Reformas educacionais, relatórios, anuários, atas, livros de matrícula, livros de pontos, atas de fundação, revistas pedagógicas, jornais, boletins, cadernetas, livros didáticos, impressos de planejamento, cadernos escolares, atas de reuniões pedagógicas, eventos comemorativos, imagens, mobiliário, arquitetura… Ufa?! Quantas fontes são cartografadas para se inquirir a(s) história(s) de uma instituição, colocada como sinônimo e essência de educação, como é a escola.

Peter Gay [1] aponta que a educação foi sequestrada pela escola, dela se apossou e sobre ela se estabeleceu regimentos, currículos, formações, comportamentos, sensibilidades… A escola é produto da História, sofre mutações e se adéqua as necessidades que surgem no percurso de constituição e ressignificação de uma sociedade. Ela é ciência, é conteúdo e disciplina. Mas, também é vida que pulsa, que educa, que orienta sobre as diversas lentes que lêem o mundo, nós mesmos e o outro. Instituição presente nos longos anos da vida de um sujeito, em seus mais diversos níveis educacionais, a escola produz memórias, pensa a urbe tanto quanto é pensada por uma pedagogia da cidade. Ela tem um lugar de fala, de conformação, de instituição e normatização de saberes, mas também se conduz pela criatividade, pela reinvenção, pelas trocas e experiências sensíveis que formam tanto quanto transformam os indivíduos.

Posta pelo avesso pelos diversos domínios da História, a escola vem sendo pesquisada, mais enfaticamente, pela História da Educação, dentro do que se concebeu como História das Instituições Escolares. Mas tão complexo e híbrido é este espaço, que outros olhares e apropriações ainda são possíveis, como da História da Saúde, da Geografia e Psicologia Escolar, da Sociologia, Antropologia e Filosofia da Educação, entre outras áreas de pesquisa. Dentro da história das instituições escolares, estudiosos como Demerval Saviani e Justino Magalhães se dedicaram a pensar a escola por meio do que ela institui. Saviani (2007, p.5) concebe as instituições escolares como “[…] necessariamente sociais, tanto na origem, já que determinadas pelas necessidades postas pelas relações entre os homens como no seu próprio funcionamento, uma vez que se constituem como um conjunto de agentes que travam relações entre si e com a sociedade à qual servem”. Já Justino Magalhães (2004), por sua vez toma a definição de uma “Instituição educativa” de forma mais ampla, para além das fronteiras impostas pelos muros escolares.

Tais instituições são “um complexo organizado, uma totalidade em organização e devir; matriz conceitual e interdisciplinar que institui um modelo científico, orgânico-funcional” (MAGALHÃES, 2004, p.113). Segundo o autor uma epistemologia da instituição educativa compreende desde a materialidade (o instituído) – como condições materiais, espaços, meios didáticos e pedagógicos; à representação (o institucionalizado) – aspectos referentes a memórias e arquivos, estatutos e currículo. A apropriação (a instituição em si) compreenderia as aprendizagens, os ideários, as identidades do sujeito e da própria instituição. Nesta perspectiva, abre-se a possibilidade de pensar em uma cultura educacional mais ampla, para além dos muros da escola, que contemple as práticas educativas (re)configuradas nos mais diversos discursos, tanto de cunho econômico e político como higiênico, médico e também educacional, dando vazão a formulação de um modus vivendi que nossa sociedade exibe como normal, saudável e científico.

A instituição escolar e / ou educativa possui, assim, uma cultura própria. Faria Filho (2007, p.195), toma a cultura escolar [2] como um tipo específico de “[…] formação / organização cultural quando configurada pela escolarização. Ela permite articular, descrever, analisar, de forma complexa, os elementos-chaves que compõem o fenômeno educativo escolar”. As culturas escolares se situam nesse entrosamento entre os “macroprocessos” de escolarização e os “microprocessos” escolares, ou seja, na constituição das relações entre a escola, suas práticas e os sujeitos. Nesta mesma direção, porem agora pensando fora do âmbito do cotidiano escolar, Pinheiro (2009, p.108) amplia esta concepção, apontando a ideia de uma “cultura educacional” como aquela que é constituída pelos saberes que perpassam a produção de “[…] artistas, intelectuais e pessoas simples, do povo, que contribuem para a produção de leituras e de interpretações sobre o passado e o presente educacional”.

Vimos, neste contexto, que diversas são as formas de pensar e registrar a história (ou os fragmentos dela) de uma instituição educativa e de suas práticas. O historiador, em suas escolhas teórico-metodológicas, pode produzir uma narrativa que adentre a história da instituição, mas seus pares podem ainda optar, em produzir uma escrita histórica da instituição pelas suas vizinhanças, pelos os aspectos que acometem os atores sociais que passaram por ela. O prédio e seus espaços (arquitetura, releitura de espaços físicos, o uso do espaço para disciplina, apropriação dos espaços), a identidade institucional, sua cultura (material) escolar, a inserção e atuação da instituição no ambiente social são outras temáticas possíveis de se relacionar quando se intenta em pesquisar uma instituição educativa. Desde o contexto histórico às circunstâncias específicas de criação e instalação da escola, desde às reformas educacionais aos novos ambientes de educação que surgem no ciberespaço; desde os métodos à experiência das práticas educativas; desde as festas escolares às normas disciplinares que punem com castigos os corpos transgressores.

Discursos, experiências, regulações… Uma educação do corpo, mas também das sensibilidades perpassa a instituição escolar e / ou educativa. É para pensar este lugar que esse dossiê coloca o propósito de reunir trabalhos – frutos de pesquisas concluídas e / ou em andamento – com vistas a constituir um leque de possibilidades de leitura sobre as práticas educativas que perpassam essas instituições, sejam elas escolares ou organizacionais, dispersas, difusas, híbridas, ou em suas mais diversas nuances.

Neste contexto, o dossiê abre suas discussões com O COLÉGIO NOSSA SENHORA SANT’ANNA E AS PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO FEMININA, EM ARACAJU-SE, artigo de Anamaria Gonçalves Bueno de Freitas que traz o objetivo de analisar as práticas escolares desenvolvidas pelo Colégio Nossa Senhora Sant’anna no processo de formação das jovens da elite sergipana. A autora contextualiza o cenário de escolarização da mulher, vinculando-a à modernização da sociedade, à higienização da família e à formação de futuros cidadãos nos primeiros anos da república brasileira.

Já no debate trazido pelo artigo DE PÉ NO CHÃO TAMBÉM SE APRENDE A LER: DAS SALAS DE ESTAR DAS PROFESSORAS LEIGAS, AOS ACAMPAMENTOS ESCOLARES DE PALHA DE COQUEIRO (1961-1964), de Aliny Dayany Pereira de Medeiros Pranto, temos a discussão sobre o desenvolvimento da campanha “De pé no chão também se aprende a ler” na cidade de Natal | RN, durante a década de 1960. Por meio das narrativas de professoras e ex-alunas, a autora expõe desde a fase inicial da Campanha à sua expansão com os acampamentos escolares. Tal campanha, segundo a autora, visava a educação de crianças, jovens e adultos que habitavam as periferias de Natal e não tinham acesso à educação formal.

No texto de Adlene Silva Arantes, temos a discussão sobre o HIGIENISMO E EDUCAÇÃO EM GRUPOS ESCOLARES PERNAMBUCANOS, durante os anos de 1911 a 1930. A autora traz o intento de compreender quais as orientações dos médicos para a promoção de uma educação higiênica nos grupos escolares de Pernambuco. Para tanto, ela analisa documentos da instrução, relatórios de grupos escolares, legislação educacional e teses de medicina sobre higiene dentro do período estudado, e conclui que para higienizar a escola e, consequentemente, a sociedade era preciso que a educação e a medicina atuassem juntas no sentido de salvar a nação e a pátria brasileira que se queria como sadia e regenerada.

Seguindo esta mesma vertente higiênica está o artigo MORAL, HIGIENE E PROPAGANDA ESPORTIVA: OS FILMES FIXOS RELACIONADOS AO CORPO E À ATIVIDADE FÍSICA NOS ARQUIVOS DO CEDRHE (SÉCULO XX) do autor Jacques Gleyse. O texto foi traduzido por Avelino A. de Lima Neto e apresenta um estudo acerca de práticas corporais presentes em cento e um filmes produzidos entre os anos de 1932 e 1960. As películas fílmicas aqui analisadas pertencem ao arquivo do Centro de Estudos, de Documentação e de Pesquisa em História da Educação (CEDRHE), da Faculdade de Educação da Universidade de Montpellier, e costumam ser utilizadas como recursos didáticos nos mais diversos níveis de ensino, em colônias de férias e em outros espaços formativos. Esse conjunto de filme, segundo o autor, aponta para uma correspondência com as recomendações dos livros didáticos no que concerne às práticas de higiene e instruções morais e, bem como revela uma quase total invisibilidade das mulheres nas atividades físicas, sendo suas imagens fortemente associadas aos estereótipos de gênero.

No artigo O GRÃOZINHO: DE UNIDADE FEDERAL DE EDUCAÇÃO INFANTIL À LABORATÓRIO DE ENSINO DO CURSO DE PEDAGOGIA (1980-2013), as autoras Vivian Galdino de Andrade e Janiely da Costa Cunha produzem uma versão da história de uma instituição escolar infantil existente no Centro de Ciências Humanas, Sociais e Agrárias (CCHSA) da Universidade Federal da Paraíba, que nos anos de 1980 foi criada para atender os filhos dos funcionários públicos da instituição. Em 2013, tal espaço educativo deixa de funcionar como escola, sendo reformulado pedagogicamente para se constituir como Brinquedoteca e Laboratório de Ensino do Curso de Pedagogia do Campus III. O artigo contribui com o amplo debate em torno das pesquisas realizadas a respeito da história das instituições escolares no estado da Paraíba.

O texto de autoria de Joedna Reis de Meneses e Júlio César Miguel de Aquino Cabral traz um rico debate sobre as PEDAGOGIAS DO TEMPO: O JORNAL A IMPRENSA SOB A DIREÇÃO DO PADRE LUÍS GONZAGA DE OLIVEIRA (PARAÍBA, 1952-1965). Pensadas como “saberes historiográficos”, essas pedagogias são apresentadas pelos autores como imagens de um passado gestado a partir dos discursos de padre Luís Gonzaga de Oliveira, nas páginas do Jornal A Imprensa, entre os anos de 1952 e 1965.

Finalizamos este dossiê com o artigo O TUCA COMO INSTITUIÇÃO DE RESISTÊNCIA: EXPERIÊNCIA TEATRAL E MILITÂNCIA ESTUDANTIL NA PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO – PUC SP (1964-1979), de autoria de Francisco de Assis de Sousa Nascimento. O texto problematiza o Teatro TUCA (casa de espetáculo da Pontifícia Universidade de São Paulo – PUC∕ SP) como um lugar de memória, de profissionalização e de compromisso com a luta democrática entre os anos de 1964 e 1979. Este espaço de resistência, segundo o autor, preserva os estigmas de incêndios criminosos, além de um moderno arquivo, repositório de vasta documentação, que evoca sensivelmente a vida de artistas que lá se apresentavam, como diretores, encenadores, cenotécnicos e o público em geral.

Fechando o dossiê, apresentamos o texto dos professores Azemar dos Santos Soares Júnior e Laelson Vicente Francisco intitulado “TRATANTO EFFICAZMENTE DE SUA EDUCAÇÃO’: A COMPANHIA DE APRENDIZES MARINHEIROS DO RIO GRANDE DO NORTE (1872-1890), tem por objetivo analisar a formação e os primeiros anos de atuação da Companhia de Aprendizes Marinheiros que funcionou na Província do Rio Grande do Norte, com sede na cidade do Natal, na segunda metade do século XIX.

Acreditamos que estes artigos aqui trazidos, convidam o leitor a se aprofundar em figuras históricas e conceituais, que esboçam desde a história de instituições educativas, recortadas num dado tempo e espaço, como os colégios, teatros e grupos escolares, às práticas educativas vivenciadas e reguladas no interior dos discursos existentes em periódicos jornalísticos, filmes e narrativas orais. Eis o nosso convite e o desejo a uma boa e significativa leitura!

Notas

1 https: / / educacaointegral.org.br / reportagens / uma-breve-historia-da-educacao-da-escola /

2 Segundo Faria Filho (2007), quando mencionamos “cultura escolar” estamos nos referindo a um constructo teórico que permite, metodologicamente, organizar a pesquisa. Já quando citamos “culturas escolares” estamos fazendo referência a um objeto ou campo de estudo, são elas o processo e o resultado das experiências dos sujeitos, dos sentidos construídos, compartilhados e disputados pelos atores que fazem parte da escola.

Azemar dos Santos Soares Júnior – Professor Doutor. Universidade Federal do Rio Grande do Norte (PPGEd / UFRN) Universidade Federal de Campina Grande (PPGH / UFCG)

Vivian Galdino de Andrade – Professora Doutora. Universidade Federal da Paraíba (UFPB\Campus III) Universidade Federal de Campina Grande (PPGH / UFCG)


SOARES JÚNIOR, Azemar dos Santos; ANDRADE, Vivian Galdino de. Apresentação. Mnemosine Revista, Campina Grande – PB, v.11, n.1, jan / jun, 2020. Acessar publicação original [DR]

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