Neste número da revista História – Debates e tendências, apresentamos o dossiê “História e imagens: visões dos processos sociais”, no qual vários especialistas abordam o tema história a partir da perspectiva da utilização da imagem, seja fotografia, história em quadrinhos / charges, desenhos, pintura, arte urbana, como instrumento emergente para entender diversos processos sociais pretéritos ou contemporâneos. Conforme Didi-Huberman (2015), frente a uma imagem, o passado segue se reconfigurando constantemente, e a imagem só se torna fonte de reflexão a partir de uma construção da memória.

Assim, a dinâmica lógica de toda construção humana é mobilizada a múltiplas maneiras de ver e sentir a memória, como estrutura sociocoletiva (CANDAU, 2012; HALBWACHS, 1976); mas as múltiplas visões dessa memória vinculam-se também com os lugares (NORA, 1984), agindo como ferramenta alternativa para a conscientização a respeito de situações conflituosas, abrindo espaço para uma nova forma de crítica social, reafirmação de situações culturais e identitárias. Também rompem com velhos paradigmas sobre a abordagem do estudo da História, desde criação, aproximações estéticas da arte e diversas narrativas culturais ao longo do tempo.

Neste dossiê, encontramos distintas propostas para análise dos usos das imagens como instrumentos de leitura dos processos históricos. O dossiê inicia com “O fotojornalismo gaúcho dos anos 1970: Jacqueline Joner e Eneida Serrano”, escrito por Carolina Martins Etcheverry, em que é problematizado o trabalho visual de ambas as profissionais durante a década de 1970, mostrando o início da carreira das fotógrafas e a importância de seus trabalhos enquanto documentos visuais que servem de pontos de denúncia das relações de trabalho e poder o de reflexão do papel da mulher e de suas diversas formas de resistências sociais. No artigo “Aproximação à estética indígena”, Luis Galindez, a partir de seu olhar de professor e artista plástico, expõe reflexões históricas do conceito de estética: primeiramente a partir da filosofia ocidental, para chegar à visão dessa em culturas indígenas, como objeto do conhecimento sensível, dentro das práticas sociais (mítico-simbólicas).

“Uma experiência plástica da minha cotidianidade vinculada aos Diabos Dançantes de Yare”, de Carlos José Morgado Delgado, narra vivências do autor não só como artista criador, mas também como promotor cultural, neste caso, enfatizando a cerimônia de Corpus Christi, celebrada no povoado venezuelano de San Francisco de Yare, por meio dos diabos dançantes. Essa experiência autobiográfica abarca problemáticas sobre o patrimônio cultural tanto material como imaterial. María del Carmen Sánchez, em “O impossível retorno a Ítaca”, leva-nos a um passeio poético e visual por meio das diferentes arquiteturas de espaços e cidades, localizando-as como lugares de múltiplas memórias, mitos e esquecimentos.

“Reflexões acerca do reconhecimento visual do Clube Caixeiral de Rio Grande, RS”, escrito por Gianne Zanella Atallah e João Fernando Igansi Nunes, perpassa a história, entre memórias e recordações de testemunhas, do Clube Caixeiral da cidade de Rio Grande, mostrando as transformações desde as primeiras décadas do século XX, com intenção de examinar os processos memoriais tanto da cultura material como da imaterial. Aproximando-nos da arte urbana, Diego Finder Machado nos oferece “Isto não é uma pichação: afrontas (icono)gráficas e ilusões nominalistas em Joinville, SC”, em que, a partir de exemplos daquela cidade, explica diferenças entre “pichação” e grafite, lançando um olhar crítico na interpretação deste como arte urbana, tendo em mente os cânones de pureza, significado e beleza.

No espaço destinado a artigos de temática livre, encontramos abordagens interessantes. O artigo de Omar González Ñáñez, “Visões do mundo Maipure-Arawakas do Noroeste Amazônico: relações das oralidades e escrita na interculturalidade”, explora diversas perspectivas de ambas as etnias indígenas da Venezuela, a partir de narrativas associadas a sua mitologia e sua materialização na arte rupestre. O texto “Direitos humanos e diálogo com o século XXI na Carta Magna da Umbanda”, de Artur Cesar Isaia, examina o documento redigido por lideranças umbandistas em 2013, posicionando a religião afro-brasileira de maneira propositiva sobre temas da atualidade, como contracepção, aborto, identidades de gênero e novos modelos familiares.

Em “Anjos planetários e o mundo sublunar: Trithemius, astrologia e política nos séculos XV e XVI”, Francisco de Paula Souza de Mendonça Júnior apresenta as relações entre esoterismo e política durante a Idade Média, na transição do século XV para o século XVI, na Alemanha de Maximiliano I e do abade alemão Johannes Trithemius. Para finalizar este número da revista, destacamos o artigo de Eliezer Cardoso de Oliveira, “Quando as tragédias explicam: a importância heurística das catástrofes para o conhecimento histórico”, em que são analisadas situações de catástrofe e sua abordagem para a história da humanidade, como, por exemplo, o acidente de Chernobyl na abertura política soviética e a epidemia de febre amarela, ocorrida na cidade do Rio de Janeiro durante a proibição do tráfico negreiro no Brasil, entre outras.

Antes de seguir a caminho da leitura deste interessante número, gostaríamos de agradecer à colega historiadora Natália Martins de Oliveira Gonçalves, mestre pelo programa TPTI Erasmus Mundus (Université Paris 1 Panthéon Sorbonne / Università degli Studi di Padova / Universidade de Évora), que nos enviou a fotografia de sua autoria que ilustra a capa desta edição: imagem da obra “Shhh” ou “Chuuutt”, de Jef Aérosol, na Place Igor Stravinsky, em Paris. Queremos, por fim, ressaltar tanto a multiplicidade de abordagens como a presença de textos de pesquisadores e pesquisadoras brasileiros e venezuelanos, enquanto uma demonstração da integração dos países de nuestramérica (MARTÍ, 2005), para além dos limites geopolíticos e das fronteiras culturais. Uma boa e produtiva leitura.

Referências

CANDAU, Joël. Memória e identidade. Tradução de Maria Leticia Ferreira. São Paulo: Contexto, 2012.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante do tempo: história da arte e anacronismo das imagens. Tradução de Vera Casa Nova e Márcia Arbex. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2015.

HALBWACHS, Maurice. Les cadres sociaux de la mémoire. Mouton: Paris, 1976.

MARTÍ, José. Nuestra América. 2. ed. Caracas: Biblioteca Ayacucho, 2005.

NORA, Pierre. Les lieux de mémoire. Paris: Gallimard, 1984.

Jenny González Muñoz – Professora Doutora. (PNPD / Capes), Universidade de Passo Fundo, Brasil.

Darlan De Mamann Marchi – Professor Doutor. (Fapegs / Capes), Universidade Federal de Pelotas, Brasil.


MUÑOZ, Jenny González; MARCHI, Darlan De Mamann. Editorial. História – Debates e Tendências, Passo Fundo- RS, v. 19, n. 1, jan / abr, 2019. Acessar publicação original [DR]

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