O Ofício do Historiador, denominação cara a Marc Bloch, foi o título escolhido para o dossiê do último número da RBH preparado pelo atual Conselho Editorial. Desta vez, a proposta do dossiê não estabelece limites tão rígidos e, de várias maneiras, alcança os demais artigos, conferindo maior homogeneidade a todo o volume.

Este número tem outras peculiaridades. Aproxima gerações, pois ao lado de autores seniors — como Ulpiano Bezerra de Meneses – estão jovens pesquisadores em início de carreira — como Rebeca Gontijo ou Fabio Duarte Joly. Atravessa fronteiras geográficas, colocando ao lado de historiadores brasileiros, quatro outros que trabalham no exterior e que prepararam artigos especialmente para a revista: dois no México — Carlo A. Aguirre Rojas e Regina A. Crespo; um na Argentina — Hernán Sorgentini; e outro na Alemanha — Débora B. Alves. Este é um claro sinal do quanto a RBH se firmou como pólo de qualidade atraindo a atenção para além dos limites nacionais.

Os artigos que compõem o dossiê apresentam abordagens de natureza teórica ou historiográfica. O de Ulpiano Bezerra de Meneses, que abre o número, dialoga com a História da Arte, a Antropologia Visual, a Sociologia Visual, propondo “algumas premissas para a consolidação de uma História Visual”. Em seguida, o de Diana Gonçalves Vidal e Luciano Mendes de Faria Filho analisa a constituição do campo da História da Educação no Brasil e da construção de uma certa identidade, ainda que multifacetada e plural, do historiador da educação. Os textos de Carlos A. Aguirre e de Hernán Sorgentini refletem criticamente sobre a relação entre produção do conhecimento histórico, memória e tradição, detendo-se ambos no trabalho de Carlo Ginzburg. Rebeca Gontijo escolheu estudar Manoel Bomfim com a intenção de captar este “pensador da História” na Primeira República brasileira. As fontes para o historiador são discutidas por Débora B. Alves que indica os problemas particulares suscitados por cartas de imigrantes alemães escritas nas “distantes” fazendas fluminenses e publicadas em jornais alemães na metade do século XIX.

Os artigos que se seguem também nos conduzem ao cruzamento de outras fronteiras. O texto de Regina Crespo estuda as viagens ao Brasil de dois intelectuais mexicanos, José Vasconcelos e Alfonso Reyes que, depois da “descoberta” da “outra” América Latina, estabelecem rotas de aproximação entre os dois países. Beatriz Domingues reflete sobre os escritos de dois jesuítas mexicanos, Venegas e Clavijero, a respeito da “longínqua e árida” Baixa Califórnia, no século XVIII, que nos levam a dimensionar encontros culturais e religiosos muito particulares. Indicando como os temas e questões da História Antiga continuam controversos, Fábio Joly dialoga e discorda da historiografia sobre Columela, mostrando que a perspectiva desse autor em torno da organização do trabalho escravo na propriedade rural na Roma imperial se apóia não apenas em critérios econômicos mas também políticos.

Entrando no espaço brasileiro, Marcus Carvalho retoma a questão da atuação de agentes sociais (no caso provenientes das camadas subalternas) e suas relações com a haute spolitique partidária, num momento histórico conturbado, a Insurreição Praieira de 1848. No período contemporâneo, Joana Pedro, ao estudar a memória das mulheres sobre sua vivência com os contraceptivos, proporciona o encontro da experiência privada de cada uma delas com o espaço eminentemente político das propostas de planejamento populacional em nosso país. Fechando este número, uma importante entrevista de Jacob Gorender a Waldir Rampinelli, sobre o PCB; e as resenhas que, como sempre, contribuem para uma profícua discussão historiográfica.

O Conselho Editorial, com muito pesar, recebeu a notícia do falecimento da grande historiadora brasileira, Alice Piffer Canabrava, ex-presidente da ANPUH e fundadora da Revista Brasileira de História. Assim, decidiu prestar sua homenagem a ela, dedicando-lhe este número da revista.

In Memoriam
Alice Piffer Canabrava (1911-2003)


Conselho editorial. Apresentação. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.23, n.45, jul, 2003. Acessar publicação original [DR]

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