Em cada momento histórico, fatores específicos particulares foram / são propulsores dos movimentos migratórios, sejam eles internos ou internacionais, mas têm por finalidade última a busca dos migrantes por encontrar melhores condições de sobrevivência para si e os seus. Os impactos provocados pela migração manifestam-se tanto no local de partida quanto no local de chegada e somente são perceptíveis a posteriori. Para o sociólogo Abdelmalek Sayad, é a disponibilidade de trabalho que atrai os e / imigrantes, e é a ausência deste que os relega à condição de não ser e, logo, à condição de dispensáveis, responsabilizados pelos problemas sociais. Assim, o e / imigrante vive em uma constante situação de atração e expulsão.

O e / imigrante é o mesmo e o outro; só surge na sociedade que assim o denomina ao transpor suas fronteiras. A migração coloca em contato direto ou indireto grupos étnicos distintos, em uma relação de alteridade, bem como populações de um mesmo grupo étnico e nacionalidade, mas procedentes de regiões diversas, realocados em um novo espaço. Conforme Fredrik Barth, esse mosaico de origens implica na seleção e (re)atualização de elementos de diferenciação, delimitando e reforçando a fronteira étnica, quando em contato com o outro; todavia, essas fronteiras são diluídas e mutáveis. Para Jeffrey Lesser, a identidade do sujeito é situacional, visto que os grupos étnicos constroem uma identidade homogênea e coesa, que é externalizada, mas internamente elaboram múltiplas identidades, sejam sociais, religiosas, econômicas, políticas, culturais.

Imigração e relações interétnicas é uma temática que perpassa os estudos sobre os processos migratórios históricos e do tempo presente. As fronteiras dos Estados-nação ora se abrem para a recepção de novos imigrantes, ora limitam a sua entrada, definindo categorias de imigrantes desejáveis e indesejáveis. Paralelamente à adoção de leis regulatórias e restritivas à imigração, há a identificação e deportação de imigrantes ilegais e a negativa de asilo a refugiados.

Partindo desses pressupostos, a Revista História – Debates e Tendências, do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo, juntamente com o Núcleo de Estudos de História da Imigração, apresenta o Dossiê Imigração e relações interétnicas, que reúne artigos de pesquisadores de diferentes instituições de ensino superior. Os trabalhos propõem uma leitura ampliada e complexa dos movimentos migratórios e das questões étnicas implicadas, reforçando a ideia de que esses sujeitos circulavam em um espaço amplo, e estavam em contato com o outro, contestando a tese do isolamento dos imigrantes e sua posição apolítica. Estabelecem o diálogo com a produção historiográfica consagrada e avançam, ao propor novas problemáticas, leituras e interpretações sobre a imigração. A proposta do Dossiê não delimitou o estudo a um grupo étnico, mas, por aproximação dos temas de pesquisa dos autores, a quase totalidade dos artigos traz como recorte temático a imigração alemã e somente um artigo, a imigração italiana, no Brasil nos séculos XIX e XX.

Os três primeiros artigos do dossiê tratam da imigração alemã e das relações interétnicas na colônia de São Leopoldo, no século XIX. Marcos Antonio Witt investiga a posse de cativos por parte dos imigrantes alemães exponenciais na colônia e as relações interétnicas, valendo-se de fontes como processos-crime, inventários, escrituras de compra e venda, registros paroquiais, dentre outras. Conclui que os imigrantes alemães, por questão de status e necessidade econômica, buscavam a posse de escravos, o que legalmente lhes era vedado, como uma forma de inserção e equiparação à sociedade brasileira. Caroline von Mühlen analisa o Primeiro Livro de Juiz de Paz da Colônia Alemã de São Leopoldo, o qual abrange os anos de 1832 até 1845, e busca identificar nesse registro os motivos que levaram seus moradores a procurar a instância judicial para resolver problemas de seu cotidiano ou questões de terras, bem como a importância e o papel desempenhado pelo juiz de paz na colônia. Já Daniel Luciano Gevehr discute as representações e memórias construídas sobre o movimento religioso dos Mucker, a partir dos relatos produzidos no final do século XIX e da historiografia posterior, mostrando como esses escritos contribuíram para dar visibilidade e heroicizar a figura do coronel Genuíno Sampaio e desqualificar Jacobina Mentz Maurer, líder religiosa de uma minoria de imigrantes / descendentes alemães, grupo este derrotado pelo exército brasileiro e invisibilizado pela historiografia da imigração.

O artigo de Maíra Ines Vendrame, com base nos processos-crime, estuda como os imigrantes italianos e seus descendentes são processados e tratados pela justiça brasileira, quando em conflito com elementos nacionais, na colônia de Silveira Martins, na virada do século XIX para o século XX. Evidencia os discursos e a cumplicidade de grupo étnico; suas ações violentas e destaca a casa comercial (venda) da colônia como o espaço privilegiado de contato, conflito e demarcação de fronteiras étnicas.

Perceber as múltiplas identidades presentes no interior de um mesmo grupo étnico e o processo de aculturação é o fio condutor dos próximos três artigos. Roland Spliesgart pesquisa os protestantes de origem alemã e o processo de abrasileirização em Minas Gerais e no Rio de Janeiro no século XIX. Desconstrói a ideia do isolamento religioso e a preservação da germanidade, defendendo a existência de um protestantismo recriado nos espaços de imigração, com suas práticas já aculturadas. Rosane Marcia Neumann procura indícios que sinalizam para a construção da diferença entre imigrantes e teuto-brasileiros no interior do grupo étnico denominado “alemães”, acionada nas relações cotidianas do espaço colonial, e a externalização de uma identidade étnica homogênea quando em contato com o outro. Investiga essa problemática na região do Planalto Rio-grandense, na Primeira República. Na mesma linha, Marcos Nestor Stein estuda as relações estabelecidas entre os imigrantes alemães e os denominados “nacionais”, apontando para a configuração de um mosaico étnico, onde há o contato com o outro, mas não a integração, prevalecendo a diferença. Como fonte principal, utiliza o relatório elaborado por Albert Elfes, engenheiro agrônomo alemão, sobre a situação de 17 colônias agrícolas fundadas entre 1877 e 1966 no Paraná, formadas por imigrantes alemães e descendentes.

Analisar a imigração sob o viés da história ambiental é o propósito do artigo de Marcos Gerhardt. O autor acompanha a trajetória de uma família de imigrantes alemães no Rio Grande do Sul nos séculos XIX e XX, bem como suas sucessivas migrações internas, destacando as questões ambientais implicadas nesses deslocamentos, na tentativa de permanecerem agricultores. Além disso, analisa a interação com outros grupos sociais e étnicos e a formação de uma ampla rede de parentesco.

Investigar as relações de gênero no mundo colonial é uma temática recente na historiografia da imigração. Samuel Klauck procura identificar o papel desempenhado pela revista St. Paulus-Blatt junto aos migrantes católicos alemães do Rio Grande do Sul, no período de 1912 a 1934, e sua influência na orientação e inserção da mulher na sociedade colonial, entendendo seu conteúdo como um discurso vinculado ao catolicismo da imigração, representado pelos jesuítas e a Sociedade União Popular, responsáveis pela publicação do periódico. Marlise Regina Meyrer busca compreender o processo de distinção social produzida dentro do universo feminino teuto-sul-rio-grandense, recorrendo ao estudo da escola Evangelisches Stift (Fundação Evangélica) e de seu currículo escolar. Fundada no final do século XIX, em Novo Hamburgo / RS, a Evangelisches Stift destinava-se a atender e educar, em sistema de internato, as filhas da elite alemã e evangélica da região, diferenciando-as da mulher colona.

O artigo de Leonie Herberts debate a demarcação de fronteiras étnicas e a construção, reatualização e disputa em torno de uma suposta identidade étnica alemã no final do século XX, expondo a complexidade desses discursos, opondo o tradicional e o moderno, e como essas problemáticas estão presentes na Oktoberfest de Blumenau, Santa Catarina, criada, em 1984, como uma festa que mostraria a cultura alemã, mas com fins comerciais e turísticos. Como elementos centrais, identifica a invenção de tradições na formação dos grupos de danças folclóricas e o debate em torno da programação musical, bem como o redimensionamento do perfil interno da festa, para evitar a abrasileirização ou carnavalização da Oktoberfest. Assim, reabre o debate sobre o que é ser alemão.

Concluindo o dossiê, a discussão volta para o ponto inicial, ou seja, quais eram os projetos do Brasil e da Alemanha em relação aos e / imigrantes? Wilson Maske analisa as relações Brasil-Alemanha entre 1871 e 1918, sob a ótica do imperialismo alemão, e o papel atribuído aos e / imigrantes alemães nesse contexto, por ambos os países, verificando, com a pesquisa, se cumpriram com sua função socioeconômica e como se deu o processo de integração étnica.

A sessão de Artigos Livres traz três artigos. Vanda Fortuna Serafim trabalha as interfaces entre o discurso intelectual e católico na Bahia do século XIX na produção de um conhecimento sobre as religiosidades afro-brasileiras. Denize Terezinha Leal Freitas apresenta uma possibilidade de aplicar a micro-história na análise dos dados relativos à história das famílias e da população da Freguesia da Madre de Deus de Porto Alegre nos séculos XVIII e XIX. Por fim, Ricardo Schmachtenberg analisa o poder e a atuação da Câmara Municipal da Vila de Nossa Senhora do Rio Pardo e dos juízes almotacés nas primeiras décadas do século XIX.

Na sessão Resenha, Mário Maestri resenha a reedição da obra de Luiz Alberto Moniz Bandeira, fruto de sua tese de doutorado defendida no final da década de 1970, que discute o expansionismo do Brasil na Bacia do Rio da Prata e a formação dos estados nacionais, problematizando, de forma inovadora, as questões presentes na Guerra do Paraguai.

Rosane Marcia Neumann – Organizadora


NEUMANN, Rosane Marcia. Editorial. História – Debates e Tendências, Passo Fundo- RS, v. 14, n. 1, jan / jun, 2014. Acessar publicação original [DR]

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