Desde a última década do século XX, os estudos sobre a nação, a nacionalidade e o nacionalismo, como fenômenos históricos, sofreram verdadeira impugnação de seus enfoques por parte de uma literatura conservadora ancorada no pensamento único e nas propostas de pós-modernidade e do fim da História, hoje já desarticulados pelo presente cenário global. Mais do que nunca, podemos dizer que as visões originais sobre nação, nacionalidade e nacionalismo contribuíram – e ainda contribuem – a explicar de maneira eficaz o devir da história contemporânea, desde fins do século XVIII até nossos dias.

No referente ao estritamente historiográfico, podemos identificar algumas correntes referenciais que contribuíram para enriquecer, desde diferentes enfoques e perspectivas, os conceitos de nação, nacionalidade e nacionalismo, desde suas origens. Um primeiro corpus fundacional foi encarnado pelas revoluções liberais. Foi a Revolução Francesa que nos proporcionou uma concepção política de nação, de soberania popular, de liberdade política e de nacionalidade. Para os revolucionários franceses, a nação era uma união de vontades – eleitas livremente –, constituída sobre os cimentos de um contrato social do qual resultava a adesão voluntária de seus membros associados em suas condições de cidadãos livres. A contraposição dessa noção de nação foi proporcionada pelo romantismo alemão, que a associou a um direito natural “essencialista”, apoiado em critérios raciais, culturais e espirituais.

Por sua parte, o marxismo não ficou à margem desse rico debate. As contribuições sobre a “questão nacional” de Kautsky, Luxemburgo, Bauer, Trotsky, Lenin etc., encarnam um importante aporte do materialismo histórico. No mesmo sentido, as valiosas reflexões de cientistas sociais marxistas como Eric Hobsbawm, Pierre Vilar, Etienne Balibar, entre outros; e a inclusão nesse debate da chamada periferia – Ásia, África y América Latina – nos escritos de Immanuel Wallerstein e Samir Amín, representam aporte crítico e reflexivo fundamental a essa temática.

Por outra parte, nesta apresentação, não podemos deixar de referir a amplamente difundida obra de Benedict Anderson, Comunidades imaginadas, na qual o autor concebe a nação, a nacionalidade e o nacionalismo como “produtos culturais” que devem ser estudados desde uma perspectiva histórica, tentando compreender como se geraram, como tem seu significado modificado e como adquiriram a enorme legitimidade que têm até nossos dias como esquema hegemônico de organização e controle social.

O complexo devir da instrumentação da nação, da nacionalidade e do nacionalismo não é um processo unilateral. A sequência nacionalismo-nação-Estado nacional, válida para os países centrais, difere do recorrido de múltiplos países da chamada periferia, onde os estados descolonizados foram os artífices de novas nações independentes, convertendo-se em uma força centrípeta, unificadora, que através de um novo “contrato social” iluminou a nação e a consciência nacional, em luta constante com as impulsões sempre renovadas do colonialismo e imperialismo.

Consequentemente, a nação, a nacionalidade e o nacionalismo continuam sendo protagonistas incontornáveis de nossos acontecer político contemporâneo, desafiando-nos a uma constante renovação de seu estudo e compreensão.

Convencido do até agora proposto, o presente dossiê “Nações, Nacionalidade, Nacionalismo” convida-nos a compartilhar investigações sobre essas questões em quatro cenários diferentes.

Em uma primeira parte, que tem como centro de análise o Brasil, contamos com o artigo do professor do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, René E. Gertz, que nos introduzirá nas relações entre os intelectuais sul-rio-grandenses e o Estado Novo brasileiro durante o período 1937- 1945. O seguinte trabalho, do doutor Gilberto Calil, professor do curso e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, discute a configuração do nacionalismo reivindicado e difundido pelo movimento integralista brasileiro em diferentes momentos de sua trajetória. Em seguida, tem-se o texto de Márcio Moraes tratando da interiorização da Ação Integralista Brasileira e suas atividades na cidade de Garanhuns, Pernambuco. Por último, tem-se a investigação do doutor Rodrigo Oliveira Fonseca, que, a partir da eclosão da conjuração baiana, reflexiona sobre as transformações políticas, discursivas e as tenções dos principais autores daquela conjuntura.

A segunda parte, centrada nas regiões do Caribe e da América Central, conta com a contribuição da mestra María José Becerra, docente e investigadora de Universidad Nacional de Córdoba y da Universidad Nacional de Tres de Febrero, que analisa o processo revolucionário e independentista haitiano, identificando suas particularidades, tensões e contradições durante a gênese da primeira República de ex-cativos negros do mundo. No segundo artigo, o doutor Alejandro Schneider, professor e investigador da Universidad de Buenos Aires, introduz-nos nos diversos instrumentos de controle, assimilação e silenciamento de toda expressão independentista que o imperialismo estadunidense exerceu sobre Porto Rico. Encerrando essa parte, o doutor Javier Moyano, docente e investigador da Universidad Nacional de Córdoba, investiga o acidentado e multidimensional processo de construção da nação mexicana e a emergência do nacionalismo como ideologia dominante.

Na terceira parte, centrada na América do Sul, contamos com a investigação dos doutores Ernesto Mora Queipo e Jean González Queipo, ambos docentes e investigadores da Universidad del Zulia; da mestra Dianora Richard de Mora, docente e investigadora da Universidad Bolivariana de Venezuela, que nos propõem um estudo sobre o nacionalismo independentista venezuelano, de seus mitos fundadores e de seus símbolos identitários, utilizado como eixo articulador a figura de uns dos heróis esquecidos, José Antonio Páez. No último trabalho, o doutor Mário Maestri, docente e investigador do Programa de Pós- Graduação em História da Universidade de Passo Fundo, nos apresenta diferentes interpretações sobre o significado da conspiração organizada em torno da família de Solano López, no Paraguay de mediados de 1868, e da dura repressão que motivou. A partir desses acontecimentos, o autor busca interpretar o sentido político-social desses atos, inscritos no devir de uma nação subsumida na guerra.

Na quarta e última parte, centrada na Europa, África e Oriente, temos o trabalho de Gino Candreva, doutorando em História Moderna e Contemporânea da Universidade de Roma, que analisa o ascendente papel do Partido Comunista italiano como referência da resistência, diante das políticas expansionistas e “civilizatórias” do fascismo italiano em relação à Etiópia; e o de Paula Schaller, doutoranda em História da Universidad Nacional de Córdoba, que nos propõe uma abordagem da política da Terceira Internacional vinculada à “questão nacional”, indagando sobre programa y estratégias debatidas.

Esse número de HDT contém ainda dois artigos livres e uma resenha. O texto de Marcilene Nascimento de Farias e Diogo da Silva Roiz trata das representações femininas na imprensa, no período compreendido entre 1960 a 2000. O artigo de Alexandra Pingret analisa a Marcha Mundial das Mulheres no contexto dos movimentos sociais contemporâneos. A resenha do livro Educação, estado e poder, de Fábio Comparato foi escrita por Karina Pacheco Dohms.

Desejamos a todos uma ótima leitura!

Ana Luiza Setti Reckziegel

Diego Buffa

Mário Maestri


RECKZIEGEL, Ana Luiza Setti; MAESTRI FILHO, Mário José; BUFFA, Diego. Editorial. História – Debates e Tendências, Passo Fundo- RS, v. 13, n. 1, jan / jun, 2013. Acessar publicação original [DR]

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