Existem momentos na vida onde a questão de saber, se pode- se pensar diferentemente do que se pensa e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir (Michel Foucault).

Nos últimos trinta anos, inúmeros foram os estudos e pesquisas relacionados a questões de gênero no Brasil. Os quais propiciaram maior compreensão acerca das interações humanas.

Indubitavelmente, a distribuição de poder entre homens e mulheres é desigual e, frequentemente, sua disputa ocorre de forma violenta. Ou seja, o conceito de gênero pode ser compreendido como uma relação de poder e dominação do homem sobre a mulher. Demonstrando que o papel masculino é consolidado historicamente e reforçado por modelos sociais – como a patriarcal. Essa dinâmica social culminou em relações violentas entre os sexos e demonstra que a submissão das mulheres não é algo espontâneo, mas sim, uma indução no processo de socialização das pessoas.

Associado aos movimentos feministas, os conhecimentos sobre as questões de gênero constroem e reconstroem a categoria em um evolver histórico, expressando como homens e mulheres se organizam socialmente, evidenciando como a parceria entre tais movimentos e a academia, através de diversos laços – lato sensu e stricto sensu, congressos, conferências, cursos entre outros – valida e valoriza as ações políticas empreendidas pelos movimentos, subsidiando-os teoricamente e, como também, em inúmeras situações, concedendo aos mesmos sua infraestrutura, possibilitando a integração entre ambas as instâncias.

Neste sentido, a Revista Ariús, do Centro de Humanidades da Universidade Federal de Campina Grande, representa importante agente difusor de conhecimentos pluralistas, apresentando a diversidade e a contribuição desses para os que militam – na perspectiva acadêmica e política – à frente das questões humanas e sociais.

Neste Dossiê a Revista oferece artigos que contemplam temáticas pertinentes às “Questões de Gênero”, em específico com temáticas referentes à sexualidade, relações de gênero, imprensa escrita, literatura e política pública, cujos autores detêm formação privilegiada, atuantes no âmbito acadêmico, a maioria em espaços públicos, como estudantes e pesquisadores. Em outras palavras, pessoas que se dedicam às temáticas privilegiadas neste Dossiê.

Destarte, este Dossiê apresenta, “A mulher e a política nas revistas Veja e Realidade: anos de 1967, 1994 e 2010”, problematizando a divulgação de pesquisas realizadas pelas supracitadas revistas, sobre a participação das mulheres na militância política brasileira. A autora apresenta um mapa histórico, “(…) da forma como a mídia apresentou a percepção da mulher sobre a política e quais as suas contribuições para a construção de uma visão atual sobre a relação mulher e política e a inserção da mulher nos espaços de poder.” embasada nas informações obtidas e interpretadas no percurso investigativo.

Em instigante estudo, “Imagem, representação e masculinidade: considerações sobre as capas da G magazine” problematiza a produção e reprodução da imagem do corpo viril do homem, suas posições corporais ou expressões faciais, em seu vestuário e os impactos dessas imagens ao público-alvo da revista, ou seja, em específico, aos homossexuais.

Em outra perspectiva, o artigo, “A construção escolar da (in) diferença: a identidade homossexual diante da produção / reprodução do saber / poder sobre a sexualidade no ambiente da escola”, aborda a questão da homossexualidade, discorrendo sobre o papel da escola na formação da sexualidade e a construção da identidade “(…) a partir de uma reflexão em torno dos sistemas simbólicos de representação construídos e disseminados nas práticas pedagógicas desta instituição.”

“As personagens femininas em Lygia Fagundes Telles: encontros e desencontros entre o eu e o mundo / o eu e o outro” discorre sobre “(…) a narrativa da referida escritora, centrando a atenção nos contos Pomba Enamorada ou uma história de amor, O Menino e Natal na Barca, observando as formas de relacionamento das personagens consigo e com outro, a fim de analisar o fenômeno de construção da identidade na modernidade”

“Identidades desviantes: do macro ao microcosmo”, apresenta uma reflexão sobre a necessidade que o ser humano tem em nomear, a partir de uma perspectiva essencialista, as orientações sexuais. O autor desenvolve sua argumentação através dos questionamentos “por que eu sou o que eu sou?” substituindo-o pelo “como eu posso extrair prazer de minha própria existência?”, embasado na teoria de Michel Foucault.

“Mulheres „imorais‟, „arruaceiras‟ e „desordeiras‟: jogos discursivos da imprensa”, apresenta os modos de condutas e comportamentos de mulheres denominadas e / ou classificadas como desviantes, pelo jornal Diário da Borborema. As informações são interpretadas à luz dos estudos de gênero e, como locus, a cidade de Campina Grande / Paraíba, nas décadas de 1960-1970.

Outro interessante artigo refere-se a “A alimentação como um tema político das mulheres”, contextualizando-o através de um viés dos direitos humanos, do direito ao acesso à alimentação, em qualidade e quantidade, defendendo tal condição a partir da instituição de políticas públicas.

Nesse embaralhamento de estudos e pesquisas, em forma de artigos inter e multidisciplinares, convidamos os leitores ao sabor da leitura, com a certeza de estarmos contribuindo com a difusão e o debate sobre as “Questões de Gênero”.

Latif Antonia Cassab


CASSAB, Latif Antonia. Apresentação. Mnemosine Revista. Campina Grande, v.4, n.2, jul. / dez., 2013. Acessar publicação original [DR]

Acessar dossiê

 

Deixe um Comentário

Você precisa fazer login para publicar um comentário.