A imagem de Clio, musa helênica da história, fruto das noites ardentes de Mnemósine e Zeus, é sempre um símbolo recorrente entre os historiadores. Mas há outra figura imaginária feminina – perpetuada por outras tradições culturais – também capaz de desencadear uma série de elucubrações sobre a prática histórica.

Referimo-nos aqui a Cheherazade, a bela jovem que deteve a ira assassina do sultão Chahriar. O poderoso homem jurara não dormir mais de uma vez com a mesma mulher. A cada noite deitava-se com uma virgem, executada ao amanhecer. O terror invadiu todos os lares. A condenação de tantas jovens resultaria, ao longo dos anos, num mundo crescentemente masculino e estéril. Um dia, Cheherazade, uma das duas filhas do grão-vizir, o qual até então as ocultara, comunicou ao pai sua decisão de deter a barbaridade do sultão, e implorou casar-se com Chahriar. A partir de suas núpcias, a jovem seduziu seu algoz com histórias emocionantes e diversas, mas nunca concluídas ao amanhecer, o que fez sua vida ser poupada ao longo de mil e uma noites. Ao final, Cheherazade, graças às suas narrativas, venceu não apenas a ameaça de sua própria morte – pois o sultão se apaixonou por ela – mas também o fantasma da extinção da sociedade em que vivia.

Entre Cheherazade e o historiador, o desafio da morte surge não só como uma intenção comum, mas também como uma tarefa a ser continuamente retomada. A escrita da história debruça-se sobre sociedades desaparecidas, contata mulheres e homens ausentes, vislumbra possibilidades consideradas em outros momentos e agora esquecidas. Como afirma Michel de Certeau, os discursos sobre o passado trazem a marca dos mortos, e sua evocação se realiza numa troca entre os vivos. Duelo contra a morte, a prática histórica não conhece descanso. Experimentando a incompletude não como falta, mas como afirmação da complexidade da vida, o historiador está sempre disposto a recomeçar sua escrita, já que o saber produzido não é nem contínuo, nem necessariamente acumulativo.

Ao final dos trabalhos deste Conselho Editorial da Revista Brasileira de História, gestão 2007-2009, esperamos ter contribuído para reafirmar a importância da escrita da história na sociedade contemporânea, vítima de tantos pesadelos e ameaças de extinção por todos os lados. Buscamos dar continuidade ao trabalho de tantos dias e noites (na verdade, quase mil) de todos os editores, membros dos conselhos editoriais e consultivos, assim como inúmeros pareceristas ad hoc em atividade desde a publicação do primeiro número, em setembro de 1981. Projeto coletivo de uma instituição que congrega historiadores diversos, a Anpuh, nossa revista lança-se aos dias futuros na expectativa de continuar servindo como local de divulgação de reflexões, pesquisas e debates, numa tarefa a ser incansavelmente reiniciada.

Neste número, o dossiê “O Brasil visto de fora” traz artigos de autores estrangeiros escrevendo acerca de visões estrangeiras sobre este país, assim como ações a ele direcionadas desde o exterior. Seth Garfield descortina o debate diplomático, ambiental e cultural sobre a Amazônia brasileira, durante a Segunda Guerra Mundial. Em argumentação consolidada por ampla pesquisa, investiga as forças materiais e ideológicas que moldaram as compreensões norte-americanas sobre a floresta tropical. James Green e Abigail Jones enfocam as versões construídas pelo embaixador Gordon acerca das ações dos Estados Unidos em relação ao golpe de 1964, no Brasil. O artigo abrange temas diversos como relações internacionais, memória política e práticas de pesquisa histórica. Neil Safier investiga as estratégias narrativas de La Condamine ao apresentar o rio Amazonas aos europeus do século XVIII numa obra escrita na primeira pessoa, sem divisão em capítulos, fluida como um barco pelo rio, mesclando observações naturais com relatos míticos de palácios e mulheres guerreiras.

Maria Helena Capelato abre a seção de artigos avulsos com estudo sobre a doutrinação franquista direcionada às crianças através de livros didáticos. Sua análise privilegia aspectos políticos, culturais e pedagógicos, com ênfase nas mensagens e imagens alimentadoras do imaginário coletivo espanhol e na “venda” de ilusões purificadoras e estimuladoras da intolerância. Aldair Carlos Rodrigues contribui para o estudo da Inquisição em Minas colonial, focalizando os agentes inquisitoriais portugueses ali presentes, discutindo sua formação e atuação, perfil, recrutamento e papéis. Henrique Estrada Rodrigues analisa os escritos de Fernand Braudel sobre Lévi-Strauss, debatendo questões relativas ao tempo histórico, mas também à ação política como fonte da diferenciação social, momento inaugural de todo movimento e de toda história, matriz de multiplicidade. Felipe Pereira Loureiro avalia os impasses políticos do Governo Jânio Quadros, discutindo seus ataques à legitimidade política do Congresso, assim como a reação parlamentar para reconstruir sua imagem.

Seguem-se seis resenhas, assinadas por Durval Muniz Albuquerque Junior, Douglas Cole Libby, Dulce O. Amarante dos Santos, Lise Sedrez, María Elida Blasco e Luis Fernando Cerri, cumprindo a importante tarefa de levar aos leitores análises críticas de obras recentemente lançadas e de relevância destacada, abrangendo temas e abordagens diversos.

Em sua tarefa “à la Cheherazade”, esta revista convida seus leitores a virar as próximas páginas. Apostamos nos escritos aqui divulgados como estímulos à vida e ao pensamento. Afinal, é sempre uma alegria lembrar que a história – passada, presente e futura – está sempre por ser escrita, e que retomá-la a cada dia é a garantia de nossa sobrevivência.

Conselho Editorial


Conselho editorial. Apresentação. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.29, n.57, jun, 2009. Acessar publicação original [DR]

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