É lugar comum a constatação de virada epistemológica a que foi submetida as ciências históricas no século passado tipificado na apropriação de novas abordagem, novos objetos, e novos problemas (LeGoff & Nora, 1988), exigindo novos exercícios teórico s e metodológicos para o sabre e o fazer históricos.

Em 1985 a professora Sandra Pesavento dava conta de que oitenta por cento do que se fazia em história no Brasil era em diálogo com a história cultural. Isto pode significar uma demarcação identitária para a historiografia brasileira, mas não deixa de acender um sinal de alerta, no sentido de submeter todo e qualquer objeto a um paradigma comum de análise, como, por exemplo, na crítica que Gomes (2002) faz sobre as relações desta com a historiografia religiosa.

Este número de nossa revista dedicou-se a teoria e o método, notadamente na sua aplicação a objetos potencializados dentro da história como a literatura e a imagem. No texto do Dr. Cabral Filho são discutidas possibilidades teóricas e metodológicas do uso da imagem fotográfica no trabalho historiográfico, a partir de uma revisão na literatura selecionada, com vistas a indicar a importância de tratar as imagens fotográficas como indícios históricos que, pelo apelo visual que lhes é inerente, são potencialmente capazes de redimensionar a interpretação dos eventos sob análise do historiador, onde os homens, as cidades, os objetos e as paisagens dão a ver de modo que o passado quase que pode ser tocado no presente.

Dois trabalhos, do Dr. Gervácio Batista e de Benjamim Montenegro nos quais a problemática é a relação com a literatura. O primeiro pondera sobre a presença de uma determinada técnica de composição que se apresenta nas crônicas de jornalismo literário do escritor inglês Charles Dickens. Voltado a supressão das fronteiras entre texto e imagem, aquele autor elaborou um meticuloso e preciso estilo de interpretação da vida urbana na Londres vitoriana, pautado em uma postura indiciária, não explorada satisfatoriamente nas investigações dos historiadores.

Na segunda interpelação sobre literatura e história, Montenegro busca identificar relações entre história e literatura ficcional “do ponto de vista da recorrência a imagens literárias recortadas pelo historiador” quando se elege uma fonte sensível às vivências cotidianas de outro tempo, e por ela o historiador se dedica a exploração, da condição humana, dentre outras sensibilidades. Do ponto de vista operativo a abordagem é propositiva no sentido de indicar como os textos ficcionais são documentos como quaisquer outros, e a universalidade dos gêneros literários para tal fim e a possibilidade de recorrência aos Romances históricos tomados como documentos de epocais no âmbito do diálogo história e literatura.

O Dr. João Marcos Leitão se volta ao esforço de resgatar a perspectiva história dos primórdios dos tempos modernos, trazendo a baila uma perspectiva da concepção de história de Nicolau Maquiavel, pouco referido como historiador, dada a “paternidade da política moderna” que lhe foi atribuída, enfatizando sua contribuição a politologia em detrimento da questão histórica.

O Dr. André Figueiredo apresenta um exercício de metodologia no tratamento da Inconfidência Mineira a partir da apresentação da documentação selecionada, se dedica a indicar a recorrência do sequestro de bens, apontado como relevante recurso analítico por se constituir uma fonte privilegiada para a compreensão dos mecanismo em operação na Inconfidência Mineira.

Fecha este número dois artigos na seção de fluxo contínuo. Um do Dr. Aldenor Alves Soares voltado a um estudo do presente na análise que faz de um conflito havido da Igreja Anglicana do Brasil, na diocese do Recife, em torno da questão da sexualidade, e o de Muriel Diniz, tratando da história política da Paraíba no século XVIII, da perspectiva das relações entre a igreja e do Estado a partir da biografia do padre Antônio Soares Barbosa envolto nas relações políticas que margearam o governo e interesses privados nas Capitanias de Pernambuco e Paraíba

Este número tem uma peculiaridade: reflete parte das discussões que têm aparecido no âmbito da Pós-Graduação em História da UFCG, pela contribuição dos seus docentes, na história política, na literatura, na imagem, etc. A aparência de um dossiê doméstico, a aparência apenas, vai revelar ao leitor num espaço menos disperso, as possibilidades de interlocução com paradigmas diversos e proposições de investigações criativas.

Boa leitura a todos!

João Marcos Leitão Santos – Doutor. Editor


SANTOS, João Marcos Leitão. Apresentação. Mnemosine Revista. Campina Grande, v.3, n.2, jul. / dez., 2012. Acessar publicação original [DR]

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