O meu passado não é mais meu companheiro Eu desconfio do meu passado.
Mário de Andrade

Se, em seu tempo, o perspicaz Mário encontrou razões para estranhar o passado, que se dirá de nós, historiadores neste limiar do século XXI? Dir-se-á que, além do passado, também estranhamos o nosso futuro. Dir-se-á que nos tornamos ainda mais instáveis! Entretanto, seguimos pensando, e produzindo, em meio a perplexidades cada vez maiores. Que a mesma luz do poeta / historiador clareie as precárias certezas em que nos pautamos!

Caminhando assim em consonância com os limites do seu tempo, a RBH completa uma trajetória de cinqüenta números. Cabe destacar sua importância sedimentada na área e suas contribuições para a produção historiográfica.

Tendo como marco a edição regularizada dos anos 90 para cá, as questões do poder — justamente as que nos permitem enfrentar o passado como companheiro — ocuparam cerca de 25 por cento dos dossiês anteriores. Com a presente edição voltamos mais uma vez os olhos para esse tema, com o dossiê “Poder: Tramas e Tensões”.

Diante das contemporâneas dúvidas e desconfianças que envolvem a todos no que diz respeito às questões do poder, da política, do fazer política e da ética, enfrentamos os desafios do presente publicando trabalhos que procuram desvendar tramas de poder no passado. Entretanto, os artigos aqui apresentados não são fruto da descrença no presente, pois se localizam num quadro de preocupações recentes, desvendando segredos encobertos por evidências inexploradas, fundamentados em extensa pesquisa, levando à frente o desafio de clarear imagens do passado e suas permanências na contemporaneidade.

Por tudo isso, os artigos do presente dossiê percorrem necessariamente caminhos variados. Partindo de eventos mais recentes e caminhando em direção ao passado mais remoto, publicamos os seguintes trabalhos: o artigo de Angelo Segrillo dedica-se a refletir sobre as contradições e dilemas do movimento comunista na Rússia atual; Adriano Luiz Duarte revisita o quebra-quebra de ônibus e bondes ocorrido na cidade de São Paulo em agosto de 1947, para entender a relação entre demandas populares e o fornecimento regular do serviço de transportes; a política como espetáculo da Ação Integralista Brasileira é o assunto de Rogério Souza Silva; Ricardo de Aguiar Pacheco, refletindo sobre a conjuntura política de Porto Alegre na década de 1920, estuda o processo de modernização das relações sociais; Aldrin A. S. Castellucci relaciona a primeira greve geral na Bahia às tramas de poder construídas entre a organização sindical e a cisão interoligárquica; Ivan de Andrade Vellasco discute aspectos da construção do Estado Imperial e os conflitos cotidianos, focalizando o sistema de justiça particularmente na comarca do Rio das Mortes; Juarez Donizete Ambires procura entender a atuação missionária e administrativa do jesuíta flamengo Jacob Roland na América Portuguesa; e, ainda dentro do dossiê, o artigo de Ricardo de Oliveira adota como foco a cultura política do Antigo Regime, revelando a trama das esferas públicas e privadas.

Outros três artigos versando sobre temáticas diversas são também publicados neste número. Luiz Roncari trata da formação de Machado de Assis como escritor, o seu modo muito próprio de se relacionar com o leitor e os controles do Estado Imperial; Klaas Woortmann examina a noção de selvagem no pensamento medieval e sua relação com o sentido de história; e Fábio Franzini salienta um dos aspectos menos conhecidos da história do futebol no Brasil: a inserção da mulher num universo quase exclusivamente masculino.

Além de artigos, a RBH oferece interessantes resenhas aos seus leitores: Vitor Izecksohn apresenta o livro Fear & memory in the Brazilian army & society; Francisco Silva Noelli indica sua leitura de Relatos do Descobrimento do Brasilas primeiras reportagens, e Cláudia Maria Ribeiro Viscardi analisa a obra O Brasil Republicano.

Conselho Editorial


Conselho editorial. Apresentação. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.25, n.50, jul. / dez., 2005. Acessar publicação original [DR]

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