Datas. Mas o que são datas?

Datas são pontas de icebergs.

Alfredo Bosi

A revista Anos 90 – cujo título é uma referência à década em que foi criada – prossegue, pelo século XXI adentro, com seu objetivo de contribuir para o debate qualificado sobre temas e questões teóricas, metodológicas e historiográficas relevantes ao campo do conhecimento histórico. Neste número, apresentamos dois dossiês que aludem a datas bastante lembradas em 2004: o cinqüentenário do suicídio de Getulio Vargas e os vinte anos do falecimento de Michel Foucault. Poderíamos acrescentar ainda, à lista dos eventos motivadores de nossos dossiês, a morte de Leonel Brizola, ocorrida também em 2004.

Pensando em tais datas como “pontas de icebergs”, queremos convidar nossos leitores a refletirem, inicialmente, com Angela de Castro Gomes, Lucia Hippolito e João Trajano Sento-Sé, sobre os diversos “trabalhismos” que, na esteira do legado de Vargas, encontraram em Brizola seu último grande representante. A seguir, na trilha dos “jogos e diálogos” sugeridos por Durval Muniz de Albuquerque Júnior, Fernando Nicolazzi e José Carlos dos Anjos, propomos que atentem para os desafios colocados pela obra de Foucault aos historiadores e as suas convergências e divergências com o pensamento de E. P. Thompson e o de Pierre Bourdieu.

Os demais artigos abordam facetas e temáticas distintas e instigantes do conhecimento histórico. Roberto Wu e Enrique Serra Padrós examinam questões teórico-metodológicas referentes, respectivamente, às noções de experiência e tradição em Benjamin e Gadamer e aos desafios da chamada história do tempo presente. Eliane Cristina Deckmann Fleck apresenta as reduções jesuítico-guaranis do século XVII como um espaço de reinvenção de significados, tendo em vista a apropriação seletiva e criativa e a ressignificação de expressões da cultura indígena guarani e da cultura cristã ocidental. Marcelo Basile trata de revoltas ainda pouco conhecidas ocorridas na Corte no período regencial brasileiro. Renato Amado Peixoto realiza um criativo exercício de análise da Carta Niemeyer de 1846, a primeira Carta Geral do Brasil, discutindo a leitura dos produtos cartográficos pelos historiadores. Ricardo Luiz de Souza investiga as noções de tradição, identidade nacional e modernidade na obra de Joaquim Nabuco. Finalmente, Letícia Borges Nedel enfoca as disputas de memórias relacionadas ao “herói missioneiro” Sepé Tiaraju.

Como os leitores poderão notar, a revista apresenta um novo projeto gráfico, fruto da criatividade de Daniel Clós e da contribuição do talentoso cartunista Santiago, a quem agradecemos. Agradecemos igualmente às profissionais de Letras Nara Widholzer, que revisou os textos, e Marília Marques Lopes, que traduziu os títulos para o inglês e revisou os abstracts; aos alunos Evandro dos Santos e Sandro Gonzaga, pelo apoio na organização da revista; à Pró-Reitoria de Pesquisa da UFRGS, na pessoa da Pró-Reitora Marininha Aranha Rocha, pelo imprescindível auxílio financeiro, através do programa de apoio à editoração de periódicos; e aos pareceristas ad hoc dos artigos enviados para este número, Eliane Colussi (da UPF), João Adolfo Hansen (da USP), Carla Brandalise, Carla Simone Rodeghero, Céli Regina Jardim Pinto, Cesar Augusto Barcellos Guazzelli, José Augusto Avancini, Paulo Vizenti, Regina Célia Lima Xavier, Temístocles Cezar e Benito Schmidt (da UFRGS).

Desejo a todos uma boa leitura…

Benito Bisso Schmidt – Editor.


SCHMIDT, Benito Bisso. Apresentação. Anos 90, Porto Alegre, v.11, 19 / 20, jan. / dez., 2004. Acessar publicação original [DR]

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