mantenha-se sempre aberta e fiel ao seu lugar de troca de experiências.

Renata Proença entrevista Glaucia Villas Bôas e demonstra a riqueza de sua trajetória pessoal e intelectual, relembrando a partida para a Alemanha durante a ditadura militar, na década de 1970, e o contato com a sociologia alemã, que marcaria suas reflexões sobre o pensamento social e a produção cultural no Brasil. De volta ao Rio de Janeiro, Gláucia interessa-se pela década de 1950 e pelo concretismo no país, aprofundando-se no estudo da relação entre o surgimento da arte concreta e a experiência artística no ateliê do Engenho de Dentro (1946–1951). A socióloga considera esta experiência sui generis, levando-a a fazer da relação entre arte e loucura o centro do debate sobre o processo criativo. Gláucia delineia também as principais questões que envolvem a concepção das imagens vistas como objetos que atuam no mundo. Pontua, ainda, que a cultura visual vem provocando um interesse crescente pela maneira de encarar a imagem como objeto atuante, cujo dinamismo e vitalidade devem ser percebidos e examinados.

Ao modo de uma “genealogia”, Ana Maria Mauad apresenta diferentes perspectivas e conceitos que orientaram o interesse dos estudos históricos na imagem a partir da renovação historiográfica dos anos 1970 e 1980. No contexto da chamada história das mentalidades, a iconografia ganhou destaque como fonte de indagação ao passado. Nos Estados Unidos, partindo de premissas distintas, Martin Jay e William Mitchell definiriam, na década seguinte, o campo da chamada cultura visual, cada vez mais relevante na história. Tratava-se, escreve a autora, de “pensar além das limitações que a textualização atribui ao mundo visível e suas formas de representação não verbais”. No artigo, Mauad aprofunda a reflexão ao descrever o percurso de sua própria pesquisa com a fotografia, realçando a possibilidade de realizar duplamente a “construção histórica do visual e a construção visual da história”.

Karl Erik Shøllhammer formula uma hipótese sobre a singularidade do trabalho da fotógrafa Claudia Andujar com os Yanomami, ampliando o entendimento acerca da divisa da fotografia na atualidade das artes contemporâneas. O crítico aponta o caráter original da fotografia de Andujar como “prática fotográfica” e “possibilidade de experiência” do corpo vulnerável do índio. Segundo Karl Erik, o “desafio de colocar a linguagem de documentarista à disposição de uma convivência afetiva com os Yanomami” é uma preocupação central da artista. Os impasses da referencialidade e da temporalidade são por ele tematizados. Do documentarismo fotográfico por ela praticado ao projeto artístico de envolver o espectador na imagem, o crítico afirma: “Andujar consegue criar um espaço afetivo que interpela o espectador dinamicamente em sua plasticidade, textura e luz”. As imagens de afeto trazem a marca de um “fazer fotográfico” a desenhar o tempo imaginado dos Yanomami, no qual contraditoriamente coincide um passado “fora de nosso alcance” e uma temporalidade “sinistramente profética, apontando à catástrofe em curso”.

Em seu ensaio, Márcio Seligmann-Silva retoma a teoria benjaminiana da fotografia e a aproxima de uma escrita historiográfica capaz de facultar ao historiador, o alegorista da cultura, o gesto de congelar o tempo. Além disso, localiza na visão positiva de Benjamin sobre os avanços técnicos a cena de uma “segunda técnica” intensificadora de ilusões emancipatórias. “Novos espaços de jogo e de liberdade” são capturados pela câmera fotográfica que nos traz “o real” e produz “a visão da efetividade imediata”. Seligmann aponta para o jogo lúdico da “segunda técnica” com a natureza, de tal modo que seu fenômeno seja ainda mais desnaturalizado por nós, se supusermos, como Benjamin sugere, que cada época tem sua própria natureza conforme a sua tecnologia.

Apresentando material inédito, Maria Lucia Bueno destaca o modo pelo qual a internacionalização da moda da alta costura francesa no início do século XX ocorre em estreita relação com o desenvolvimento de uma cultura visual moderna, que teve como protagonista a imprensa de moda. A autora toma como exemplo as práticas publicitárias desenvolvidas pela costureira Jeanne Paquin e discute a maneira pela qual os criadores de moda se utilizaram dessa nova cultura visual para divulgar suas criações.

Lígia Dabul debate os processos criativos em arte e as interações sociais estabelecidas por meio da troca de cartas entre artistas, problematizando a invenção artística para além dos objetos já consagrados. O texto aponta ainda para a discussão da noção de autoria, tradicionalmente vista como produto do trabalho de um indivíduo singular.

Em seu artigo, Raquel Quinet reflete sobre o desenho como expressão da razão teórica, examinando o momento de inflexão em que a teoria da arte desponta como “uma crítica de si mesma”. Diferenciando-se, no interior da tradição platônica da pintura, os teóricos da arte passam a se confrontar com questões de natureza artística. Refinam-se, assim, os sentidos do desenho que recebe o novo significado de imagem mental constituída na interioridade do artista.

Finalizando o Dossiê, Kelvin Falcão Klein recorre à historicização dos modos de atenção conforme estabelece o crítico de arte Jonathan Crary para articular em alguns textos de W. G. Sebald, autor de Austerlitz (2001), Os anéis de Saturno (1995) e Os emigrantes (1992), uma “peculiar mistura de atenção flutuante, multitemporalidade e reflexão sobre as imagens”. Klein explora a proximidade entre os conceitos de “deriva”, “psicogeografia” e “détournement” de Guy Debord e as relações entre escritura e o ato de caminhar em Sebald, a fim de problematizar o vínculo de sua prática poética com a história, a memória e o espetáculo.

A entrevista com Ettore Finazzi-Agrò destaca os impasses historiográficos que atravessam a produção literária brasileira. A partir da hipótese da “situação intempestiva” que marca a temporalidade de nossa formação cultural, o crítico realça a literatura como o espaço de escuta de um sujeito ausente da história, citando Certeau em L’absent de l’histoire. Pois, segundo ele, “na defasagem entre o poder-dizer e o dito […] habita […] uma certa imagem da história e a própria história como sucessão caótica e heterogênea de instâncias aleatórias e como interrogação incessante desse caos e dessa heterogeneidade”.

Em resenha crítica, o escritor e historiador da arte Rafael Cardoso aponta qualidades e lacunas em Books and Periodicals in Brazil 1768-1930: a Transatlantic Perspective (2014). O livro apresenta o estado dos debates sobre a história do periodismo brasileiro, em especial do século XIX. Nem sempre atingindo o resultado proposto, segundo o resenhista, a publicação merece, entretanto, destaque pela reunião de um conjunto importante de temas, constituindo-se uma referência para o público de língua inglesa.

A seção de artigos reforça a proposta geral do Dossiê. André Azevedo remonta à centralidade do visual na tradição ocidental, destacando a arquitetura como arte estratégica para o controle da urbe e seus habitantes. Seguindo essa perspectiva, o autor mostra como a reforma urbana empreendida no Rio de Janeiro, no início do século XX, mantém firmes os laços com tal tradição. O projeto de reordenação de Pereira Passos deixara de considerar, porém, que a cidade e suas tradições – ou as “várias cidades” numa só – pediam mais do que a “persuasão estética” e o ideal civilizatório da remodelação.

O tema da reforma urbana reaparece no texto de Viviane Araújo. A partir de um álbum fotográfico encomendado pelo prefeito de Buenos Aires, Torcuato de Alvear, em 1885, a autora investiga as transformações da cidade na década de 1880. A historiadora destaca a eloquência dessas imagens no interior de um discurso voltado para a difusão de valores como o progresso, a salubridade e a modernidade em que, no entanto, as tensões e os estranhamentos decorrentes da reforma jamais se mostram.

Caio Proença e Charles Monteiro examinam a historicidade do fotojornalismo e suas práticas no Brasil dos anos 1970, tendo em vista as diferentes etapas da atividade. A partir da cobertura fotográfica das manifestações estudantis ocorridas em Porto Alegre, em 1977, publicada pela revista Veja, os autores consideram a natureza peculiar da linguagem visual construída coletivamente num grande veículo de comunicação, investigando suas implicações ideológicas e políticas.

Maria da Conceição Pires analisa estratagemas discursivos e visuais nas tirinhas de Bob Cuspe, personagem do cartunista Angeli. O humor orienta aí os jogos de adesão e oposição aos modelos estabelecidos, criando um entre-espaço no qual se efetua o que ela chama de contraconduta dos modos de viver e interagir numa grande cidade dos anos 1980. Pires realça que a crítica contida nos quadrinhos promove, senão a mudança, ao menos a desestabilização de valores social e historicamente dados.

No contexto da contemporaneidade literária, Felipe Charbel atualiza a tradição do uso de recursos retóricos em Sexo, romance de André Sant’Anna, explorando lugares-comuns, ideias-tipo e repetições no procedimento de tipificação de imagens performáticas. O historiador ressalta o “inesperado” atravessamento do campo do desejo sexual pelo automatismo das relações humanas: “o desejo é pensado no romance como puro discurso social, que realça hierarquias e reforça preconceitos, desumanizando as pessoas em vez de aproximá-las”.

A seção conta ainda com três artigos que tomam o cinema como matéria de reflexão. Alexandre Guilherme e Flávio Trovão investigam a trajetória de vida de Larry Flynt na sua crescente militância pela liberdade de expressão nos EUA. Como objeto de estudo, os autores analisam o filme “O povo contra Larry Flynt” (1996) de Milos Forman. Jean Carlos Costa e Luiza Melo Alvim discutem as relações entre a montagem cinematográfica e a escrita da história a partir das Passagens de Walter Benjamin. Tempo e narrativa são termos problematizados no gênero documentário tratado no texto. Já Sylvia Nemer, aponta para os diferentes olhares sobre a imigração produzidos pelo cinema, destacando adaptações cinematográficas de obras literárias. No artigo, ressalta a diferença de abordagens entre a década de 1970 e os anos 2000.

Encerrando a seção, Roberta Ferreira e Ivan Lima apresentam aspecto pouco estudado da obra do caricaturista Angelo Agostini: sua colaboração em publicações de destaque nos primeiros anos da República brasileira, as revistas O Malho e O Tico-Tico, esta última voltada para o público infantil. O artigo mostra a busca pela inovação da linguagem visual empreendida pelo artista e seu engajamento em temas como a cidadania, o progresso e a república, contribuindo para a reavaliação da memória do desenhista, sempre associada à imprensa oitocentista e à luta pela abolição.

As Notas de Pesquisa completam a proposta da revista. Maria Cristina Volpi reconstrói a trajetória intelectual de Sofia Jobim Magno de Carvalho, pioneira nos Estudos em Indumentária da atual Escola de Belas Artes da UFRJ, especialmente nas décadas de 1940 e 1950. A autora parte do acervo formado pela própria Sofia, atualmente sob a guarda do Museu Histórico Nacional, para revelar sua importância no campo dos estudos da moda e da indumentária. Paralelamente, Volpi ressalta o papel de Sofia no Clube Soroptimista do Rio de Janeiro, associação feminina de origem norte-americana e cunho feminista, da qual foi integrante e uma de suas fundadoras. Isabela Moura Mota examina a série “Tipos do Rio de Janeiro”, publicada em 1863, na revista satírica Semana Ilustrada. A historiadora parte de uma hipótese pouco explorada, aproximando o discurso plástico-literário criado na revista brasileira às fisiologias, gênero editorial de sucesso no início do século XIX, especialmente na França. Caroline Pires Ting aprofunda a relação entre o escritor e dramaturgo Antonin Artaud e o pintor Edvard Munch. Sob a chave da intertextualidade, a autora entrelaça histórias de vida e experimentação plástica e poética, refinando a reflexão sobre as influências entre os artistas. Por fim, Rosiel Mendonça e Vinícius Amaral valorizam a discussão em torno do documentário “Amazonas, Amazonas” produzido por Glauber Rocha em 1966. Os autores explicitam as tensões ideológicas que marcam o contexto de produção da obra, trazendo à luz um Glauber pouco conhecido.

A resposta positiva ao convite para o debate feito por esta Maracanan indica o amadurecimento da relação entre a história e a cultura visual nos estudos realizados no Brasil. O crescente reconhecimento do campo, marcado pela vocação para a aproximação e troca entre distintas tradições, acentua, assim, os méritos de um projeto multidisciplinar.

Laura Nery – Doutora em História Social da Cultura pela PUC-Rio, é professora visitante do Departamento de História da UERJ, onde atua como pesquisadora do Laboratório Redes de Poder e Relações Culturais (Redes) e do Laboratório de Estudos das Diferenças e Desigualdades Sociais / LEDDES. Integra o grupo de pesquisa do CNPq “Imprensa e circulação de ideias: o papel dos periódicos nos séculos XIX e XX”.

Cláudia de Oliveira – Doutora em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, é professora da Escola de Belas Artes da UFRJ. Coordena o grupo de pesquisa do CNPq “Arte, Gênero e Cultura Visual no Brasil”, e o curso de graduação em História e Teoria da Arte e integra o programa de pós-graduação em Artes Visuais (PPGAV / EBA / UFRJ).

Lúcia Ricotta – Doutora em História Social da Cultura pela PUC-Rio, é professora do curso de Letras do Centro de Letras e Artes da UNIRIO e do Programa de Pós-Graduação em Letras da UNIFESP (PPGLETRAS). Participa dos grupos de pesquisa do CNPq “Literatura e Linguagens: fronteira, espaço, performance, memória” e “Teoria e História Literária e Geografia: Epistemologia, História e Ambiente”.


NERY, Laura; OLIVEIRA, Cláudia de; RICOTTA, Lúcia. Apresentação. Revista Maracanan, Rio de Janeiro, v.12, n.14, 2016. Acessar publicação original [DR]

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