Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres. Rosa Luxemburgo

O Convite à propositura desse dossiê se nutriu da tarefa político-acadêmica desafiadora de honrar a memória da revolucionária judia-polaco-alemã Rosa Luxemburgo, assassinada pelas mãos do partido socialdemocrata alemão, em 15 de janeiro de 1919, em Berlim, Alemanha, aos 47 anos de idade.

Sobre o assassinato de Rosa Luxemburgo, George Lukács assim analisa:

Teoricamente, ela previu a derrota da insurreição de janeiro muitos anos antes de seu acontecimento; taticamente ela a previu no instante da ação. O fato de ter apoiado as massas e partilhado de sua sorte nessas condições é uma consequência totalmente lógica da unidade da teoria e da práxis na sua ação, tanto quanto o ódio que lhe havia declarado a justo título seus assassinos, os oportunistas da socialdemocracia. (LUKÁCS, 2003, p. 132):

No centenário de sua morte, perguntamos: por que nos dedicarmos a trazer luz à vida de Rosa, ao seu pensamento, aos seus escritos, artigos, brochuras e cartas? Talvez possamos ousar antecipar algumas respostas. Porque vivemos em um tempo em que a centelha a faiscar reluzente da práxis revolucionária de Rosa Luxemburgo ainda é um convite à ação, ao contragolpe, à luta coletiva, necessária para o enfrentamento das opressões do presente e preparação de outros tempos. Sobretudo, à construção de um (outro) projeto de ação política no Brasil.

E essa foi a pretensão do Dossiê sobre Rosa Luxemburgo: dialogar com a perspectiva incandescente e revolucionária de seu pensamento / ação, de sua biografia, da recepção de seus escritos na América Latina e no Brasil.

Assim, no lastro do centenário do assassinato da revolucionária marxista judia-polaca-alemã, em janeiro de 2019, Rosa Luxemburgo se faz presente e a centelha de sua trajetória revolucionária não cessa de nos convocar à ação política e à organização coletiva. Em tempos tão duros, nos quais a barbárie cotidiana e a inação parecem estar se tornando não uma escolha, mas uma condição quase inexorável do capitalismo em sua fase imperialista aguda, a memória de Rosa nos impele à ação política e pedagógica na vida cotidiana. Esta barbárie exibe o escárnio de seus frutos, especialmente através das ofensivas do capital financeiro na América Latina e Brasil, país onde o golpe de 2016, além de depor uma presidenta legitimamente eleita, colocou no poder grupos que representam interesses combinados entre as elites nacionais e internacionais do capital.

Nos escritos que refletem e refratam as ações de Rosa Luxemburgo, encontramos profícua contribuição para se pensar e agir na contemporaneidade e a tudo que nela se apresenta como inelegível. Como uma caixa de ferramentas, o trabalho político e militante de Rosa Luxemburgo, seus artigos, suas aulas nas escolas do partido e suas cartas são possibilidades inesgotáveis para os diversos campos das Ciências Humanas e Sociais, da Economia Política, da Educação em seus diferentes prismas, dos Estudos Feministas, dos Estudos Marxistas, da práxis revolucionária, dentre outros.

No presente Dossiê, composto por oito artigos de diferentes matizes e uma resenha, propomos o desafio ao adensamento compreensivo na atual conjuntura brasileira como pântano que se espraia na vida social. Parece-nos revolucionário e extremamente necessário revisitar o legado de Rosa Luxemburgo, ainda tão pouco conhecida entre nós, especialmente nos estudos sobre educação e formação política.

No artigo de Marcia Soares de Alvarenga, a autora rememora as greves docentes de 1979 e se dedica a buscar aproximações entre o centenário do assassinato de Rosa Luxemburgo em Berlim, em 1919, e os 40 anos do ciclo de movimentos de greve organizados pelos docentes da rede pública estadual do Rio de janeiro.

As autoras Lisanil da Conceição Patrocínio Pereira e Maria do Horto Salles Tiellet rememoram, no artigo “A produção do conhecimento à luz do pensamento revolucionário de Rosa Luxemburgo”, a contribuição desta pensadora judia-polaco-alemã que, desde sua juventude, se posicionou contra a rigidez burocrática e todas as formas de opressões de seu tempo. As autoras fazem um balanço bibliográfico sobre o legado de Rosa Luxemburgo como uma importante chave de leitura para a compreensão e superação dos ataques aos direitos sociais e à educação pública.

No artigo “Diálogos de uma feminista com a obra de Rosa Luxemburgo: contribuições às lutas sociais de mulheres rurais”, Gema Galgani Silveira Leite Esmeraldo instiga a refletir acerca das contribuições de Rosa Luxemburgo sobre elementos constitutivos da economia política capitalista que, como afirma a autora do artigo, são reatualizados e agudizados nos tempos contemporâneos pela voracidade do sistema capitalista na América Latina. Para a autora, Rosa Luxemburgo é uma das primeiras teóricas marxistas a argumentar que as vertentes do econômico e do político ressignificam e tencionam as formas de dominação, bem como as formas de resistências que as mulheres rurais produzem em seus territórios.

Adriana Alves, Ana Lúcia Goulart de Faria e Daniela Finco, no artigo “Lute como uma menina! O verbo é lutar desde o nascimento na vida de meninas”, traduzem para nosso tempo histórico a consigna “lute como uma menina” como um modo de referenciar a filósofa militante Rosa Luxemburgo, evidenciando a atualidade e força das suas ideias, em especial, nos movimentos sociais de resistência de jovens meninas e mulheres contra as diversas formas de violências de gênero disseminadas no cotidiano brasileiro.

Em “Hannah Arendt e Rosa Luxemburgo desencontros da revolução”, Marcela da Silva Uchôa analisa as peculiaridades e contradições presentes nos percursos políticos de Rosa Luxemburgo e Hannah Arendt. Como pensadoras que viveram em tempos barbárie, ambas as filósofas tecem, na práxis política, uma trajetória na defesa de uma concepção revolucionária de sociedade que não só repensasse as estruturas políticas vigentes em seus respectivos contextos históricos e políticos, enfrentando as críticas dentro dos círculos políticos nos quais se inscrevem.

No artigo de Jéssica Antunes Ferreira “O que de Rosa há em Pagu? Influxos revolucionários feministas no Brasil”, a autora considera o impacto que pensadoras revolucionárias tiveram sobre a formação político-ideológica da modernista, da pensadora, escritora e intelectual militante brasileira Patrícia Galvão, a Pagu. As obras da revolucionária polonesa influenciaram o pensamento político de Pagu, a qual, de acordo com críticos literários, pode ser considerada uma espécie de Rosa Luxemburgo brasileira, observando, é claro, suas particularidades de pensamento e de atuação política em um determinado contexto histórico, político e social.

Por sua vez, Ana Valéria Dias Pereira e Maria Beatriz Lugão, no artigo “Rosa para as Marielles”, buscam atualizar o feminismo revolucionário de Rosa Luxemburgo nas lutas cotidianas em defesa da democracia e contra os projetos neoconservadores em curso no Brasil, tendo como metáfora Marielle Franco, uma Rosa, vereadora carioca brutalmente assassinada, junto ao seu motorista Anderson Gomes, cujas vozes, em todo país ecoam na pergunta: quem foi ou foram os mandantes de suas mortes?

O artigo de Matheus Albuquerque tem por objetivo discutir a aplicação, na atualidade, da obra da filósofa, economista e militante revolucionária polonesa Rosa Luxemburgo (1871-1919). Como diz o autor, “A hipótese levantada é a de que a autora se faz atual em dois eixos: na insuficiência das reformas para a emancipação da humanidade em sociedades capitalistas e na necessidade construir movimentos revolucionários radicais, internacionalizados e com constante relação entre a base e a vanguarda”. A presença forte do pensamento em movimento social de Rosa mostra-se atual para nosso tempo histórico.

A contribuição de Fernanda Chaves Vasconcelos no artigo “A construção da identidade e da subjetividade do sujeito ‘trabalhador’ a partir das concepções de Rosa Luxemburgo” foi o de pensar a subjetividade do trabalhador, sua construção e disseminação na sociedade, tendo como ponto de partida o processo de industrialização brasileira, focalizando as leis trabalhistas promulgadas por Vargas sob interpretação socialista, principalmente a partir do pensamento de Rosa Luxemburgo.

Ainda no presente dossiê, Rita Fraga Machado e Emila Andrade resenham a obra “Reforma ou Revolução?” escrito por Rosa Luxembugo em fins do XIX. Trata-se de uma crítica sistemática ao pensamento reformista de uma ala dentro do seu partido, o Partido Socialista alemão, especialmente na luta contrária ao revisionismo de Eduard Bernstein, que reposiciona a estratégia da revolução social pela democratização do capitalismo. As autoras argumentam que, no centenário do assassinato de Rosa Luxemburgo, uma forma de homenageá-la é fazer resenhas e reatualizando sua obra, reavivando o potencial revolucionário de sua ação de intelectual militante.

Pretendemos com a proposta do Dossiê ressaltar a estatura intelectual e política de Rosa Luxemburgo, a atividade da militante e a vigorosidade de sua “pedagogia da ação”, cujo princípio ancorado na autoeducação das classes subalternas é inseparável da própria luta e ação revolucionárias.

Assim, os artigos que compõem o dossiê revisitam obras da revolucionária Rosa Luxemburgo, mulher, professora da escola de trabalhadores e trabalhadoras, no período de 1909 a 1913, revigorando sentidos da educação pública, da profissão docente, dos movimentos sociais de mulheres do campo e da cidade, tomados como ação política, amorosa e militante.

Assumimos em diálogo com as autoras que o reencontro com a práxis revolucionária de Rosa pode oportunizar aos trabalhadores e às trabalhadoras, desde a escola básica à universidade, enlaçada os aos movimentos sociais, um novo alento num tempo no qual o “ovo da serpente” do projeto em curso, “Escola sem Partido”, dentre outros, busca destituir os espaços educativos de sua potência política e criativa.

É de Rosa Luxemburgo, mulher militante, ativista lúcida e apaixonada, uma das mais brilhantes pensadoras e intérprete da ação do marxismo revolucionário, que a proposta do Dossiê se animou a produzir.

Pretendemos no centenário de morte de Rosa trazê-la viva e vibrante como uma centelha para as lutas em curso no Brasil e na América Latina. Irmos ao seu encontro, adensarmos nossas compreensões sobre sua “pedagogia da luta coletiva”, acompanhála em seus pensamento e análises fecundas sobre a história das opressões em suas continuidades. Saber sobre a sua teoria revolucionária na qual se acenderia a centelha da consciência dos explorados do mundo, consciência esta, para Rosa, que faria brotar a autoeducação necessária à revolução, à libertação das amarras das opressões que impedem a vida plena, digna e solidária numa sociedade realmente de e entre iguais.

Em um tempo em que a barbárie é vizinha da vida sem opressões, é preciso (re)encontrar Rosa Luxemburgo, a nossa Rosa Vermelha, para que a sua expressão visionária e convocatória do “Socialismo ou Barbárie”, desde os seus escritos mais originais, e profundamente atuais, longe de se verterem em tese ortodoxa, se ofereçam como um convite pleno de possibilidades. Isto, porque, o mais importante à esta convocação é o adjunto “ou”.

Rosa nos alerta que os ritmos da História ressonam dialeticamente, que caminhos estão sempre abertos para a força da ação, informados que são por fatores objetivos e subjetivos. A pedagogia da ação de Rosa Luxemburgo nos encaminha a educar a (auto)consciência, a vontade rumo à práxis revolucionária, pois, “Amanhã, a revolução ‘tornará a se levantar, com canglor de armas’, e proclamará ao som das trombetas: eu era, sou e serei” (Rosa Luxemburgo, apud EVANS, 2017).

Ressaltamos que a proposta dos artigos que compõem este Dossiê trata-se de um convite às mulheres e aos homens ao encontro do pensamento de Rosa Luxemburgo e ao seu socialismo revolucionário.

Desejamos a todas e todos uma boa leitura.

Referências

GALEANO, Eduardo. Bocas do tempo. Tradução Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM POCKET, 2018.

EVANS Kate. Rosa Vermelha. Uma biografia em quadrinhos de Rosa Luxemburgo. São Paulo: Martins Fontes, 2017

LUKÁCS, George. História e Consciência de Classe. Estudos sobre a dialética marxista. São Paulo: Editora WMF e Martins Fontes, 2003.

Marcia Soares de Alvarenga – Professora Doutora (UERJ / FFP)

Maria Tereza Goudard Tavares – Professora Doutora (UERJ / FFP)

Rita Fraga Machado – Professora Doutora (PPGEDU / UEA)

Organizadoras


ALVARENGA, Marcia Soares de; TAVARES, Maria Tereza Goudard; MACHADO, Rita Fraga. Apresentação. Historiae, Rio Grande- RS, v. 10, n. 1, 2019. Acessar publicação original [DR]

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