Quem assistiu a Monty Python em busca do cálice sagrado (1975) talvez se lembre de que a certa altura do filme as hilárias desventuras do rei Arthur e seus Cavaleiros da Távola Redonda são interrompidas por uma claquete e o anúncio de uma voz em off: “História para a escola, tomada oito. Ação!”. Um homem já idoso, de terno, lenço, gravata borboleta e cabelos desgrenhados, põe-se a falar de imediato. Trata-se, diz a legenda, de “um famoso historiador”. Em pé diante de árvores e ruínas e olhando para a câmera, ele começa a explicar de modo didático como, após fracassar na tomada de um castelo controlado por franceses, Arthur mudara de estratégia para encontrar o Graal; inesperadamente, então, um cavaleiro medieval surge num rompante e o decapita com sua espada.

Se o insólito da situação provoca o riso no espectador, em nós, historiadores e historiadoras, ela não deixa de gerar também certo desconforto. Afinal, a ácida ironia dessa sequência de pouco mais de trinta segundos remete às convenções que caracterizam a nossa profissão, às representações sobre nossa figura e às relações entre presente e passado – sempre tensas, ainda que, para a nossa sorte, dificilmente um vulto de outros tempos esteja à nossa espreita em um arquivo ou em uma biblioteca. Em outras palavras, nós nos reconhecemos naquele desafortunado colega fictício, nós nos vemos, sem dificuldade, fazendo o mesmo que ele, quem sabe até com linguajar e trejeitos semelhantes. É como, enfim, se estivéssemos diante de um reflexo: um reflexo distorcido, é verdade, mas que ainda assim não deixa de refletir a nossa imagem.

Até que ponto, no entanto, os próprios historiadores e historiadoras se interessam por se olhar no espelho e, sobretudo, em compreender de modo crítico aquilo que veem? Ainda que soe petulante, o questionamento não é descabido: de acordo com Gérard Noiriel, o métier d’historien, tal como apresentado por Marc Bloch, tornou-se após a Segunda Guerra Mundial uma referência importante nos debates sobre a autonomia e a legitimidade da disciplina história; em contrapartida, o “reforço das competências profissionais do historiador” não nos incentivou a empreender “uma efetiva sociologia da corporação”. Não por acaso, diz Noiriel, “a definição da palavra ‘historiador’ permanece hoje, mais do que nunca, uma questão de disputas internas”.1

O dossiê que História da Historiografia ora publica busca chamar a atenção para a relevância de tal discussão, abrindo espaço para pesquisadores que a enfrentam sob diferentes recortes e perspectivas. Nada aleatória, a opção pelo tema também retoma e ecoa o clássico “A operação historiográfica”, de Michel de Certeau, cuja pergunta inicial – “o que fabrica o historiador quando ‘faz história’?” (CERTEAU 2006, p. 65) – serviu de mote para a chamada de artigos. Como dissemos então, pretendíamos receber textos que, ao tomar o sujeito historiador como tema central, discutissem como o lugar social, as práticas e regras do campo e a dimensão própria à escrita atuam sobre o trabalho de um historiador ou de uma historiadora particular e podem ser percebidos, apreendidos, compreendidos quando projetados sobre sua trajetória, sua produção, os debates em que se envolveu. Nesse sentido, a nossa questão operava um ligeiro, mas significativo, deslocamento em relação àquela de Certeau: quem é o historiador, quem é a historiadora quando “fazem história”?

Os leitores e leitoras poderão apreciar, nos artigos que se seguem, algumas das respostas formuladas. O dossiê se abre com a análise de Wilma Peres Costa sobre um texto inacabado de Alfredo Taunay, o “estudo histórico” intitulado “A cidade de Mato Grosso (Vila Bela), o rio Guaporé e sua mais ilustre vítima”, publicado na Revista do IHGB em 1891. Atenta aos propósitos e aos procedimentos historiográficos de Taunay, a autora demonstra como este escrito específico revela um intelectual premido pelo presente vivido, pela história e pela memória, a quem resta, numa bela metáfora, escavar ruínas pessoais e nacionais em busca da compreensão do tempo do Império recém-suplantado pela República. A escrita da história mostra-se, assim, também como escrita de si, e vice-versa.

Logo depois, dois artigos abordam nomes que representam muito das formas e lugares do fazer historiográfico no Brasil antes da criação e, depois, da plena consolidação dos cursos universitários de História. Adriana Mattos Clen Macedo e Ana Paula Sampaio Caldeira destacam a atuação do hoje esquecido Ramiz Galvão, primeiro à frente da Biblioteca Nacional, entre 1870 e 1882, e mais tarde no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, entre 1912 e 1938. Em diálogo direto com Certeau, as autoras exploram e enfatizam a dimensão do lugar social do historiador, mostrando a complexidade do trabalho desenvolvido por Ramiz Galvão em ambas as instituições e seu significado para a historiografia brasileira entre as décadas finais do século XIX e as primeiras do XX. Renato Amado Peixoto, por sua vez, volta-se a Jaime Cortesão e sua participação no debate acerca da formação territorial do Brasil e da política externa do país nas décadas de 1940 e 1950. Neste caso, são o Ministério das Relações Exteriores e o Instituto Rio Branco que aparecem como os loci nada neutros ou desinteressados que abrigaram Cortesão e sua produção, uma vez que, como diz Peixoto, tanto o autor quanto o ponto de onde falava estavam inseridos num “metajogo” não apenas historiográfico, mas também político.

Com o texto de Fernando J. Remedi, historiadores e historiadoras ligados à Universidade entram em cena no dossiê. Remedi lança luz sobre o trabalho de Ceferino Garzón Maceda, que, a partir da Universidade Nacional de Córdoba, foi um dos artífices da “primavera renovadora” vivida pela historiografia argentina entre 1955 e 1966. Ao fazê-lo, expõe, por um lado, como as inovações promovidas por Garzón Maceda em direção a uma “história-problema” de corte econômico e social não abandonaram de todo a tradição disciplinar local de caráter documentalista, antes se mesclaram a ela; por outro, mostra como esse historiador foi uma voz solitária no contexto cordobês, o que fez dele a própria personificação das transformações historiográficas ali ocorridas.

Na sequência, três artigos enfocam três grandes historiadoras acadêmicas brasileiras, pertencentes, de certo modo, à geração de pioneiras em uma área dominada pelos homens (algo, aliás, ainda pouco tratado pela história da historiografia). Otávio Erbereli Júnior trata de Alice Piffer Canabrava, analisando especificamente o episódio do concurso para a cátedra de História da Civilização Americana da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, em 1946, no qual ela foi claramente preterida em favor de outro candidato – e o gênero, aqui, não é algo secundário, como mostra o autor. Já Carmen Silvia da Fonseca Kummer Liblik dedica-se a um balanço analítico da carreira de Maria Yedda Linhares, no qual atenta para aspectos pessoais e profissionais destacados pela própria Maria Yedda em entrevistas, mas sem deixar de propor, também pela perspectiva do gênero, uma reflexão sobre o que é silenciado ou mitigado por tais relatos de si. Por fim, Daiane Vaiz Machado apresenta como determinadas escolhas, posições e práticas fizeram com que Cecília Westphalen construísse e afirmasse seu “modo de ser historiadora” no decorrer da segunda metade do século XX; longe de traçar um percurso linear, o que a autora procura ressaltar é a dinâmica de tal construção, com as inevitáveis tensões e conflitos que a envolveram.

Fechando o dossiê, Nicolás Lavagnino e João Rodolfo Munhoz Ohara tomam discussões historiográficas atuais e inovadoras como ponto de apoio para os exercícios analíticos que desenvolvem em seus respectivos textos. Lavagnino examina o livro Coacción y Mercado, de Enrique Tandeter – “um clássico da historiografia acadêmica argentina contemporânea” –, à luz da teoria narrativista proposta por Hayden White; com isso, coloca em questão a potencialidade e os limites desta teoria para a compreensão da operação historiográfica e aponta como a sua radicalização pode revelar com maior precisão a presença da imaginação histórica e historiográfica no trabalho que realizamos com o passado. Já Munhoz Ohara parte dos conceitos de “virtude epistêmica” e “persona acadêmica” para perceber o sentido que historiadores e historiadoras brasileiros atribuíram à ideia de sensibilidade histórica nas décadas de 1980 e 1990. Por meio do exame de duas resenhas e um ensaio bibliográfico produzidos à época, o autor apresenta por um ângulo bastante original os valores que se atribuíam ao “ser historiador” naquele momento – que, de certa forma, é ainda o nosso.

Tomados em conjunto, estes artigos demonstram que, apesar dos riscos inerentes a tal movimento, voltar-se ao sujeito historiador não significa ceder à tentação da “ilusão biográfica” (BOURDIEU, 2006), muito menos atribuirlhe a característica do gênio individual e solitário, único responsável por sua vida e, principalmente, obra. Mais importante ainda, ao explorarem o que historiadores e historiadoras muito diferentes entre si produziram entre o século XIX e o XX, o que falaram de si próprios, o que se falou sobre eles e elas, os registros das instituições onde atuaram e pelas quais transitaram, os traços das redes de sociabilidade que teceram ou das quais se afastaram, os autores e autoras aqui presentes delineiam uma verdadeira agenda de pesquisa. Levada adiante, ela decerto possibilitará o desenvolvimento tanto daquela sociologia da corporação reclamada por Noiriel quanto novas e fecundas possibilidades para a história da historiografia.

Para encerrar, cabe notar que o escopo deste dossiê se liga diretamente ao de outros dois já publicados pela revista: o anterior, “A história e seus públicos. A circulação do conhecimento histórico: espaços, leitores e linguagens” (n. 20, 2016), e o que teve como tema “Os cursos de história: lugares, práticas e produções” (n. 11, 2013). Se cada um deles tem, evidentemente, a sua especificidade, a articulação entre si forma um rico e instigante painel sobre a identidade historiadora, o qual nós, editores, esperamos que expresse como História da Historiografia vem cumprindo um dos papeis mais importantes de um periódico científico: estar em sintonia com as questões de seu tempo.

Nota

  1. “Après la Seconde Guerre Mondiale, la référence au ‘métier du historien’ sera fréquemment réactivée par ceux qui auront à coeur de défendre l’autonomie de leur discipline. Mais, paradoxalement, cette valorisation des compétences professionnelles de l’historien n’a pas incité ces derniers à entreprendre une véritable sociologie de leur corporation. La définition du mot ‘historien’ reste, aujourd’hui plus que jamais, un enjeu de luttes internes” (NOIREL 2010, p. 526).

Referências

BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: FERREIRA, Marieta de Moraes e AMADO, Janaína (Org.). Usos & abusos da história oral. 8. ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2006.

CERTEAU, Michel de. A operação historiográfica. In: ______. A escrita da história. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006 [1975], p. 65-119.

NOIRIEL, Gérard. Métier / communauté. In: DELACROIX, Christian; DOSSE, François; GARCIA, Patrick; OFFENSTADT, Nicolas (Dir.). Historiographies. Concepts et débats, I. Paris: Gallimard, 2010, p. 518-528.

Fábio Franzini – Professor adjunto Universidade Federal de São Paulo. E-mail: [email protected]


FRANZINI, Fábio. Apresentação. História da Historiografia, Ouro Preto, v.9, n.22, dez., 2016. Acessar publicação original [DR]

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