Os estudos de memória estão em evidência nas últimas décadas; vários campos do conhecimento a tematizam, a tem como elemento que se correlaciona com a História, a Antropologia, a Neurologia, a Ciência Política, dentre outras. Nesse sentido, os tempos ganham múltiplos sentidos e estão implicados na sua relação com a memória; há memórias de tempos, bem como os tempos na / da memória. Tanto os tempos, quanto as memórias são múltiplas, variadas e com conotações amplas e diversas.

Sabemos que o tempo presente da memória depende, em muito, da História; é essa que tem a tarefa de apreender (e prender) o acontecido no presente e no passado e, também, garantir de uma forma ou de outra, através da escrita, dos registros, documentos, oralidades, objetualidades, ilustrações, homenagens, comemorações, festejos, rituais, saberes etc, o futuro desse passado.

Há interfaces entre tempos, memória e História. Se pensarmos nas comemorações nacionais, nos processos de seleção dos conteúdos lembráveis, nos rituais coletivos, midiáticos, políticos etc., veremos que a memória expressa interesses em jogo (políticos, ideológicos, culturais…) e que há um uso e seleção de memória coletiva, ou seja, não é incomum buscar significados diversos do passado para o uso no presente.

Há múltiplas formas de expressão pública de memórias coletivas; oficializa-se a memória; usa-se a memória (tanto nas dimensões de lembrança, quanto de esquecimento) como canal político; em razão de circunstâncias, articula-se um passado adequado. Por isso, a memória pode se tornar um elemento central para o campo político e pode estar no centro de um campo de interesses, estratégias e ações.

Na realidade, se formos analisar historicamente, a memória coletiva foi sempre central para o poder público em múltiplos espaços e tempos. Essa esfera busca codificar representações comuns do passado, suas condições de transmissão, seus processos de seleção. Porém, não é só a esfera pública a mediadora e / ou produtora disso. As igrejas, as famílias, os partidos, os sindicatos etc., também podem ser produtores de políticas de memória com os mesmos pressupostos da esfera pública, ou seja, deliberando realidades reguladoras e impositivas de lembrança comuns. É a dimensão política da memória que ordena a (re)produção das lembranças oficiais. Na verdade, o que está em jogo são as representações e reconstruções do passado em sua dimensão histórica; é a arte de governar a memória que deve ganhar conotação pública.

Tendo presente que há processos políticos que comandam as lembranças e os esquecimentos, a Revista História – Debates e Tendências, do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo, apresenta o dossiê “Políticas de memória e memórias políticas”. Colaboraram diversos pesquisadores de instituições universitárias que têm pesquisado processos políticos de memória e memórias coletivas que ganham, em determinado momento, dimensões políticas.

O texto de abertura do dossiê, da professor Mayara, discute sobre os debates na Assembléia Nacional Constituinte de 1946 em torno da Anistia aos comunistas. A autora revela interesses políticos em conflito, o que deveria ser lembrado e esquecido do período varguista; demonstra as negociações e a gestão de memória, os vínculos entre memória e esquecimento nas acomodações políticas, na relação passado e presente, envolvendo comunistas, anistia, redemocratização etc.

Analisando a sequencia temporal e, também, em torno do esquecimento deliberado politicamente, o texto da professora Lorena demonstra a desconsideração em torno do Partido Democrático Cristão (PDC), entre 1945 a 1964, na análise dos estudos sobre o sistema partidário brasileiro. A autora analisa o complexo jogo partidário do período, as múltiplas vinculações do PDC e de seus membros, as alterações e conchavos do período, as agremiações político-ideológicas, inclusive internacionais em que o mesmo se vinculou. Processos de esquecimento deliberado e de seleção de memória foram produzidos em razão dos múltiplos vínculos e representações que o referido partido produziu em sua história.

O texto da professora Federica discute sobre a memória de fascistas italianos que emigraram para a Argentina e ao Brasil em alguns anos após o término da Segunda Guerra Mundial. A autora discute sobre a ambiguidade da identidade dos mesmos, se foram vistos como perdedores ou imigrantes. O esforço da autora está em perceber como eles mesmos se reconhecem no passado vivendo na Argentina, o horizonte político no novo país, suas atuações, inserções em movimentos e associações para se sentirem ainda italianos e manterem vínculos com a pátria-mãe, ou, então, preferindo o esquecimento como forma de acobertamento de uma identidade vivida em tempos recentes. Cenário de anistia, de ser ex-fascista, de imigrante, de uma Argentina Peronista, de um Brasil que se redefinia politicamente após o primeiro governo de Vargas, em seu conjunto, produziram também identidades múltiplas nos mesmos. A autora demonstra que foram várias as formas de “trabalhar o passado” e defender, na medida das situações no novo país, a italianidade.

O artigo do Professor Eduardo também aborda formas de interpretação da Revolução de 30 por meio da literatura biográfica de autores com matizes teóricas variadas. O autor demonstra a complexidade e as armadilhas desse recurso na produção de “narrativas coerentes”, de seu forte apego subjetivista no que parece ser relevante registar. O texto enfatiza as condições de percepção e do pensar dos autores que produzem biografias, suas vinculações político-ideológicas, como fundamentais para o registro do que abordar e para dimensionar múltiplas visões do mesmo fato e do biografado. O texto, além de discutir processos políticos que são lembrados em torno da Revolução de 30, fornece elementos para discussão em torno da biografia como ferramenta para o conhecimento histórico, suas possibilidades e implicações.

A professora Maria Catarina analisa memórias relacionadas à ferrovia em Santa Maria – RS. Segundo a autora, a ferrovia foi um ponto de integração socioeconômica e cultural na cidade. As falas de entrevistados(as) revelam isso, ou seja, um conteúdo de memória coletiva do trabalho, de sociabilidade, de progresso, de mobilidade e identidade social. Os conteúdos de lembrança adentram muito mais para horizontes do vivido do que em torno da institucionalidade política da época. A autora demonstra que o campo político, em sua longa história no município, deu pouca relevância ao fato, mas na memória de ferroviários, a mesma “permanece repleta de sentidos e sentimentos […], mesmo que fisicamente o que se vê esteja em sucatas”.

O texto da professora Sandra dialetiza repressão e resistência na memória de mulheres que atuaram politicamente nos movimentos de mulheres, entre os anos de 1960 a 1980, nas cidades de São Paulo e São Luiz do Maranhão. As mulheres lutavam por igualdade de poder, por justiça social num cenário de repressão política e de grande descrédito da luta social feminina. A autora demonstra os processos que teceram as lembranças, em geral, marcadas por silêncios, esquecimentos, ressentimentos, emotividades, ressignificações de vividos e percebidos, contextos sociais reconstituídos, demonstrando a dinâmica da memória que se presentifica e reproduz sentimentos, percepções, re-avaliações e sentidos que o passado re-adquire.

O futebol também marca os horizontes culturais e políticos da memória. O texto do professor Gerson vincula os múltiplos horizontes que o futebol representa na compreensão da sociedade brasileira e da conformação da identidade nacional. O mesmo integra uma memória nacional, a qual, em geral, é politicamente produzida pelo campo acadêmico. O autor dá ênfase à memória do futebol como um processo de construção de memórias sociais e políticas (como instrumento de propaganda e de identidade nacional), de ritual de afirmação de regimes políticos, de condição de brasilidade, de “unidade nacional em torno de um caneco”, de ufanismo com o “pra frente Brasil”.

Por fim, para fechar o dossiê, o professor Tedesco discute sobre a memória política e fenomenológica, centrando na questão do ressentimento, da dialética entre lembrança e esquecimento principalmente na esfera subjetiva e política, do poder político. A ideia do texto é mostrar que há zonas sensíveis de produção social e política dos ressentimentos, as quais podem também serem indutoras de realidades de adesão coletiva.

Esta edição também é composta pelos seguintes artigos livres: Anarquistas en Montevideo: ideas y prácticas en torno al “tiempo libre” de los trabajadores (1920-1950), escrito pelo professor Rodolfo Parrini; A participação dos profissionais da medicina na formação da sociedade sul rio-grandense, numa coautoria dos professores Mari Cleise Sandalowski e Renato de Oliveira e Memórias políticas sobre a cisão do PCB e a formação do PCBR no pré-golpe de 64, do professor Éder da Silva Silveira. Encerrando esse número, encontra-se a resenha elaborada pelo professor Emannuel Reichert sobre o livro de Nick Robins, A corporação que mudou o mundo: como a Companhia das Índias Orientais moldou a multinacional moderna.

Enfim, temos a convicção de que os tempos que constituem a memória são dialetizados e / ou conformados pelos interesses e lógicas que reconfiguram o presente, por isso que as memórias políticas são, acima de tudo, fruto de políticas deliberadas de memória. Ao entendermos assim a memória, poderemos nos despir da representação que, em geral, é produzida em torno dela no sentido de fixidez, de resgate puro e simples do passado, de depósito, de algo imóvel, isenta de pré-noções e intencionalidades externas.

Desse modo, desejamos que os textos deste dossiê temático, assim como os artigos livres e a resenha, possam contribuir para melhor analisar e compreender a memória em sua dimensão política, produzir mais questionamentos e suscitar novos estudos.

João Carlos Tedesco – Organizador


TEDESCO, João Carlos. Editorial. História – Debates e Tendências, Passo Fundo- RS, v. 13, n. 2, jul / dez, 2013. Acessar publicação original [DR]

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