Neste número 65 da Revista Brasileira de História estamos completando 4 anos à frente de sua editoria e totalizando a coordenação da edição de oito números, com a publicação de 140 artigos. Durante esse período a RBH, criada em 1981 com o objetivo de se constituir em um canal de divulgação da produção dos professores e historiadores brasileiros, vivenciou significativas transformações, passando a ser exclusivamente digital e a oferecer uma versão em inglês. Essas inovações têm ampliado o escopo de sua circulação, permitindo o acesso à nossa produção por um público não conhecedor da língua portuguesa e agilizando a consulta dos volumes novos e antigos.

Neste número o Conselho Editorial elegeu o tema “História e Demandas Sociais” para o dossiê que, seguindo a trilha do anterior, também está sofrendo uma ampliação no que diz respeito ao número de artigos publicados. Como já dissemos, o interesse em publicar na RBH tem sido crescente na comunidade de historiadores e cientistas sociais, e a cada número aumenta o volume de contribuições para avaliação. Pode-se destacar, por exemplo, o aumento de 226% no volume de textos recebidos do ano de 2009 para 2010, quando a revista se tornou exclusivamente digital. Paralelamente, observa-se um crescimento de 227% no volume de acessos à RBH no –SciELO, comparando-se o período em que a publicação era impressa e digital e o atual, desde dezembro de 2009, em que ela é exclusivamente eletrônica. Essa nova busca da produção historiográfica brasileira por canais para internacionalização dos seus estudos é muito bem-vinda, mas coloca muitos desafios para a RBH e indica a necessidade não só de ampliarmos a extensão dos números, mas também de adotarmos uma maior periodicidade. Este número conta com 14 artigos.

O Dossiê “História e Demandas Sociais”, sintonizado com a temática do Simpósio Nacional, tem o objetivo de contribuir para os debates acerca dos usos da história e do papel do historiador. A noção de demanda social da história permanece ainda vaga, é usada em contextos de análise muito diferentes e abrange fenômenos muito diversos; as demandas memoriais e as demandas midiáticas e editoriais são alguns exemplos. O boom de memórias e o interesse crescente dos diferentes grupos sociais pelo passado têm ampliado o espaço dos historiadores nos meios de comunicação e nas publicações para o grande público, mas ao mesmo tempo colocam para eles o desafio de transpor e adequar seus conhecimentos em busca de comunicação com um público não especializado. Muitas vezes, isso leva o historiador à tentação de recorrer a fórmulas simplistas e a respostas ambíguas às demandas vindas da sociedade e do Estado. Além disso, podemos mencionar os riscos de interferências externas que podem colocar em questão a autonomia da história como disciplina científica e contaminar o julgamento científico pelo juízo midiático. Nesse quadro é preciso estar atento à instrumentalização da história pela demanda social e repensar o vínculo entre função do conhecimento e função social da história, sobretudo quando se trata da análise de passados sensíveis, tais como o holocausto e as ditaduras na América Latina.

Se os pontos levantados são ameaças para os historiadores, a omissão ou o isolamento também podem acarretar consequências graves. Inúmeras vezes essas demandas sociais veiculadas não sensibilizam os historiadores que não conseguem transpor as novas contribuições acadêmicas para o leitor não especializado. Por sua vez, essa postura acarreta que os livros de vulgarização e os manuais produzidos por jornalistas ou autores não especializados preencham esse vazio e acabem sendo privilegiados pelo mercado editorial.

Diante do conjunto de textos recebidos e selecionados podemos dizer que essa área apresenta-se agora como um grande desafio para os historiadores. Para o Dossiê foram selecionados sete artigos, cinco dos quais focados na realidade brasileira, e dois tomando como referência o México e a Europa. No que diz respeito aos recortes temporais, foram privilegiados textos que abordavam temas relacionados com a História do Tempo Presente. Quanto às formas de abordagem, são apresentados trabalhos que adotaram como estratégia a discussão teórica e metodológica de pesquisas sobre os chamados temas traumáticos, como o estudo da repressão e do trabalho análogo a de escravo no Brasil e os usos políticos do passado, em especial quando se trata dos livros didáticos.

Iniciamos com o artigo de Antoon De Baets “Uma teoria do abuso da História”, que pretende esboçar uma teoria voltada a controlar o uso irresponsável da história. O abuso da história é definido como a utilização de maneira não científica do conhecimento histórico com o intuito de ludibriar e enganar a sociedade acerca de eventos traumáticos e polêmicos. Joana Maria Pedro e Anamaria Marcon Venson, no texto “Tráfico de pessoas: uma história do conceito”, tratam da discussão sobre o tráfico de pessoas focalizando a questão específica da prostituição. Alberto del Castillo Troncoso em “Memória e representações: a fotografia e o movimento estudantil de 1968 no México” focaliza a história desse movimento e as complexas relações entre a imprensa e o poder político da época, privilegiando a análise dos usos político e cultural das fotografias por parte das diferentes facções. Américo Oscar Guichard Freire em “Intelectuais, democratização e combate à pobreza no Brasil Contemporâneo” aborda o tema da participação de intelectuais em projetos e programas de inclusão social no país tomando como objeto de análise a trajetória político-intelectual de Herbert de Souza, o Betinho, e Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto. Ernesta Zamboni e Cristiani Bereta da Silva no texto “Cultura política e políticas para o ensino de história em Santa Catarina no início do século XX” apresentam análises das relações estabelecidas entre a produção historiográfica e a produção de uma história de Santa Catarina para o uso escolar, com vistas a enfrentar o desafio de desenvolver uma educação cívico-patriótica voltada para projeções simbólicas sobre o futuro do Brasil. Maria Aparecida Leopoldino Tursi Toledo em “Os lugares da produção do saber histórico escolar no Brasil: compêndios de história e narrativas conciliadoras no Paraná (1876-1905)” discute o papel dos livros didáticos na construção do Estado nacional e no sentido de nação, destacando, no caso do Paraná, como a História nacional teve dificuldades em se firmar como disciplina autônoma até os anos iniciais da República brasileira. Por fim, Alexandre Veiga trabalha com “Acervos da Justiça do Trabalho como fonte de pesquisa”. O artigo descreve a trajetória do Memorial da Justiça do Trabalho no Rio Grande do Sul, relatando suas experiências de atuação na área da preservação e divulgação do patrimônio documental e museológico da Justiça do Trabalho no Estado.

A seção de avulsos apresenta sete artigos. Andréa Lisly Gonçalves reconstitui no artigo “A luta de brasileiros contra o miguelismo em Portugal (1828-1834): o caso do homem preto Luciano Augusto” alguns aspectos da resistência ao regime implantado pelo rei d. Miguel (1828-1834) no intuito de esclarecer o trânsito de pessoas e de ideias no império português, permitindo até mesmo o estabelecimento de contrastes entre o contexto americano e o europeu. Jaime Rodrigues em “Um mundo novo no Atlântico: marinheiros e ritos de passagem na linha do equador, séculos XV-XX” analisa as origens, a disseminação e a transformação desses rituais na cultura marítima. Giselle Martins Venâncio em “Comemorar Camões e repensar a nação: o discurso de Joaquim Nabuco na festa do tricentenário de morte de Camões no Rio de Janeiro (1880)” analisa os eventos realizados durante essa comemoração com objetivo de destacar um ideal de identidade nacional brasileira definida como fundamentalmente lusitana. Jeffrey D. Needell no texto “O chamado às armas: o abolicionismo radical de Joaquim Nabuco (1885-1886)” trata do papel de Nabuco no movimento abolicionista e das transformações das suas próprias visões políticas no contexto da trajetória histórica do movimento. Juliana Miranda Filgueiras no texto “A produção de materiais didáticos pelo MEC: da Campanha Nacional de Material de Ensino à Fundação Nacional de Material Escolar” analisa a constituição e as principais realizações da CNME e da Fename e como essa produção evidenciou a atuação do Ministério da Educação em uma área dominada pelo mercado privado, sobretudo pela indústria editorial de didáticos. Cristiane Hengler Corrêa Bernardo e Inara Barbosa Leão no artigo “Formação do jornalista contemporâneo: a história de um trabalhador sem diploma” objetivam analisar o contexto em que a profissão de jornalista se desenvolveu no Brasil, as influências que sofreu, bem como as mudanças técnicas que alteraram a sua base material de produção. Por fim, João Márcio Mendes Pereira no artigo “O Banco Mundial e a construção política dos programas de ajustamento estrutural nos anos 1980” discute a gestação e operacionalização dos programas de ajustamento estrutural do Banco Mundial ao longo da década de 1980.

Neste número temos dois textos que destacam momentos e personagens importantes da história da Anpuh. A conferência proferida pelo então presidente da Anpuh, Durval Muniz de Albuquerque Júnior, “Ritual de Aurora e de Crepúsculo: a comemoração como a experiência de um tempo fronteiriço e multiplicado ou as antinomias da memória”, por ocasião do aniversário de 50 anos na nossa entidade, em julho de 2011, e uma homenagem ao professor John Monteiro, figura de grande relevância acadêmica, falecido recentemente, escrita pela professora Regina Celestino.

Temos ainda duas entrevistas com os historiadores Jean-François Sirinelli, da França, e Eugenia Meyer, do México, e publicamos quatro resenhas: Jaime Valim Mansan analisa En el combate por la historia: la República, la guerra civil, el franquismo, organizado por Ángel Viñas; Wanderson da Silva Chaves apresenta Racecraft: the soul of inequality in American Life, de Karen E. Fields e Barbara J. Fields; Kleiton de Sousa Moraes resenha O que é um autor? Revisão de uma genealogia, de Roger Chartier, e Fernando de Araujo Penna analisa Qual o valor da história hoje?, organizado por Marcia de Almeida Gonçalves, Helenice Aparecida de Bastos Rocha, Luís Monteiro Resnik e Ana Maria Ferreira da Costa Monteiro.

Mais uma vez convidamos nossos leitores a consultar os sites da Anpuh e do SciELO e baixar nos computadores ou nos leitores digitais os artigos de seu interesse.

Marieta de Moraes Ferreira


FERREIRA, Marieta de Moraes. Apresentação. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.33, n.65, 2013. Acessar publicação original [DR]

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