A noção de fronteira apresenta um conteúdo polissêmico, pois seu significado varia de acordo com o campo em que este conteúdo é produzido e em consequência das mais diferentes linhas teórico-metodológicas adotadas pelos estudiosos. Para os historiadores, normalmente as fronteiras são entendidas no seu sentido tradicional de fronteiras políticas, bem como no sentido de locus do encontro de culturas diferentes.

No atual cenário socioeconômico decorrente da globalização, as fronteiras revelam um mundo poroso e complexo, marcado por relações que se alimentam de um conjunto de fatores para além do econômico-financeiro. Multiplicam-se fluxos de população; as regiões tornam-se mais móveis; e as fronteiras, mais deslizantes, mais multiculturais e interligadas, evidenciando as diferenças raciais, culturais, religiosas, econômicas e históricas

No processo de suas formações, as fronteiras denotam questões históricas, geopolíticas, culturais e de modos de vida particulares. Como fenômenos, as fronteiras representam unidades carregadas de significados referidos pela geografia e pelo imaginário das culturas.

No campo político, as fronteiras apresentam-se na história nacional como áreas vulneráveis, sendo uma fonte de preocupação constante, lugar em que a questão da soberania é imprescindível. Com o surgimento do Estado moderno, a fronteira passou a ser concebida como uma questão de segurança nacional, já que ela adquiriu o status de uma garantia da soberania e da integridade territoriais do país. A partir da fronteira, o Estado tem o controle sobre o espaço, regido por leis internas, e ao mesmo tempo sobre a entrada e a saída de seu território. Assim, historicamente, a fronteira, por estar ligada à formação do Estado e da Nação e a conquistas de novos territórios, separou povos. Por conseguinte, a fronteira gerou conflito, guerra, inimizades.

Com o dossiê “Região e Fronteiras”, a revista História – Debates e tendências pretende contribuir para o debate historiográfico, mostrando as diversas facetas que a temática pode apresentar.

Abrindo o dossiê, Deborah Paci mostra como o fim da Guerra Fria abriu novas possibilidades de cooperação entre as ilhas da região báltica. No artigo “A região báltica e suas ilhas: um modelo regional de cooperação”, aponta para a noção de região como lugar de redes e processos sociais, políticos e econômicos que está no centro da agenda política dos países costeiros do mar Báltico. A autora analisa como a retórica da marca “báltico”, entendida como uma forma particular de fazer as coisas, se tornou símbolo dos interesses econômicos e políticos de características culturais comuns no Báltico, funcionando como um fator de construção regional.

Carla Menegat, em “Abastados terratenentes, caudilhos poderosos ou empresários arcaicos: os súditos do Império Brasileiro no Uruguai e a historiografia”, mostra como, ao longo do século XIX, produtores brasileiros instalados no país vizinho se dirigiram a diferentes autoridades do Império solicitando intervenções em favor dos seus direitos violados por autoridades uruguaias. Estes produtores formavam, com os charqueadores e comerciantes, o topo da hierarquia social no Rio Grande do Sul. Assim, a identificação dos estancieiros como abastados terratenentes, caudilhos poderosos ou empresários arcaicos foi recorrente na historiografia, apenas recentemente abandonada. Procurando entender a trajetória que conduziu pesquisadores a sugerir novas interpretações sobre o tema, a autora propõe no estudo uma revisão dessa historiografia.

Dando sequência ao dossiê, Vitale Joanoni Neto e Júlio Cesar dos Santos, no artigo “Práticas de violência na fronteira. Estudo sobre os garimpos de diamante em Juína / MT (1987- 1994)”, propõem uma discussão acerca das relações de poder e de violência nas áreas de fronteira reocupadas por diferentes grupos sociais, como, mineradores tradicionais, prostitutas, peões e comerciantes, nos espaços dos garimpos, constituídos a partir das descobertas de jazidas diamantíferas no município de Juína, noroeste de Mato Grosso, entre os anos de 1987 e 1994. Os autores mostram que o poder é compreendido como relação legitima de comando e obediência, ao passo que a violência é pensada como instrumento de dominação e imposição sobre o outro em locais cuja presença do Estado é incipiente.

Já o estudo “As muitas fronteiras do Cerro do Jarau”, de Cesar Augusto Barcellos Guazzelli, propõe o estudo de três diferentes tipos de fronteira, mas que podem confluir numa única direção.

Comparar as características da escravidão de duas localidades é o objetivo de Marcelo Santos Matheus e André do Nascimento Corrêa em “A escravidão em uma perspectiva comparada: Caçapava do Sul (RS, Brasil) e Brazoria (Texas) – primeira metade do século XIX”. Utilizando como fontes, de Caçapava do Sul, uma lista de fogos de 1830 e, de Brazoria, o censo de 1840, mostram que, apesar de o número de propriedades e de escravos ser semelhante, na localidade brasileira, a posse de escravos estava disseminada por todo o tecido social, enquanto que, na localidade norte-americana, apenas um terço das proprietários eram escravistas. Em Caçapava do Sul, predominavam as pequenas e médias escravarias, que concentravam boa parte dos cativos, diferentemente do caso norte-americano, em que os grandes planteis concentravam a absoluta maioria dos cativos.

Iniciando a seção de artigos livres, Alejandra Laura Salomón, em “As estradas rurais de uma perspectiva histórica. História e evolução do Plan de Caminos de Fomento Agrícola (Argentina, 1956)”, analisa o papel desempenhado pelas estradas no desenvolvimento das atividades produtivas e na melhoria das condições de vida da população rural argentina logo após a queda do peronismo do poder. Analisam-se os antecedentes do plano e as alterações introduzidas, num contexto marcado pela modernização da agricultura nos pampas e pela centralidade da ideia de desenvolvimento, examinando a política e derivações institucionais no governo da província de Buenos Aires.

Charles Sidarta Machado Domingos, no artigo “O Brasil no jogo de espionagem da Guerra Fria: as relações Cuba-URSS vistas pela diplomacia brasileira (1962)”, aborda como a Revolução Cubana alterou significativamente as relações entre os países no continente americano. Fecha a seção o artigo “A expedição militar ao norte do Paraguai antes da Retirada da Laguna”, de Mário Maestri, que trata da coluna militar, que tinha sobretudo objetivo propagandístico, enviada no início de 1865, pelo interior do Império do Brasil, para atacar o Norte do Paraguai.

Esperamos que, com mais esta edição, a revista História – Debates e Tendências continue cumprindo seu papel: fomentar a discussão em torno das mais variadas questões historiográficas, rompendo fronteiras e abrindo caminhos, instigando novos estudos.

Boa leitura!

Adelar Heinsfeld – Programa de Pós-Graduação em História Universidade de Passo Fundo, Brasil

HEINSFELD, Adelar. Apresentação. História – Debates e Tendências, Passo Fundo- RS, v. 18, n. 2, maio / ago, 2018. Acessar publicação original [DR]

 


ABAL, Felipe Cittolin; MAIA, Tatiana Vargas. Editorial. História – Debates e Tendências, Passo Fundo- RS, v. 18, n. 3, set / dez, 2018. Acesso apenas pelo link original [DR]

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