Religião e sociedade: o espaço do sagrado no século XXI / História – Questões & Debates / 2005

Desde 2003, um grupo de pesquisadores, cujo tema central era a religião, as religiosidades e as instituições religiosas em suas mais diversas modalidades, começou a se reunir aos sábados para trocar informações, discutir teorias, abordar metodologias e explorar fontes e análises sobre o tema. No começo andávamos pela UFPR, pela PUC e por outros espaços sem nos incomodarmos com o conforto do lugar. Alguns se agregavam, outros abandonavam o grupo, até que no dia 20 de maio de 2004, num sábado pela manhã, resolvemos fundar o NÚCLEO PARANAENSE DE PESQUISA EM RELIGIÃO – NUPPER.

Com o objetivo de congregar pesquisadores para estudos e pesquisas multidisciplinares e multitemáticas em religião e suas derivações, o Nupper estabelecia uma programação composta de leituras, apresentação de trabalhos, realização de seminários, publicação de textos, entre outras atividades. Sua característica central é a pesquisa e a discussão de temáticas ligadas às instituições religiosas, religião e manifestações de religiosidades.

Ainda em 2004 realizamos o I Seminário Nacional sobre “Religião e Sociedade: o espaço do sagrado no século XXI”, com sessões de estudo e relatos de pesquisa que se estenderam por quatro meses, alternando terças-feiras no período da noite. Na continuidade, em 2005, organizamos o II seminário com o mesmo tema, concentrando suas atividades numa sexta-feira à noite e num sábado em período integral. Sentindo a demanda dos participantes e o anseio por um espaço para apresentação de pesquisas, neste ano de 2006 o III Seminário prevê a possibilidade de que um público maior apresente suas pesquisas.

Parte do resultado dessas pesquisas e das discussões está sendo agora apresentado neste dossiê. Como se pode observar, preserva-se o caráter abrangente dos temas, os quais, além das abordagens teóricas, revelam também as opções metodológicas de seus autores.

Doze pesquisadores em nove artigos nos instigam a pensar e a refletir sobre a historicidade das questões da religião e da religiosidade e suas permanências na contemporaneidade. Perpassa por estas temáticas um conceito central: O SAGRADO. Moojan Momen, no seu texto, parte da tese de que os seres humanos criam a realidade socialmente e de forma comunal, e que a estrutura social organizada hierarquicamente tem sido o padrão para os seres humanos, em especial os que vivem nas cidades. Examina as tentativas da comunidade bahá’í para mudar esta realidade e como os seus ensinamentos criticam este padrão, considerando-o responsável pela competição e agressão que atualmente afligem o mundo com doenças como guerras (devido à competição entre nações), degradação do meio ambiente (devido à competição empresarial), o domínio das elites sociais e as agressões em relação às mulheres, classes sociais inferiores e minorias étnicas. Euclides Marchi resgata algumas concepções de sagrado e procura verificar como elas se articulam com a prática da religiosidade. Ressalta que, apesar dos avanços e das conquistas da ciência, o sagrado e a religiosidade continuam presentes e se afirmam como formas de vivenciar a religião para significativa parcela da população humana. Uipirangi e Edilson mostram as diferentes abordagens sobre o protestantismo no Brasil, em especial quanto às peculiaridades de sua relação com o sagrado. Para isso, trabalham com o diálogo entre a História e as Ciências da Religião, privilegiando a abordagem de uma sociologia compreensiva, fundamentando suas idéias nas teorias de Maurice Halbwachs e Paulo Barreira. Vera Irene aborda algumas questões do universo das práticas religiosas tidas como populares e suas representações simbólicas do sagrado, dando destaque para o trânsito contínuo e intenso entre o institucional e o desclericalizado. Usa como exemplo as Folias de Reis, a Festa do Divino Espírito Santo e o Círio de Nazaré, as quais, além de revelarem um rico campo de investigação, também permitem perceber nela uma forma de expressão da fé. Roseli Boschilia elucida a aposta feita pela Igreja Católica na juventude como a camada social capaz de viabilizar o projeto reformista e como a educação constitui um mecanismo eficiente para frear os avanços da modernidade. Reflete sobre a política implementada pela Igreja Católica ultramontana na construção de um discurso em que o jovem aparece como o depositário das esperanças de sedimentação de valores e costumes, elegendo-o como um dos elementos capazes de evitar as mudanças e manter a tradição. Sylvio Gil e Sérgio Junqueira discutem, a partir de uma perspectiva histórica, a crise epistemológica do ensino religioso no contexto educacional do Brasil. Explorando o debate recente e o redimensionamento do objeto da disciplina “Ensino Religioso”, apresentam a discussão do pensamento e a análise do discurso religioso mostrando que a escola é um espaço privilegiado para a compreensão do sagrado em nossa sociedade. Agemir Carvalho e Valdinei Ferreira trazem sua contribuição por meio de um estudo que tem como objetivo identificar as raízes da cooperação entre as igrejas evangélicas de Curitiba, as quais remontam às missões norte-americanas e ao movimento unionista. Usam como exemplos desta cooperação a Sociedade Evangélica Beneficente e a Campanha Pró-Hospital Evangélico, cuja construção e sucesso no trabalho voltado para a sociedade são considerados como aspectos da identidade evangélica e como a face filantrópica e moderna dos evangélicos paranaenses. Victor Augustus nos apresenta a análise dos efeitos de sentido do discurso “Admoestações”, de Francisco de Assis, ressaltando o contexto sócio-religioso por ele vivido, o esforço para transformá-lo e o novo mundo que almejava construir na sociedade urbana medieval de sua época. Busca compreender a atualidade de Francisco, homem do século XIII, considerando-o como fundador de um discurso e como exemplo de perfeição cristã a partir de um modo de vida de pobreza voluntária e de serviço aos excluídos sociais. Névio Campos analisa a trajetória, os debates e os projetos dos intelectuais católicos leigos em torno da temática educativa à luz do contexto histórico paranaense entre os anos de 1920 e 1930. Mostra o processo de constituição do grupo, as suas interlocuções com as vertentes teóricas e filosóficas, as suas idéias e intervenções culturais, suas relações com o Estado e com os grupos políticos no cenário paranaense. Apoiando-se nos periódicos escritos e dirigidos pelo grupo, ressalta as contribuições do laicato ao projeto romanizador da Igreja Católica.

Cabe um agradecimento especial aos demais companheiros do Nupper, que colaboram para que o núcleo continue crescendo e se consolide como um espaço de pesquisa, discussão e troca de experiências. Àqueles que, embora participando ativamente de todas as atividades, não estão relacionados neste dossiê, gostaríamos de ressaltar que sua ausência é mera circunstância do acaso. Não faltarão oportunidades para que apresentem seus trabalhos.

Euclides Marchi – Membro do NUPPER


MARCHI, Euclides. Apresentação. História – Questões & Debates. Curitiba, v.43, n.2, jul./dez., 2005. Acessar publicação original [DR]

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