Calçadas de Porto Alegre e Beijing | Airton Cattani, César Bastos de Mattos Vieira e Lu Ying

Cesar Vieira Calçadas
César Bastos de Mattos Vieira | Foto: PROPUR/UFRGS

Calcadas de Porto Alegre e de Beijing CalçadasUM OLHAR ATENTO

O livro foi editado para documentar a exposição fotográfica Projeto Calçadas: Porto Alegre-Beijing, que ocorreu nos últimos meses de 2019, no Campus Central da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre e, quase simultaneamente (com uma diferença de dias), no Advertising Museum da Communication University of China (CUC), em Beijing. A exposição (e o livro) é o resultado de uma missão acadêmica, intermediada pelo Instituto Confúcio, que professores brasileiros da UFRGS realizaram junto à CUC, na China, em outubro de 2018. Embora a edição impressa esteja esgotada, a versão digital pode ser acedida no sítio web da editora.

Airton Cattani, um dos organizadores do livro e da exposição, arquiteto e professor da Faculdade de Arquitetura da UFRGS, vem trabalhando com a temática das calçadas em Porto Alegre desde 2007, quando da exposição fotográfica Olhe por onde você anda: calçadas de Porto Alegre, que também foi documentada em livro. Essa obra ganhou versão em língua espanhola especialmente para a exposição Mira por donde andas: aceras de Porto Alegre, realizada no Centro de Estudos Brasileiros da Embaixada do Brasil no México, em 2008. Em sua trajetória, Cattani desenvolveu um olhar atento ao registrar a beleza e poesia das texturas, brilhos, formas, padrões e cores das calçadas urbanas, indo além de imagens com características turísticas. Este foi o motting passado aos estudantes dos cursos da Faculdade de Arquitetura da UFRGS e de Design da CUC e que vemos no livro: um registro fotográfico sensível das calçadas de Porto Alegre e Beijing que alimentam e formam um background estético e diferenciado para futuras aplicações tanto na arquitetura quanto no design.

A fotografia documenta a História desde o final do século XIX, tendo sido liberada das limitações das Belas Artes para se tornar uma técnica democrática, um meio popular de substituir o mundo, a realidade, como testemunho imediato. Se, no seu início, o uso da fotografia ofereceu uma nova oportunidade técnica, atualmente, seu uso e suas leituras possíveis caracterizam a própria percepção pós-moderna, fragmentada, isolada, descontextualizada (Berger, 2003). Mas, a fotografia traz embutida as escolhas do autor e todo o contexto no qual foi concebida, idealizada, forjada ou inventada.

Livros como este são cortejados pelo público que é, em geral, formado por aficionados pelo design, arquitetura e, porque não dizer, das artes plásticas, pessoas que lançam mão da fotografia para captar imagens de um cotidiano que muitas vezes nos passam despercebidas. Esta publicação descortina as possibilidades estéticas das coisas comuns presentes no dia-a-dia, quando caminhamos pelas ruas em direção ao trabalho, à escola ou ao mercado e apresenta ao leitor visões particulares de temas presentes no mundo das artes: geometrias e abstrações.

A obra está organizada em quatro partes. Inicia com as mensagens do corpo diretivo da UFRGS e dos organizadores nos três idiomas: português, inglês e chinês; em seguida apresenta os nomes dos estudantes que participaram em cada país; as fotografias em si; e, na parte final, as informações sobre a vida profissional dos três organizadores. As mensagens dos membros da academia introduzem o que iremos ver a seguir e destacam a importância dos projetos de extensão, da observação atenta das coisas do cotidiano, do estreitamento dos laços de cooperação entre os dois países e, sobretudo, reforça que as distâncias físicas ou linguísticas não são um empecilho para a produção artística.

O livro inicia e encerra com as fotografias realizadas por dois dos organizadores: César Vieira e Airton Cattani, oferecendo um preâmbulo da riqueza de detalhes que nos espera ao folhear suas 69 páginas. As 55 fotografias dos estudantes estão dispostas lado a lado, sempre apresentando uma foto de Beijing e outra de Porto Alegre, com o nome do autor e títulos na língua inglesa (embora a edição seja trilingue). As imagens são apresentadas em diferentes dimensões, algumas formando mosaicos, outras aos pares ou, ainda, em página inteira. Algumas imagens mostram um detalhe de determinada calçada carcomida ou rompida pela vegetação, outras oferecem um campo de visão mais amplo como é o caso das fotografias da escadaria da Igreja das Dores e do acesso à Casa de Cultura Mário Quintana, ambas de Gabriel Guerra Konrath.

À medida que passamos as páginas deste belo livro e nos deparamos com cada uma de suas imagens fica uma certeza: seus autores apresentaram uma fração, um pequeno fragmento da percepção do universo multicolorido e multifacetado que está debaixo de nossos pés (e que podemos encontrar em todas as cidades do mundo). O inusitado das imagens que compõem este livro são um convite a sua leitura.

No entanto, John Berger nos diz que a percepção visual é um processo mais complexo e seletivo do que aquele pelo qual uma câmera registra as coisas. O que a câmera faz, e o que o olho em si não pode fazer, é fixar a aparência de determinado evento. Capta sua aparência e o preserva, talvez não para sempre, mas o salva de ser, inevitavelmente, recoberto por outro. Diferentemente da memória, as fotografias não preservam em si mesmas o significado, nos oferecem aparências afastadas dele. Significado, continua Berger, é o resultado de entender funções: “E funcionamento acontece no tempo, e tem de ser explicado no tempo. Só aquilo que narra pode nos fazer entender. As fotografias por si mesmas não narram” (Berger, 2003, p. 56).

Essa narrativa nos interessa e dela sentimos falta. Tratando-se de um livro editado por professores da UFRGS, chama-nos à atenção a falta de aprofundamento, de informações e de discussões sobre as imagens. Para além da questão estética, gostaríamos de saber algo sobre a metodologia adotada, as técnicas utilizadas ou, ainda, quais foram as teorias de linguagem visual que nortearam o processo de captação. Quais foram as orientações dadas sobre o que, como, quando e onde captar as imagens das calçadas. Trata-se de calçadas do bairro onde moram ou calçadas que os alunos utilizam em seus percursos cotidianamente? São calçadas com grande movimento de pedestres, áreas comerciais ou residenciais? Foram utilizadas câmeras analógicas, digitais ou telemóvel? Foram utilizados recursos de filtros ou lentes especiais?

Queremos saber como aconteceu a captação das imagens em si, mas também queremos mais informações sobre o tema captado: a calçada. Qual é a sua materialidade? É uma calçada que se encontra em um local histórico, novo ou recuperado? De que material a calçada é constituída: pedra portuguesa, ladrilho hidráulico, basalto? Qual a importância destes materiais nas diferentes comunidades (Brasil-China)?

Ainda, o que as imagens de calçadas desconstruídas, pintadas ou degradadas podem dizer sobre o ato de caminhar? Que houve uma escolha inapropriada da vegetação? O que querem dizer os signos que vemos pintados sobre as calçadas? São sinais de trânsito, de protesto ou de arte urbana? Esses segmentos de calçadas retratam um padrão ou exceção no conjunto das calçadas das respectivas cidades? Seria interessante, também, que o livro apresentasse um pequeno resumo caracterizando ou apresentando as diferenças culturais das duas cidades.

A percepção visual é um processo complexo e seletivo. Ela diz muito sobre o que e quem somos. É, em última instância, político. Representa a soma de nossa história, o olhar que permite a apreensão do mundo. Assim, o que sentimos quando folheamos o livro e suas belas imagens, é um vazio de informações. A história sobre as imagens que estão neste livro é o que gostaríamos de ver contada, favorecendo, assim, um maior crescimento intelectual que abrangesse campos correlatos e complementares ao que vemos.

Referências

BERGER, John – Sobre o olhar. Barcelona: Gustavi Gili, 2003.


Resenhista

Laura Machado –UNIPAMPA– Universidade Federal do Pampa, 90130-090 Porto Alegre, Brasil. E-mail: [email protected].


Referências desta resenha

CATTANI, Airton; VIEIRA, César Bastos de Mattos; YING, Lu, org. Calçadas de Porto Alegre e Beijing. Porto Alegre: Marcavisual, 2019. Resenha de: MACHADO, Laura. Cadernos do Arquivo Municipal. Lisboa, n.16, jul./dez. 2021. Acessar publicação original [IF].


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