O dossiê Viagens e Viajantes está composto por cinco artigos. Desnecessário afirmar a relevância e o interesse do tema para a área de História. Todos os artigos se apóiam em relatos ou diários de viajantes que visitaram diversas partes do mundo, do Brasil à Austrália. A construção das diferenças e o sentimento de estranhamento compõem diálogos identitários reveladores e instigantes.

O cerne das análises dos autores, no entanto, difere. Regina Horta Duarte e Andréa Doré mostram o olhar estrangeiro que elabora uma visão “de fora” sobre o interior do Brasil no século XIX, no primeiro caso, e sobre a Índia no século XVI, no segundo. Valéria Salgueiro mostra como no século XVIII se inauguram os fluxos de viagens por prazer, que, segundo a autora, se constituem nas matrizes do turismo de lazer e de cultura no presente. Luis Lima Vailati busca a contribuição dos relatos de viajantes para entender os temas da infância e da morte no Brasil do século XIX. Alistair Thomson trabalha com as contribuições da História Oral para os estudos da migração, particularmente entre a Grã-Bretanha e a Austrália, indicando a importância dos relatos pessoais para se entender os problemas sociais das migrações na atualidade.

Os demais artigos deste número, ainda que bastante particulares em suas temáticas, apresentam muitos pontos de contato. O texto de Roney Cytrynowicz polemiza com a historiografia sobre o anti-semitismo no período do Estado Novo. Mostra como a comunidade judaica engendrou estratégias sofisticadas para enfrentar a lei e a ideologia daquele período. Helenice Rodrigues da Silva discute, pensando sobre o Brasil, o valor simbólico das comemorações nacionais e os processos de construção e de transmissão de uma memória social. Ainda na trilha das comemorações nacionais, Thaís de Lima e Fonseca toma a Inconfidência Mineira e a figura de Tiradentes para analisar as apropriações da imprensa, entre as décadas de 1930 e 1960, do mito do herói e de seu “sacrifício” insistentemente associado a supostos herdeiros.

Carla S. Rodeghero faz uma análise comparativa das perspectivas católicas anti-comunistas no Brasil e nos Estados Unidos no período da Guerra Fria, mostrando as diferentes formas que elas assumem nos dois países. Mariana Martins Villaça também escolhe a comparação, enfocando as ligações entre o Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos e o cineasta Glauber Rocha, analisando ainda, a repercussão de sua obra entre os cineastas cubanos nas décadas de 1960 e 1970. O artigo de Ricardo de Oliveira reflete sobre as conflituosas relações entre os conceitos de sertão e de nação na monumental obra de Euclides da Cunha, Os Sertões, no centenário de sua publicação.

As resenhas algumas solicitadas pelo Conselho Editorial e outras enviadas pelos sócios também serão, sem dúvida, do maior interesse dos leitores.

Para finalizar, agradecemos ao apoio da FAPESP que contribuiu para a publicação deste número da RBH.

Conselho Editorial


Conselho editorial. Apresentação. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.22, n.44, 2002. Acessar publicação original [DR]

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