Viandante nel Novecento. Thomas Mann e la storia – CONTE (RTH)

CONTE, Domenico. Viandante nel Novecento. Thomas Mann e la storia. Roma: Edizioni di Storia e Letteratura, 2019. Resenha de: DELLA VOLPE, Maria. Com Thomas Mann entre passado e história. Revista de Teoria da História, v.23, n.2, p.372-376, 2020.

Já definido como “monumental”, “rico”, “policromático” e “diverso”, o recente e imponente livro de Domenico Conte, intitulado Viandante nel Novecento. Thomas Mann e la storia, reúne, dividido em quatro partes (“História e mito”, “Política e primitivismo”, “Natureza e espírito”, “Benedetto Croce e Thomas Mann”), vinte e dois ensaios publicados pelo autor no período entre 2009 e 2018.

E precisamente o tempo, protagonista destas páginas juntamente com Mann, faz com que o tom do historiador da cultura napolitano em direção ao escritor de Lübeck, seja, sim, cheio de admiração, mas nunca subserviente ou temeroso, tornando-se cada vez mais familiar, tanto que se dirige a ele não apenas com o nome de batismo, Thomas, mas com o diminutivo Tommy. O que, como é evidente, representa uma marca de proximidade, uma intimidade cujas raízes devem ser procuradas no passado ou, aqui talvez seja mais adequado dizer: mais para lá, mais abaixo. De fato, o vínculo que une Conte a Mann é, como ele próprio confessa, “uma espécie de fidelidade”.

Uma “paixão juvenil” (IX) que com o tempo torna-se tal que faz do escritor alemão um “viático” para “penetrar no duro século XX, na sua história espiritual e nela o papel da Alemanha, país que viveu todos os sonhos e pesadelos da modernidade” (X). Para tanto, Conte explora, minuciosamente, os romances (“marcos na geografia mental do século XX”); a produção ensaística (na qual “os grandes temas que se entrelaçam na produção literária encontram-se como destilados”); os milhares de cartas (“arquipélago explorado no qual se delineia também o mapa da densa rede de relações de Mann”); e os dez volumes dos Diários (“o ‘quarto de Barba-Azul’”) que, num diálogo ininterrupto com a “transbordante” literatura secundária (XI), devolvem ao leitor, por último, a imagem proteiforme, e de forma alguma olímpica, de “um grande investigador daquilo que é humano” (340).

Pois através de uma prosa pontual, pois exegética, e em mais de um lugar apaixonada e apaixonante, Conte interpreta Mann não como um monólito solitário e isolado, mas como um objeto ativo que, em uma comparação ininterrupta com os protagonistas do seu tempo (por exemplo, Jünger, Kerényi, Spengler, Troeltsch e Croce, ao qual, não por acaso, é inteiramente dedicada a última parte do volume), permite-lhe iluminar o presente – o problema da imigração (64); a possível ameaça de destruição da Europa por vias externas e internas (340); o perigo inerente aos processos de corporeidade da vida ocidental (414-415).

O que foi dito até agora seria suficiente para explicar o título, sugestivo e evocativo, dessa coleção. No entanto, não se pode deixar de sublinhar que ele se refere a outras dimensões, em alguns aspectos, ainda mais profundas do que aquelas mencionadas até agora. A esse respeito, portanto, é bom lembrar as palavras de Adorno que explicitamente marcam o caminho da análise thomasmanniana de Conte: “Quem hoje quiser assumir a responsabilidade de escrever sobre o Sr. [Mann], não deveria limitar-se a extrair da Sua obra o que o Sr., com profunda delicadeza, escondeu nela, mas deveria, ao contrário, extrair dela o que a própria obra esconde” (IX).

Entretanto, seguindo, como faz o autor do Viandante, o conselho do informer, “que usava óculos de aro de tartaruga sobre o nariz curvo”, aonde se chega? Ou melhor: o que se encontra?

Em primeiro lugar, quase tocando-o, “o ‘dorminhoco’ que dorme o sono dos ‘sete adormecidos’” (369), Hans Castorp, e junto com ele o “humanista iluminista” (365) Settembrini, que “sopra ‘a corneta da razão’” (368) e o seu adversário o jesuíta “cínico e desumano” (366) “à caça das almas jovens” (484), Naphta. E ainda: o brilhante compositor alemão com traços “de bruxaria” (27); a família hanseática de comerciantes de grãos, na qual “natureza e história estão indissoluvelmente interligadas” (40); o “belo” e “casto” Joseph com seu Mut-em-enet; e o “demonismo misterioso” dos “filhos da natureza” (376), Goethe e Tolstói, aos quais os “filhos do espírito”, Schiller e Dostoiévski, contrabalançam. E depois Freud, Nietzsche, Schopenhauer que, junto com os já mencionados e com a maior parte dos quais, por mais de uma razão, não se poderia dizer aqui, formam uma tapeçaria extraordinária cujos nós são firmemente atados com esmerada habilidade.

No entanto, seria errado pensar que a reconstrução de Conte seja simplesmente uma reconstrução erudita, elegante e aguda. E é assim porque, página após página, somos acompanhados por ele nas profundezas da obra de Mann, até atingirmos, finalmente, as profundezas do seu humanismo noturno, onde os personagens, privados das vestimentas narrativas, são “representantes e emissários das tendências espirituais da época” (8).

Aqui, atraídos pelo som da “sílaba fatal ur” (13), assustados pelo “balido primordial” de Jacob (66), inclinando- nos sobre a bacia batismal de Hans Lorenz Castorp e folheando o livro de família dos Buddenbrook, chegamos portanto nos recessos mais recônditos do humano e nos abismos da história: lá onde o espírito e a natureza ainda estão unidos e a história não é ainda propriamente História.

É aqui que reside o elemento distintivo do livro de Conte, que então investiga, incessantemente, as inúmeras correntes em que se desenrola o conceito não “convencional” de história do escritor de Lübeck (11). Para ele, de fato, essa não é apenas biografia ou história nacional, nem macro-história e história universal, mas sim memória e – como pode ser lido nas páginas complexas e estratificadas do longo ensaio (verdadeiro livro dentro do livro) No poço do passado – também, talvez acima de tudo, psicologia (16).

Assim, comprimida entre o tempo e o passado, a história aqui, longe de ser desenvolvimento, evolução ou progresso é, ao contrário, um “andar nas pegadas” (54). E quem quer mergulhar nela faz – como escreve Conte nas curtas mas densas páginas em que conversa com Fulvio Tessitore (153-156) – uma viagem que equivale a uma queda. A uma derrocada, tal como aquela para o inferno (154).

Ainda haveria muito a ser dito sobre o Viandante. Contudo, aqui basta acrescentar que se trata, em última análise, de uma viagem extraordinária no tempo, no passado e no inconsciente da humanidade em que, através de Mann, Conte narra uma história que é “história do profundo”. Porque encontra no mito o seu fundo.

Maria Della Volpe – Università degli Studi di Napoli Federico II. Nápoles | Itália. E-mail: [email protected]

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