Primeira Guerra Mundial / História – Debates e Tendências / 2014

A Primeira Guerra Mundial é considerada pela historiografia como a primeira grande guerra moderna em que morreram mais civis do que militares. As consequências imediatas daquele grande conflito foram os oito a nove milhões de mortos, os trinta milhões de feridos, o redesenho geopolítico da Europa, com o surgimento de vários novos países e a extinção de quatro grandes impérios.

Havia, na Europa, um cenário montado, propício para a eclosão de um conflito de grandes proporções. Por isso, quando, em 28 de junho de 1914, o arquiduque austríaco, herdeiro do trono, Franz Ferdinand foi abatido a tiros pelo nacionalista sérvio (ou terrorista ao gosto de uma linguagem atual) Gravillo Princip, o barril de pólvora sobre o qual estava assentada a estabilidade europeia explodiu.

O conflito que inicialmente era apenas europeu se transformou em mundial quando países de todos os continentes passaram a participar desse. Estiveram envolvidos diretamente nas atividades bélicas 28 países, incluindo o Brasil. No entanto, todos os países do mundo, de uma forma ou outra serão afetados pela guerra. O mundo que surgiu ao término do conflito era bem diferente daquele que presenciou os primeiros tiros no início de agosto de 1914, mas, mesmo assim, os problemas que causaram a grande guerra não estavam solucionados, inclusive servindo de pretexto para que duas décadas depois acontecesse outro conflito bélico de proporções ainda maiores: a Segunda Guerra Mundial.

Na centúria que se seguiu à eclosão da Primeira Guerra Mundial as artes – notadamente o cinema – e a literatura produziram obras que figuram entre os maiores clássicos da humanidade, tendo como pano de fundo aquele grande conflito. A historiografia explorou profundamente as motivações e o desenrolar da própria guerra. Certamente, a Primeira Guerra Mundial foi, ao longo deste século, um dos temas mais visitados pelos historiadores das mais variadas matizes teórico-metodológicas de todas as partes do mundo.

Agora, ao rememorar o primeiro centenário do início da grande guerra, um número significativo de historiadores novamente centram seus olhares para aquele conflito bélico. E o programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo não poderia ficar indiferente a isso. Assim é que a Revista História – Debates e tendências apresenta à comunidade acadêmica o dossiê Primeira Guerra Mundial, publicizando resultados de investigações de pesquisadores de várias instituições brasileiras, bem como de universidades europeias.

Abrindo o dossiê, o historiador polonês Jerzy Mazureck no artigo A grande guerra do homem branco mostra que as razões para o primeiro conflito armado em escala mundial foram as rivalidades entre os impérios da Europa, que na virada do Século XIX para o Século XX se dividiram em dois campos antagônicos, que acabaram envolvendo diretamente 28 países. Ressalta ainda que apesar da enormidade das perdas e danos, a Primeira Guerra Mundial não resolveu a maioria dos problemas que ocasionaram aquele conflito, levando à eclosão da Segunda Guerra Mundial 21 anos depois.

Outro historiador polonês, Wojciech Skrzątek, no artigo De Marne 1914 a Marne 1918: as grandes batalhas da Primeira Guerra Mundial, aponta a Primeira Guerra Mundial como a primeira guerra total contemporânea, demonstrando que diferentemente dos conflitos anteriores, em que predominavam as operações de manobras, naquele conflito as operações bélicas duravam meses ou até anos, resultando em milhões de vítimas. Os exércitos necessitavam de cada vez mais gente, de cada vez mais armas − e isso só poderia ser obtido à custa da sociedade, de maneira que a guerra atingia quase todas as famílias.

Em Pensando a guerra e a nação: a Liga Brasileira pelos Aliados e suas ideias sobre o Brasil no contexto da Primeira Guerra Mundial (1915-1919), Livia Claro aborda o importante papel que teve a Liga Brasileira pelos Aliados, fundada a partir da iniciativa dos literatos José Veríssimo e Antônio Reis Carvalho, ao lado de Graça Aranha, Eliseu Montarroyos e Augusto de Araújo Gonçalves, e que angariou o apoio de personagens ilustres do cenário político e cultural carioca. Essa associação tornou-se ao longo do conflito europeu um importante núcleo de apoio aos Aliados, demonstrado no artigo por meio da análise de seus boletins publicados na imprensa carioca.

Cristiano Enrique de Brum, no artigo A medicina vai à guerra: a missão médico-militar brasileira na França durante a Primeira Guerra Mundial (1918-1919) analisa como durante a Primeira Guerra Mundial, o governo brasileiro organizou e enviou uma Missão Médico Militar para a França, a fim de fundar um hospital em Paris, colaborando assim com a causa brasileira na Guerra, por meio da medicina. O pelotão médico brasileiro, organizado às pressas, em meio a escândalos e percalços diversos, se faz presente em diversas partes da França, atuando com cuidados médicos sobre civis e militares e, especialmente, auxiliando no combate à Gripe Espanhola, que afetava grande parte do mundo, inclusive a Europa em conflito.

No artigo A guerra que vai acabar com todas as guerras: o Brasil na Primeira Grande Guerra – a mobilização da sociedade e o engajamento da Marinha – 1917 – 1918, Johny Santana de Araújo trata da mobilização da sociedade e do aparato naval brasileiro no ano de 1918, como resposta do governo do presidente Wenceslau Brás a agressão alemã contra os navios mercantes brasileiros em 1917. Analisa também as providências tomadas pelo governo brasileiro no sentido de organizar uma força naval efetiva denominada Divisão Naval de Operações de Guerra (DNOG) a fim de patrulhar a costa atlântica do norte da África.

Jorge Magasich Airola, em Les socialistes et la Première Guerre Mondiale: quelques éléments du débat entre socialistes au moment du passage de l’opposition à la guerre à l’”union sacrée” mostra como a Internacional Operária Socialista, também chamada de Segunda Internacional, expressou sistematicamente posições contrárias ao militarismo e à guerra. No entanto, com o desenrolar da Primeira Guerra Mundial, os partidos socialistas abandonaram suas posições históricas pacifistas para apoiar o esforço de guerra de seus respectivos países.

Analisando as repercussões da guerra no interior do Rio Grande do Sul, Roswithia Weber e Eloísa Helena Capovilla da Luz Ramos, no artigo As comemorações do centenário da imigração alemã no contexto do pós Primeira Guerra Mundial, enfocam as comemorações do Centenário da imigração alemã no Rio Grande do Sul, mais especificamente, em São Leopoldo, considerando o contexto do pós Primeira Guerra Mundial e dos resquícios do “Perigo Alemão”. As autoras analisam discursos proferidos nos ritos comemorativos ao Centenário da imigração alemã, identificando, nesses ritos, que a presença da “pátria-mãe” Alemanha, não se efetivava somente em lembranças remotas dos primeiros imigrantes, mas também levava em consideração a Alemanha do pós-guerra.

A importância da imprensa na tomada de decisões em relação à posição que o Chile deveria assumir diante da guerra é analisada por Adelar Heinsfeld, em A neutralidade na Primeira Guerra Mundial em debate: o papel da imprensa chilena, em que os três mais importantes jornais do país são perquiridos pelo autor para observar a forma como a neutralidade será discutida. Inicialmente, a neutralidade oficial foi respaldada pela opinião pública, pois os vínculos políticos, econômicos e culturais que o país possuía com os países beligerantes não justificariam uma ruptura. No entanto, a entrada dos EUA no conflito em 1917 e a ruptura com Alemanha por parte de vários países americanos promoveu uma mudança no cenário nacional chileno e surgiram vozes no país que propunham o abandono da neutralidade, iniciando no país um amplo debate sobre a posição chilena diante do conflito que se tornava mundial.

No artigo O menino e os sortilégios: apontamentos sobre a presença da Primeira Guerra na obra de Maurice Ravel (1914 – 1930), Leandro Couto Carreira Ricon aponta que o cenário artístico- -musical francês, no término do Século XIX e primeiro quartel do Século XX foi dominado por debates entre os tradicionalistas e os inovadores, possibilitando naquela conjuntura cultural que o impressionismo enquanto forma musical surgisse e se estabelecesse no cenário da Belle Époque. No artigo, o autor procura analisar a produção musical de Maurice Ravel (1875– 1937), relacionando-o com o contexto e com a temática da Primeira Guerra. Procura averiguar determinadas obras desse músico, que também lutou durante a guerra, e que, marcadamente, sofreram influência desse conflito.

Fechando o dossiê, Denise Borille de Abreu, em seu artigo Narrativas femininas britânicas da Primeira Guerra: perspectivas da evolução e representação de papéis sociais femininos no Século XX, busca analisar o papel significativo das mulheres na construção da memória cultural, e a evolução das representações femininas, desde a instância do mito, de Homero até o início do Século XX, quando a Primeira Guerra foi declarada, para a presumida condição de “vítimas silenciosas” para chegar, enfim, à situação de membros proativos de uma sociedade igualitária. Procura demonstrar como as narrativas femininas da Primeira Guerra abordam o trauma da guerra, que afetou em igual escala mulheres, homens e crianças e como aquele grande conflito abriu terreno para a reconfiguração de papéis sociais femininos.

A sessão artigos livres tem início com o trabalho de Olgário Vogt e Bruna Vieira Spenner, Estâncias de criação de gado e cativos em Rio Pardo no final do Século XIX, em que os autores analisam a composição do patrimônio de estâncias de criação de gado em Rio Pardo (RS) no final do Século XIX, detectando em que medida a força de trabalho escrava esteve presente nas atividades pastoris. A análise é focada nas estâncias Nossa Senhora da Vitória e das Pederneiras, dois dos principais empreendimentos criatórios do município de Rio Pardo, tomando como ponto de partida os inventários post mortem de Mathias José Velho, proprietário da Santa Vitória, e do vereador José Ferreira Porto, dono das Pederneiras.

Getúlio Vargas, durante o período que esteve no poder, em especial durante o Estado Novo procurou cooptar muitos intelectuais – pintores, escritores e músicos, a fim de se legitimar no poder. João Henrique Zanelatto e Carlos dos Passos Paulo Matias, no artigo Historiadores e musicólogos: vozes dissonantes sobre Villa Lobos no Estado Novo, procuram demonstrar como o maestro Heitor Villa-Lobos vivenciou o período varguista e trabalhou para o governo. Demonstram como o maestro Villa foi visto pelos historiadores e pelos musicólogos durante o Estado Novo, levantando, assim, uma ardente discussão entre musicólogos e historiadores, sobre a postura do maestro, como um intelectual e como coordenador de um programa de educação musical, durante o Estado Novo.

Richard Rorty e o mundo sem espelhos, artigo de Clóvis da Rolt e Elbio Gerardo Silveira Ramos objetiva abordar alguns aspectos da crítica epistemológica do filósofo norte-americano Richard Rorty. O foco exploratório da reflexão está pautado numa relação entre o conhecimento histórico e a criação de imagens universais de teor metafísico. Mediante alguns conceitos centrais do pensamento de Rorty, os autores buscam localizar zonas de tensão que propiciem a suspeita em torno de uma postura intelectual historicista para, a partir daí, comentar algumas contribuições da atitude hermenêutica frente à ciência e ao conhecimento contemporâneo.

Esperamos que esta edição da revista História – Debates e tendências atenda às expectativas dos seus leitores e que os artigos ora publicados possam fomentar discussões e servir de ponto de partida para outras investigações sobre as temáticas aqui abordadas.

Boa leitura!

Adelar Heinsfeld

Jerzy Mazurek


HEINSFELD, Adelar; MAZUREK, Jerzy. Editorial. História – Debates e Tendências, Passo Fundo- RS, v. 14, n. 2, jul / dez, 2014. Acessar publicação original [DR]

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