“Deus está morto”, declarou Friedrich Nietzsche em A Gaia Ciência, “Deus permanece morto. E nós o matamos” (2011, p.148). Esse célebre atestado filosófico de óbito, enunciado em 1882, já não soa tão convincente em 2019. Sim, a modernidade avançou ainda mais, o panorama religioso não é mais o mesmo, as igrejas tradicionais perderam muito da influência que tinham sobre a opinião pública. Mas, apesar dos prodígios da ciência e da tecnologia, e das profecias de alguns filósofos, a razão iluminista não foi capaz de destituir completamente as divindades de seus postos. Neste início do terceiro milênio, a fé em forças transcendentes continua sendo um fator importante em diversos aspectos da vida social.

Não obstante essa relevância, o fenômeno religioso ainda é menos compreendido do que deveria. Ainda é comum, mesmo entre estudiosos de Ciências Humanas, a crença em mitos criados no século XIX para denunciar uma suposta oposição intrínseca entre religião e ciência (STARK, 2016; NUMBERS, 2010). Paralelamente, a tese weberiana do desencantamento do mundo — outro corolário da confiança iluminista na razão — ainda é vista, não raramente, como um processo natural e inevitável em um mundo em que viagens interplanetárias, aceleradores de partículas e terapia genética se tornaram parte da rotina. Isso apesar de pesquisas indicando que as crenças religiosas estão se tornando mais comuns, e não menos — ainda que nem sempre se trate de religiões tradicionais e institucionalizadas, como a Igreja Católica ou o protestantismo histórico (SHERWOOD, 2018).

No Brasil, um país marcado pela fé e pelo mágico desde os primórdios, modernidade e fé parecem conviver muito bem. Em plena capital federal, em 1904, João do Rio (2006) já mostrava a grande variedade de manifestações religiosas, que incluía dos swedenborguianos, maronitas e espíritas aos positivistas, evangélicos, judeus e “orixás”1, entre outros. Pouco tempo depois, a esse panorama seriam acrescentados umbandistas e evangélicos pentecostais, para citar apenas duas das correntes mais reconhecidas da religiosidade nacional. Saindo das capitais e rumando para o interior, esse conjunto se tornava ainda mais complexo, em parte graças à considerável flexibilidade do catolicismo popular brasileiro, sempre pronto a mesclas de toda ordem com simpatias, rezas fortes, peregrinações, santos declarados ao arrepio das autoridades eclesiásticas, adivinhações e sincretismos com tradições indígenas, africanas ou de outras origens.

A religiosidade, no entanto, é muito mais que uma peculiaridade antropológica. No Brasil e noutras partes, a religião tem sido também uma lente com a qual questões sociais e políticas são examinadas e enfrentadas, e um catalisador para propostas de mudança, tanto no sentido de um aprofundamento dos modernos valores democráticos e humanistas, como também, ao contrário, de sua rejeição. Para citar alguns exemplos muito notórios, era uma profunda religiosidade que movia líderes como Mohandas Gandhi e Martin Luther King em suas respectivas lutas por independência nacional e igualdade racial — como também o era a que inspirou o Aiatolá Khomeini na Revolução Iraniana e sua rejeição ao modelo de democracia liberal. Mais recentemente, tanto no Brasil quanto em países tão diversos quanto os EUA e os da África, igrejas cristãs têm sido atores de peso na definição de políticas públicas ligadas à educação, à saúde e aos direitos civis de mulheres e segmentos LGBTQIA+, e mesmo em áreas que, em princípio, não teriam relação direta com questões de moralidade e costumes — como na atuação da chamada “bancada evangélica” no Brasil, cuja influência tem crescido a cada eleição (DIP, 2018). Seja no campo mais conservador ou no mais reformista — e uma mesma denominação pode estar presente em ambos —, a religião informa, para dizer o mínimo, parte importante do debate público de boa parte das maiores democracias.

Nesta edição da TransVersos, apresentamos um mosaico de pesquisas sobre a influência religiosa na sociedade moderna, com destaque para sua relação com processos de contestação ou alteração da ordem social estabelecida, seja no plano individual ou na forma de movimentos organizados, sejam eles políticos ou intelectuais.

Abrimos com o artigo de João Felippe Cury Marinho Mathias, Estado laico e não secularizado no Brasil: uma reflexão à luz da história do protestantismo. O tema dialoga diretamente com o atual momento político brasileiro, notadamente a atuação da chamada bancada evangélica e a crescente visibilidade e influência das igrejas, as pentecostais e neopentecostais em particular, no cenário político nacional. Além disso, o autor discute dois conceitos fundamentais para o entendimento do papel das religiões nas sociedades contemporâneas: secularismo e laicidade, alvos frequentes de confusões semânticas e incompreensões políticas.

Em seguida, e ainda tratando do campo evangélico, Alexandre Cruz e Flávio Trovão assinam A educação entre a religião e a política: conservadorismo cristão e o homeschooling. Eles abordam as disputas em torno do ensino domiciliar nos EUA, no contexto das “guerras culturais” da década de 1980 — que hoje servem de inspiração para segmentos importantes da nova direita brasileira. Que papel os valores religiosos desempenharam numa causa que frequentemente envolve a contraposição entre direitos individuais, valores familiares e a legislação vigente sobre os direitos das crianças e jovens à educação? Neste momento em que as primeiras discussões sobre essa modalidade de ensino já despontam não apenas na sociedade civil brasileira, mas também na agenda do governo federal (PEREIRA, 2019), é uma leitura de grande interesse.

O terceiro artigo é A recepção da Gaudium et Spes pela Igreja no Maranhão: a libertação dos pobres como “horizonte de expectativas” em anos de repressão, de Sérgio Ricardo Coutinho. O artigo resgata um momento interessante do catolicismo brasileiro, em que, já sob o regime autoritário de 1964, a Igreja maranhense reinterpretou um documento conciliar à luz do entendimento de que a instituição deveria ter um papel no combate à miséria e às injustiças sociais que grassavam em um dos estados mais pobres do país. É um estudo de caso que não se furta a um produtivo debate teórico com o pensamento de um dos grandes filósofos do século XX, Jürgen Habermas.

O artigo seguinte trata das tradições indígenas. Mbyá Guarani em busca do Yvy Marãe”Y: múltiplos horizontes, diferentes perspectivas territoriais, trilhando sonhos e esperanças, de Rosalvo Ivarra Ortiz e Almires Martins Machado, apresenta a cosmologia Mbyá e sua utopia de uma “terra sem males”, que pode ter influenciado as migrações desse povo desde antes da chegada dos portugueses ao Brasil. Mais que isso, o artigo apresenta também uma discussão metodológica sobre o tratamento dado anteriormente ao tema, levantando questões sobre o uso de etnologias do século XX para preencher lacunas no conhecimento de séculos anteriores. Trata-se, pois, de uma contribuição de duplo alcance, tanto para especialistas nos estudos sobre as populações ameríndias quanto para os leigos interessados em conhecer melhor suas cosmologias, que historicamente sofreram tentativas de apagamento.

Em O caminho interior delas: Yoga, gênero e transformação social no Brasil, Maria Lúcia Abaurre Gnerre e Gustavo César Ojeda Baez resgatam a implantação e popularização dessa prática indiana ao país, nas décadas de 1960 e 70, apresentando-a como um meio de empoderamento das mulheres praticantes. Analisando os materiais de ensino do Yoga e as representações da mulher na iconografia que os ilustrava, bem como os depoimentos de algumas adeptas de relevo, o artigo apresenta uma interessante combinação de história religiosa do Brasil recente com um estudo sobre representações de gênero.

As várias faces da “guerra santa”: uma análise comparada da concepção de jihad do islã político ao jihadismo, de Dilton C.S Maynard e Ketty Cristina Lima Sá, é um estudo minucioso de um conceito que tem gerado discussões acaloradas no Ocidente, e mesmo no mundo islâmico, especialmente depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 e a subsequente “Guerra ao Terror”. Partindo do entendimento mais antigo acerca da jihad até os líderes intelectuais e políticos do que se costuma chamar de “fundamentalismo islâmico”, “islã político” ou simplesmente “islamismo” — tomado aqui não como a religião muçulmana, mas a ideia de que esta deve ser o supremo princípio organizador da sociedade —, o artigo apresenta uma história do conceito e de seus usos como instrumento político, da Irmandade Muçulmana nos anos 1920 à Al-Qaeda de Osama bin Laden. Trata-se, pois, de um tema fundamental para se entender a política internacional deste início de milênio.

Finalmente, encerrando o dossiê, Cecília da Silva Azevedo revisita o importante papel da religião nos protestos contra a Guerra do Vietnã, em Dissenso religioso nos EUA: experiências missionárias e o caso de Catonsville. Antes de focar em uma personagem específica, a freira Marjorie Melville, a autora dá um panorama do papel da religião na história norte-americana e da importância do dissenso religioso em particular. Logo após, acompanhando a história de Melville, ela passa pela Revolução Guatemalteca e o contexto da Guerra na América Latina para então chegar à onda de manifestações e campanhas de desobediência civil contra a intervenção dos EUA no Vietnã, incluindo aí a presença dos vários movimentos de contestação que floresceram nos anos 60. A história de Melville, portanto, acaba sendo o fio condutor de uma breve e intensa exploração por um dos períodos mais turbulentos da história da América Latina e dos EUA no século XX.

Na seção de artigos livres, Perspectivas da Lei 11.645-08 – origens, avanços e problemas, de Maria de Fátima Barbosa Pires, trata também de uma trajetória, mas, neste caso, de uma lei — a que estabelece a obrigatoriedade do ensino da temática indígena nas escolas brasileiras. A pesquisa apresenta a relevância da atuação dos movimentos sociais para que a lei viesse à luz.

Poetas de Escola: espaço de empoderamentos, territórios e identidades, de Leonardo Torres, Luiz Claudio Espírito Santo de Oliveira, Renato J. P. Restier Junior e Valquíria Farias, examina uma experiência educativa numa escola do subúrbio do Rio de Janeiro. Trata-se de um estudo sobre as experiências cognitivas e as percepções dos alunos durante uma atividade semanal envolvendo poesia — e também uma partilha de experiência preciosa para educadores.

Ramiro Ladeiro Monteiro e os musseques de Luanda: a antropologia a serviço do colonialismo português, de Rogerio da Silva Guimarães, aborda uma questão delicada: a relação entre a produção do conhecimento antropológico e o poder oficial que muitas vezes o patrocinou. No caso, trata-se do Império Português em Angola, representado por um antropólogo a serviço da metrópole, e as representações que construiu. Mais do que um caso particular, no entanto, trata-se de uma olhar interessante sobre a história da evolução da Antropologia ao longo do século XX.

Em História, polifonia e verdade em obras selecionadas de Svetlana Aleksiévitch, de Daniel da Silva Klein, trata da literatura da ganhadora do Prêmio Nobel de 2015 e seu uso da técnica da polifonia, criada por como Dostoiévski no século XIX e como ela dialoga com a historiografia e mesmo a teoria social ao dar aos personagens uma profundidade e uma autonomia incomuns. Assim, a fronteira entre ficção e realidade se tornam mais tênues diante da exploração das perspectivas de cada personagem.

Em Criando uma guerra à pobreza nos Estados Unidos: discussões preliminares no governo John Kennedy (1961-1963), Barbara Mitchell analisa os inícios de um dos marcos na história das políticas públicas norte-americanas no século XX: a Guerra à Pobreza de Lyndon Johnson (1963-1969), provavelmente a mais ousada tentativa de implementação de programas sociais que esse país conheceu. O artigo não se prende apenas a programas e políticos, no entanto, mas também explora as ideias que circulavam à época sobre a questão da pobreza e como ela poderia ser melhor combatida — recorte de um debate que, naturalmente, continua relevante, tanto nos EUA quanto fora dele. Uma contribuição importante para os estudos dos EUA no Brasil, e sobre os anos 1960 em particular.

Uma última palavra: iniciar a preparação de um novo número para uma revista acadêmica é sempre uma incógnita. Ao propormos o tema para o dossiê e ao abrirmos submissões de temática livre, nunca sabemos ao certo para onde o volume caminhará. Esse elemento surpresa é das coisas mais gratificantes nesse trabalho: a cada vez percebemos a força e a diversidade com que a pesquisa floresce no Brasil. Ao apresentarmos este número gostaríamos de agradecer à Revista TransVersos pelo convite, bem como às autoras e aos autores que se dispuseram a contribuir com seus artigos e, assim, a fazer parte desse projeto. Às leitoras e aos leitores da TransVersos oferecemos o resultado desse trabalho coletivo. Esperamos que o desfrutem tanto quanto nós ao prepara-lo.

Nota

  1. Termo que o autor utiliza para os seguidores do candomblé.

Referências

DIP, Andreia. Em nome de quem? A bancada evangélica e seu projeto de poder. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

DO RIO, João. As religiões no Rio. Apresentação de João Carlos Rodrigues. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006. (Sabor literário.)

NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia da Letras, 2011. p. 148.

NUMBERS, Ronald L. Galileo goes to jail and other myths about science and religion. Harvard University Press, 2010.

PEREIRA, Larissa. O que é homeschooling e o que considerar antes de decidir educar o filho em casa. Último Segundo. 27 / 02 / 2019. Disponível em: https: / / ultimosegundo.ig.com.br / educacao / 2019-02-27 / educacao-domiciliarbrasil-mp.html. Acesso em: 10 / 12 / 2019.

SHERWOOD, Harriet. Religion: why faith is becoming more and more popular. The Guardian. 27 / 8 / 2018. Disponível em: https: / / www.theguardian.com / news / 2018 / aug / 27 / religion-why-is-faithgrowing-and-what-happens-next . Acesso em: 10 / 12 / 2019.

STARK, Rodney. Bearing false witness: debunking centuries of anti-Catholic history. Templeton Press, 2016.

Rodrigo Farias de Sousa

Augusto Cesar Dias de Araujo

Rio de Janeiro, 15 de dezembro de 2019


SOUSA, Rodrigo Farias de; ARAUJO, Augusto Cesar Dias de. Apresentação. Revista Transversos, Rio de Janeiro, n.17, set. / dez., 2019. Acessar publicação original [DR]

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