Imigrante ou estrangeiro? Aparentando uma sinonímia tão naturalizada, esses conceitos envolvem representações distanciadas, impregnadas de capitais simbólicos que implicam relações diferenciadas entre o eu e o outro. Nesse sentido, caberia perguntar: em que circunstâncias o imigrante torna-se estrangeiro? Ou melhor, que injunções colocam-se como condutoras da opção por uma ou outra palavra? Por que o indivíduo que se vê como imigrante tende a ser visto como estrangeiro no olhar do “outro”? Como é enxergado aquele que parte? Estaríamos nós, estudiosos dos fenômenos e-imigratórios, atentos a estas questões?

Há cerca de vinte anos, falando em nome dos historiadores, ainda que focado na história das relações internacionais, Duroselle manifestava o desejo de que fossem empreendidos “estudos históricos com uma grande amplitude sobre o conceito, sobre as palavras que representaram ou representam, sobre os comportamentos infinitamente variáveis que suscitam a existência do ‘estrangeiro”.1

Para o autor, amigo ou inimigo, o estrangeiro é, inevitavelmente, “um homem diferente”, “com comportamento estranho, até imprevisível”. Dessa forma, cabe a ele introduzir “o aleatório”, visto representar a diferença, embora “não toda a diferença e nem sempre as mesmas diferenças”.2 Como desdobramento

… todos os casos de relações internacionais compreendem um elemento interno, em que os meios são conhecidos, e um elemento aleatório, que é a reação ao estrangeiro. Nenhuma teoria das relações internacionais é possível se não se determinam as combinações, infinitamente variadas, entre a hierarquia e o aleatório.3

A partir das últimas décadas do milênio, os estudos sobre os movimentos migratórios impuseram-se, de forma cada vez mais visível, no campo da História. Hoje, vários congressos da área vem abordando a temática, incluindo em sua programação simpósios que a contemplam sob ângulos e abordagens variadas: fluxos, legislação, trabalho, cotidiano, gênero, processos de assimilação ou estranhamento e tantas outras possibilidades.

Complexo e interdisciplinar por excelência, o tema das migrações, efetivamente, para muito além do campo da demografia, impôs-se no mundo acadêmico, refletindo um tempo no qual os deslocamentos humanos, por causas variadas, tornam presente a preocupação dos diferentes governos com o “outro” fixado em suas fronteiras, transformado, muitas vezes, em “bode expiatório” das crises enfrentadas.

Os estudos sobre a dialética travada entre emigração e imigração, cada vez mais, vem sendo assumidos por redes internacionais de pesquisadores, cuja contribuição tem sido reescrever o passado, desmistificando – ou pelo menos relativizando – algumas verdades consagradas. Tanto nos países de partida quanto nos de chegada, as pressões existentes clamam por olhares que se voltem para o passado, na busca da compreensão de um fenômeno que, decididamente, vem marcando a contemporaneidade, desde que os processos de mundialização tornaram o mundo menor,4 eliminando “universos encravados”.5

Em seu sexto número, a Maracanan propõe, como dossiê, o tema da imigração, contemplando a dialética inevitável entre o emigrar e o imigrar, com a publicação de artigos que, certamente, tornar-se-ão importantes referenciais para todos aqueles que se debrucem sobre a temática, escritos por pesquisadores de reconhecimento internacional.

Nas páginas da Maracanan o leitor travará contato não só com imigrantes galegos, italianos, japoneses e judeus, mas também com abordagens que priorizam análises historiográficas; políticas e-imigratórias; relações entre história e memória; recortes de gênero; movimento operário e anarquismo; imigração e modernização, em artigos nos quais a dialética entre o particular e o coletivo encontra-se sempre presente. Em última instância, as reflexões apresentadas ao leitor abrem perspectivas, consolidam informações e, acima de tudo, reconduzem olhares sobre o passado – próximo ou distante – e sobre o presente.

Xosé Manuel Seixas, referência obrigatória para os estudiosos da emigração galega, brinda-nos com seu conhecimento e erudição fazendo-nos melhor conhecer o estado da arte dos estudos emigratórios na Espanha. Os espanhóis também são o destaque do artigo de Marília Cánovas, que analisa sua presença na Santos da Belle Epoque.

Ruy Farias e Érica Sarmieto focam suas análises, especificamente, na imigração galega. O primeiro, apresenta-nos um olhar sobre galegas na cidade de Buenos Aires do segundo pós-guerra; a segunda, destaca, no drama urbano, o movimento anarquista, colocando foco sobre os mais radicais, em especial os padeiros.

No tocante aos estudos sobre a presença italiana no ultramar, o primeiro destaque deve ser dado ao instigante artigo de Vittorio Capelli. Focando sua análise na imigração italiana dirigida para a Amazônia e para o nordeste brasileiro, esse renomado historiador alarga nossa visão a respeito da presença estrangeira em terras brasileiras. Outro artigo sobre italianos no Brasil é o de Syrléa Marques Pereira, que interrelaciona história e memória no sentido de destacar a presença feminina no contexto imigratório.

Outros trabalhos privilegiam japoneses e judeus como atores do urbano, descatando sua atuação no mercado de trabalho. No tocante aos japoneses, Mariléia Inoue analisa o caso da imigração seletiva que acompanhou a criação da Ishikawajima do Brasil. No caso dos judeus, a análise cabe a Andréa Telo da Corte, que ilumina a atuação dos prestamistas naquela que era, então, a capital fluminense: Niterói.

Os lugares de memória no tocante à imigração são analisados por Eloisa Capovilla Ramos, que tece comparações entre as hospedarias de imigrantes de São Paulo e Buenos Aires, propondo novas reflexões sobre a imigração na América latina.

A qualidade das reflexões que compõem este número da Maracanan deve-se ao trabalho competente e comprometido da professora Érica Sarmiento, responsável pelo número, que liderou todo o trabalho de convite e contato com os pesquisadores.

Notas

  1. Jean-Baptiste Duroselle. Todo Império perecerá. Teoria das Relações Internacionais. [Trad]. Brasília: Ed. UNC / Imprensa Oficial, 2000, p. 49.
  2. Id. Ibidem, p. 50.
  3. Id. Ibidem, p. 59.
  4. A idéia de “mundo menor” foi defendida por Barraclough.ao analisar o impacto do progresso científico e tecnológico da chamada Segunda Revolução Industrial. Cf. Geoffrey Barraclough. Introdução à história contemporânea. [Trad.]. 4ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1976
  5. A expressão pertence a Pierre Chaunu. Cf. Conquista e exploração de novos mundos, século XVI. [Trad]. São Paulo: Pioneira / EDUSP, 1984.

Lená Medeiros de Menezes – Coordenadora do Laboratório de Estudos da Imigração e Estrangeiros (LABIMI)


MENEZES, Lená Medeiros de. Apresentação. Revista Maracanan, Rio de Janeiro, v.6, n.6, 2010. Acessar publicação original [DR]

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