O dossiê Tempos do Sagrado que a Revista Brasileira de História ora publica responde ao crescente interesse demonstrado pelos historiadores por temas relacionados à religião e religiosidade. Prova disto é o fato de duas importantes revistas da área — Tempo e Estudos de História — terem organizado recentemente edições em torno dessas questões. A contribuição de nossa revista se apresenta marcada por uma particularidade: as temáticas abordadas, sempre baseadas em pesquisas originais se estendem por diversos tempos históricos, entre os séculos XIII e XX.

Os três primeiros artigos formam um grupo dedicado a pensar os conflituosos encontros entre, de um lado, europeus católicos e, de outro, indígenas, negros e judeus. Fernando Torres Londoño analisando as cartas escritas pelos missionários a seus superiores, no eixo formado por Portugal, Itália, Índia e Brasil, mostra como foi construído e definido o projeto jesuítico missionário para a evangelização dos indígenas, com base nos escritos de Santo Inácio de Loyola. O texto de Alisson Eugênio discute as vivências culturais de negros que se associavam em irmandades religiosas em Minas Gerais do século XVIII, desvendando as tensas relações entre a Igreja e as irmandades negras, atravessadas por uma complexa gama de práticas, que iam das negociações às ameaças, especialmente no referente aos recursos financeiros para as festas. O artigo de Ângelo Adriano Faria de Assis, tomando a Visitação do Santo Ofício, entre 1591 e 1595, pesquisa as resistências judaicas no Brasil colonial do século XVI. Demonstra como, entre os neoconversos, as mulheres — tornadas guardiãs das tradições religiosas após a proibição do exercício público do culto judaico — foram as principais acusadas pela Inquisição.

Segue-se o estudo de Néri de Almeida Souza que analisa a Legenda aurea (coletânea de 182 legendas baseadas em vidas de santos e em mistérios do ano litúrgico cristão), organizada a partir de diversas fontes pelo dominicano Jacopo de Varazze, no século XIII. A autora enfatiza as diferenças entre a cultura religiosa erudita escrita pelos grandes teólogos e seus leitores muito menos instruídos, situando Jacopo de Varazze no quadro dessas disputas. Fechando o dossiê, Etiane C. B. de Souza e Marion B. de Magalhães apresentam os movimentos pentecostais latino-americanos na atualidade. Indicam como tais movimentos exerceram forte atração sobre as camadas mais pobres da população, de forma a inaugurar uma prática religiosa singular. Também discutem as relações particulares entre os pentecostais e o mundo da política institucionalizada.

Cinco outros artigos sobre temáticas diversas e originais completam esta edição. O estudo de Hendrik Kraay analisa o recrutamento de escravos e de homens de cor livres ou libertos para fazer parte das forças que lutaram contra os portugueses na Bahia, em 1822 e 1823. O artigo também apresenta a participação desses soldados negros no Levante dos Periquitos, em 1824, e a repressão por parte do governo imperial. O texto de Johnni Langer refere-se à construção do mito da cidade perdida da Bahia, a mais conhecida fábula arqueológica do Brasil. Esta se inicia com a entrega ao IHGB de um manuscrito encontrado por Manuel Ferreira Lagos, na Livraria Pública da Corte, em 1839, que discorria sobre a descoberta de minas de prata no interior da Bahia, no século XVI. O artigo de Vânia Maria Losada Moreira estuda o impacto da Lei de Terras de 1850 sobre os direitos territoriais indígenas. Trabalhando com o Espírito Santo, mostra como a Lei propicia a expulsão das populações de índios de suas terras, fechando-lhes praticamente todas as alternativas de acesso à propriedade. O artigo de Micol Seigel e Tiago de Melo Gomes trata do desalojamento, em 1889, de uma quitandeira, a Sabina das Laranjas, da porta da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, lugar em que costumava trabalhar. Apresentando a reação em favor da mulher por parte dos estudantes, os autores discutem as práticas cotidianas raciais e de gênero. O artigo de Luis Fernando Cerri está centrado nas relações entre propaganda, política e ensino de História. Escolhendo peças publicitárias de instituições públicas e privadas durante a ditadura militar brasileira, particularmente durante o chamado “milagre econômico”, o autor analisa esses anúncios e os toma como ponto de partida para ouvir pessoas comuns em torno da questão da identidade nacional. Este número traz, ainda, um conjunto de resenhas que, sem dúvida, serão do interesse do leitor.

Um mea culpa se faz necessário. No último número da RBH, por razões técnicas, foram omitidos, na relação dos nomes que compõem nosso Conselho Consultivo, os dos professores Luís Reis Torgal e Serge Gruzinski que, no entanto, continuam a nos honrar com seu apoio. Erro corrigido nesta edição.

Finalmente agradecemos, mais uma vez, ao CNPq pelo auxílio recebido, sem o qual esta publicação não seria possível.

Conselho Editorial


Conselho editorial. Apresentação. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.22, n.43, 2002. Acessar publicação original [DR]

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