Nordeste, meu amor ou: Está o Nordeste para o Brasil assim como o Oriente para o Ocidente?

Representar o “Outro” constitui um dos maiores desafios, mas também uma das mais avassaladoras tentações do ente que convencionamos denominar “ser humano”. Talvez não seja despropositado afirmar que o impulso – cognitivo e emocional – que nos impele ao conhecimento e, consequentemente, ao ordenamento do mundo, é uma marca universalmente partilhada, ainda que apresente variações (por vezes dramáticas ou, ao contrário, apenas sutis) segundo os períodos históricos, ideologias políticas, preceitos morais e religiosos, contextos socioculturais, imperativos econômicos, interesses políticos e / ou mercadológicos, e assim por diante. Ainda assim, os múltiplos idiomas por meio dos quais os sujeitos procuram conhecer, reconhecer e representar os seus (nossos), “outros” guardam um quê de mistério – ou melhor, emergem a partir de uma necessidade imiscuída a um sentimento de incompreensão ou impotência e é justamente essa qualidade que (n)os leva a imaginá-los, fantasiá-los, idealizá-los, subjugá-los, amá-los ou odiá-los.

Poderíamos aqui divagar, recorrendo a uma infinidade de histórias – narradas por uma extensa linhagem de autores que inclui desde Homero a Daniel Defoe e Joseph Conrad – que nos falam de encontros envolvendo antigas civilizações (reinos, impérios, cidades- estado, tribos, etc.) e ilustram a fascinante saga humana no contato com o “Outro”. Entretanto, para além d e imagens romanceadas, a História nos brinda igualmente com episódios nos quais tais encontros degeneraram, quando não em guerras sangrentas, em representações no mínimo controversas acerca desse “Outro”. Lembremos, por exemplo, da obra magistral de Edward Said [2] , na qual o autor nos mostra como no “Ocidente” (ou no seio dos principais Estados imperialistas ocidentais, sobretudo o britânico e o francês) se construiu e se cristalizou um olhar (homogeneizante) sobre o “Oriente”. Recorrendo ao escrutínio de textos produzidos por literatos, viajantes e políticos, Said constrói sua denúncia contra “o modo ocidental de encarar, dominar, reestruturar e exercer o poder sobre o Oriente”; “um conjunto de ideias circunscritas a valores, apresentados de modo generalizado, características do Oriente”. Said não foi o primeiro, tampouco o último intelectual a insurgir-se contra as formas de dominação – política, econômica, social e simbólica –, empreendidas pelas grandes potências ocidentais sobre o “resto” do mundo [3].

Mas, afinal de contas, o que isso tem a ver com o Nordeste brasileiro, ou, melhor dizendo, com a maneira pela qual essa região vem sendo representada (sobretudo a partir do século XX) em jornais, revistas, filmes, canções, romances, telenovelas e o que (e como) tais representações dizem sobre o Nordeste e os nordestinos? Uma resposta a essa questão pode ser encontrada no primoroso trabalho do historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior [4] , no qual o autor explora o modo e o porquê de determinados signos (como a seca, a saudade, a religiosidade popular, os ritmos) emergirem e se cristalizarem como aspectos quase metonímicos dessa região na “paisagem imaginária” nacional.

Estabelecendo uma ponte entre Albuquerque Júnior e Said, poderíamos conceber esse fenômeno histórico por meio de uma analogia entre o Nordeste (Oriente) e o Centro-Sul brasileiro (Ocidente). No bojo de ambos os processos representacionais, o Nordeste brasileiro, tanto quanto o Oriente imaginado pelos europeus, foi (e continua sendo) submetido a uma leitura desqualificadora da qual nada escapa: o clima, a vegetação, o solo, os costumes, o idioma (ou sotaque), a compleição física, a cultura, a política, a economia, etc. Porém não nos enganemos. Essa leitura, longe de ser empreendida numa via de mão única, ou seja, a partir de um olhar “externo” foi, em grande medida, alimentada por alguns dos maiores pensadores (sociólogos, romancistas, políticos) nordestinos, por homens do porte de Gilberto Freyre [5], ansiosos na busca de uma identidade regional ou mesmo nacional.

A propósito, como esquecer aquele (ou esse!) Nordeste retratado (ou seria inventado?) nas obras de autores como José Américo de Almeida, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, nas quais encontramos tanto o flagelo da seca e as consequentes misérias e injustiças sociais quanto a força (ressaltada por Euclides da Cunha [6] , por exemplo) de um povo e sua capacidade de indignar-se, mas também de orgulhar-se.

Porém, não é nada fácil representar um lugar, um a população ou mesmo um indivíduo sem recair em imagens simplistas, estereotipadas ou ambíguas. O próprio Albuquerque Júnior, refletindo sobre esta “formulação discursiva e imagética” que é o Nordeste brasileiro, admite a dificuldade para a “produção, difusão e poder persuasivo de uma nova configuração de „verdades‟ sobre esse espaço”. Verdades? Mas quais seriam as verdades hegemônicas, estabelecidas e, por outro lado, que verdades subordinadas, silenciadas ou ainda alternativas estariam sendo (não) produzidas sobre o Nordeste brasileiro?

Talvez o que os sete artigos que compõem o presente dossiê – escritos não só por historiadores e antropólogos, mas também por pesquisadores das áreas de comunicação social, publicidade e desenvolvimento regional – tenham em comum – através da análise crítica de alguns filmes que têm o Nordeste (ou uma certa imagem inventada de um [in]certo Nordeste) como cenário e “o” nordestino como personagem – seja o questionamento dessas supostas “verdades”.

O primeiro artigo, de Danilo Alves Maia e José Benjamim Montenegro, parte da leitura de Jesuíno Brilhante, o cangaceiro, filme de 1973, dirigido por William Cobbet. Nele, os autores refletem sobre a relação entre cinema e história tomando o cangaço, movimento sociocultural que se deu no Nordeste entre o final do século XIX e parte do XX, como texto. Retomando a perspectiva teórica defendida pelo antropólogo Clifford Geertz [7], diríamos que o que Maia e Montenegro fazem nesse artigo consiste em interpretar a interpretação que um cineasta empreende sobre o fenômeno do cangaço.

O filme Viajo porque preciso, volto porque te amo, de Marcelo Gomes e Karin Aïnouz, produzido em 2009, é objeto de análise de Ronaldo da Silva e Adelino Pereira da Silva no segundo artigo deste dossiê, onde os autores procuram escrutar imagens, sons e silêncios por meio dos quais se constrói um Nordeste hiperreal, povoado de estereótipos comumente associados ao homem sertanejo. Tal viés crítico também nos é apresentado por Joachin Azevedo Neto no artigo dedicado ao filme Vidas Secas (lançado em 1963) de Nelson Pereira dos Santos, e ao romance homônimo que lhe deu origem, escrito por Graciliano Ramos, editado pela primeira vez em 1938. Tanto no texto de Fábio R. da Silva e Adelino P. da Silva quanto no de Joachin Neto, nos deparamos com a tensão potencialmente disjuntiva entre imagens produzidas, difundidas e legitimadas midiaticamente e sua distância em relação a imagens “concretas”. Ora, quem e o que de fato é representado e reconhecido em tais “produtos”?

No quarto artigo, apresentado neste dossiê, Silvia Tavares da Silva parte da leitura do filme O Homem que Virou Suco, dirigido por João Batista de Andrade em 1981, para analisar o modo como os nordestinos que migram para o Sudeste brasileiro são retratados, além dos conflitos que permeiam a construção e a negociação de suas identidades em meio a um contexto significativamente distante e distinto de seu lugar de origem. Porém a autora não se limita ao conteúdo imagético construído e expresso no e pelo filme, procurando também compreender a formação e a visão política do diretor, bem como a conjuntura social e histórica dentro da qual o filme foi produzido.

A aridez do clima e da paisagem, o suposto tradicionalismo dos costumes e a forte religiosidade popular são marcas costumeiramente acionadas por artistas quando buscam, em suas obras, representar o Nordeste. Em seu texto, Josélio S. Sales toma O Auto da Compadecida, filme de Guel Arraes realizado em 2000 e inspirado na peça escrita por Ariano Suassuna em 1955, para destrinchar o que Sales chama de “estereótipos” e “velhos clichês culturais” em nada condizentes com a realidade, senão com as mentes fantasiosas e nostálgicas de Arraes e Suassuna.

No artigo seguinte, Glauco Fernandes Machado e Greilson José de Lima interpretam o filme Baixio das Bestas (lançado em 2006), de Cláudio Assis, à luz da crítica Pós-Colonial, o que lhes permite problematizar a equação tão arraigada e etnocêntrica através da qual a imagem do Nordeste é erigida, quase que concomitantemente, associada a determinadas manifestações culturais (ou caricaturais) como o Maracatu, e, o que lhes parece mais questionável, à violência, ao decadentismo, ao exotismo.

Rosilene Dias Montenegro e Túlio Augusto Paz e Albuquerque, encerram o dossiê e, diferentemente dos demais autores, optaram por analisar, em conjunto, títulos representativos de dois dos principais movimentos que marcaram a história da produção fílmica no Brasil, o chamado Cinema Novo e o Cinema de Retomada, no intuito de perquirir como a região Nordeste foi representada cinematograficamente. Os autores entendem “que o cinema constitui uma linguagem privilegiada para a análise da sociedade, cotidiano e história” e que filmes podem ser tomados metodológica e epistemologicamente como “lugar de representação e produção de sentidos e fonte histórica”.

Autores como Stuart Hall [8] , Arjun Appadurai [9] e Néstor Garcia Canclini [10] produziram estudos de fôlego no intuito de compreender questões relacionadas à reconfiguração das identidades coletivas no contexto da nova economia cultural global. Appadurai, por exemplo, refletiu sobre a tensão entre os processos de homogeneização e heterogeneização culturais, atentando para o que o autor denomina como os “múltiplos mundos idealizados” constituídos pelas imaginações historicamente situadas das pessoas e dos grupos disseminados pelo mundo, possibilitando apontar para as formas fluidas e irregulares dessas paisagens. Appadurai estabelece que as imagens identitárias produzidas / veiculadas por filmes, músicas, programas de televisão, etc., “são interpretações profundamente perspectivas, modeladas pelo posicionamento histórico, linguístico e político das diferentes espécies de agentes”. Canclini, por sua vez, observa que questões de identidade social e / ou pessoal muitas vezes são respondidas pelo consumo de bens e dos meios de comunicação de massa. A partir da disseminação de imagens através da mídia, assistimos e vivenciamos a emergência de comunidades transnacionais de consumidores. Não se trata de meras cópias ou de processos homogeneizantes, mas do fato de que narrativas e identidades são coproduzidas.

Os artigos que compõem o presente dossiê, por outro lado, trazem à tona os problemas intrínsecos às formas de se representar um suposto “Outro” (ou um suposto “Nós”) nas quais nem todos se (nos) reconhecem(os). Como veremos a seguir, este é um dos muitos méritos dos autores aqui apresentad os, ou seja, o de questionar leituras simplistas sobre o Nordeste e o “ser” nordestino.

Em tempos de intensa circulação de ideias, imagens e pessoas; numa era marcada por deslocamentos e processos de reterritorializações cada vez mais dinâmicos e difusos, é enganoso (e muito enfadonho) ficar assistindo ao eterno retorno do mesmo forçadamente essencializado, o qual não abre espaço para a apreensão de signos diferencialistas alternativos, tampouco para semelhanças positivamente valoráveis. E este é mais um mérito dos textos aqui reunidos.

Certamente, para quem já teve a oportunidade de assistir aos filmes objeto de análise deste dossiê, será impossível revê-los com o “mesmo” olhar de antes. E para aqueles que ainda não o fizeram, tenho certeza de que correrão para vê-los e que ali (des)encontrarão um “Nordeste” na tela que pouco ou em nada coincide com os “nordestes” onde vivemos, que nos habitam, povoam nossas memórias pessoais e afetivas, em suma, que incendeiam nossas mentes e preenchem nossos corações.

Notas

  1. SAID, Edward. Orientalismo: o oriente como invenção do ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
  2. Ver, por exemplo, BHABHA, Homi. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 2001; HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: UFMG, 2003; MCCLINTOCK, Anne. Couro imperial: raça, gênero e sexualidade no embate colonial. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2010.
  3. ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz. A invenção do Nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez Editora, 1999.
  4. FREYRE, Gilberto. Nordeste. 6ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1989.
  5. CUNHA, Euclides da. Os sertões. Edição crítica de Walnice Nogueira Galvão. São Paulo: Ática, 1996.
  6. GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.
  7. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP & A, 2000.
  8. APPADURAI, Arjun. “Disjunção e diferença na economia cultural global”. In: FEATHERSTONE, Mike (Org.). Cultura global: nacionalismo, globalização e modernidade. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.
  9. CANCLINI, Néstor García. Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1999.

Martinho Tota – Pós- doutorando no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional / Universidade Federal do Rio de Janeiro; Doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional / UFRJ. Pesquisador associado do Laboratório Integrado em Diversidade Sexual e de Gênero, Políticas e Direitos (LIDIS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). E-mail: [email protected]


TOTA, Martinho. Apresentação. Mnemosine Revista. Campina Grande, v.4, n.1, jan./jun., 2013. Acessar publicação original [DR]

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