Imigração Italiana / Locus – Revista de História / 2008

De 26 a 28 de outubro de 2007, o Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora, em parceria com a Oscip PERMEAR (Programa de Estudos e Revitalização da Memória Arquitetônica e Artística) e com a Associação Ponte Entre Culturas – MG, realizou o III Seminário Sobre Imigração Italiana em Minas Gerais, dando continuidade ao projeto iniciado por esta última entidade, de realização anual de um encontro que levantasse e discutisse os aspectos e as questões concernentes à citada imigração naquele estado brasileiro.

Este Seminário especificamente, sob a minha coordenação acadêmica secundada pela professora Valéria Ferenzini Leão, tentava dar um novo rumo ao evento, estruturando-o em eixos temáticos (patrimônio e identidade cultural; organização e análise de acervos e fontes; dimensão política e econômica da imigração italiana; relações bilaterais entre Brasil e Itália hoje), bem como articulando as experiências locais de imigração com recortes mais abrangentes (regionais e nacionais) e com as discussões teóricas mais atuais, procurando integrar o universo institucional (acadêmico e cultural) com aquele vivenciado por gerações de descendentes destes mesmos imigrantes.

Para a viabilização e o sucesso do evento, foi fundamental o apoio da FAPEMIG, do Consulado da Itália em Belo Horizonte e da sua Agência Consular em Juiz de Fora, bem como de outras instituições representativas dos imigrantes e de seus descendentes [1], da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (FUNALFA) de Juiz de Fora e do Museu de Arte Moderna Murilo Mendes da UFJF.

A presente publicação apresenta algumas das intervenções realizadas neste Seminário, acrescidas por outros textos que contribuem, significativamente, para os estudos da imigração italiana na América Latina e, mais especificamente, no nosso país.

Divide-se em três partes. Abre a primeira, na qual são abordados diversos temas referentes à imigração italiana, representando os quatro eixos temáticos citados acima, o texto referente à própria conferência inaugural do evento, proferida pelo historiador genovês Federico Croci. Nele, intitulado de “O Chamado das Cartas”, somos apresentados à correspondência trocada entre os imigrantes e seus familiares (mais especificamente as ”cartas de chamada” e ás diversas questões e temas (como das características e dos intercâmbios lingüísticos e culturais e sua dimensão social) dos quais estas cartas se constituem em fundamentais testemunhas e, mesmo, sujeitos históricos.

A seguir, o professor Luigi Biondi realiza um estudo comparativo entre as características políticas da imigração italiana em Minas Gerais e em São Paulo, enfatizando não só as características que as assemelham e as diferenciam mas, também, o papel destes militantes na própria construção de uma identidade de classe, nos primórdios da República em nosso país, bem como daquilo que denomina de “identidade transnacional”.

Os sociólogos italianos Paola Cappellin e Gian Mario Giuliani questionam a própria influência assumida pelas origens italianas de parte do empresariado brasileiro (da sua “italianidade”) nas suas condutas sócio- culturais e econômicas. E fechando esta sessão, Júlia Wagner Pereira e José Mauro Matheus Loureiro demonstram como que, historicamente, foi se ampliando o universo de abrangência das ações do órgão responsável pela salvaguarda daquele patrimônio cultural identificado como de importância nacional (o IPHAN), permitindo que fossem contemplados, bem recentemente, os patrimônios culturais dos imigrantes e, mais especificamente, daqueles provenientes da “península itálica”.

A segunda parte destaca um tema presente em boa parte dos estudos do fenômeno do deslocamento massivo dos italianos para o Brasil e, principalmente, da sua acomodação em nosso solo e das relações mantidas com o seu país de origem: o do fascismo e da sua repercussão fora da Itália. Esta parte se inicia com o artigo, gentilmente cedido para esta revista, do historiador italiano Angelo Trento, um dos principais estudiosos deste fenômeno, e aborda a visão expressa nos relatos dos viajantes italianos à América Latina durante o período fascista, visão esta estruturada pela ideologia do citado regime. Para ilustrar e aprofundar a demarcação desta presença política e ideológica entre os imigrantes, segue-se um estudo de caso, apresentado no III Seminário, sobre a Casa d’Itália de Juiz de Fora, distribuído nos textos da historiadora Valéria Ferenzini Leão e do arquiteto e historiador Marcos Olender. Enquanto Valéria preocupa-se mais em descrever a dimensão político-social assumida pela identificação, desde a sua construção, na cidade de Juiz de Fora, Marcos Olender aprofunda o estudo da expressão arquitetônica desta presença, relacionando-a com a sua matriz estética-ideológica. Conclui a seção o artigo de Rosane Siqueira Teixeira, mapeando esta presença fascista e as suas imbricações no município de Araraquara.

Complementando o dossiê, abre-se o espaço para estudos sobre outras imigrações, abordando desde “A presença britânica na Corte Imperial”, como explicita o próprio título do artigo da historiadora Sylvia Ewel Lenz até as identificações políticas assumidas pelos imigrantes judeus no Brasil, estudo desenvolvido por Sydenham Lourenço Neto.

Este número da Locus completa-se com a resenha de Luciana Verônica sobre o livro Revolução e Democracia (1964…), organizado por Daniel Aarão Reis e Jorge Ferreira.

Concluindo, gostaria de agradecer ao professor Luigi Biondi, que realizou o contato com o professor Angelo Trento e nos possibilitou contar com a sua significativa contribuição. Agradecimentos também muito especiais à historiadora Heliane Casarin, entusiasta da história da imigração italiana e que sempre mostrou-se disponível a nos auxiliar e que, junto com Valéria Ferenzini (a quem estendo, obviamente, a gratidão) foram responsáveis pela exposição que abriu o evento; à arquiteta Mônica Cristina H. Leite Olender, não só pelo auxílio na revisão de alguns textos, como pela sua participação efetiva na Coordenação Geral do III Seminário, principalmente durante a sua realização, permitindo o seu bom desenvolvimento e sucesso e, por motivos afins, ao professor Cássio Fernandes, que do alto da generosidade que o caracteriza, ajudou decisivamente na viabilização deste evento e, mesmo, da publicação que, agora, disponibilizamos a todos.

Boa leitura!

Nota

1. Como o COMITES (Comitato degli Italiani all ‘Estero), a ACIBRA-MG (Associação Cultural Ítalo-Brasileira de Minas Gerais), a AER / MG (Associazone dellÉmilia Romagna, a Associação Cultural Emilia Romagna da Zona da Mata, Minas Gerais e o jornal eletrônico oriundi.net.

Marcos Olender

Organizador do dossiê


OLENDER, Marcos. Apresentação. Locus – Revista de História. Juiz de Fora, v.14, n.2, 2008. Acessar publicação original [DR]

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