História da Imprensa em Imperatriz – MA: 1930-2010 | Thays Assunção

Gabriela Almeida Imprensa em Imperatriz
Thays Assunção | Foto: O Estado

ASUNCAO Historia da Imprensa Imprensa em ImperatrizLogo nas primeiras páginas, Thays Assunção faz o seguinte comentário: “Conhecer a história da imprensa é, assim, caminhar em direção ao nosso próprio passado” (REIS, 2018, p.11) A afirmação é o fio que guia a narrativa do livro, a autora constrói um caminho com o leitor até o mapeamento da história da imprensa na cidade de Imperatriz do Maranhão, atrelando os acontecimentos que marcaram as produções jornalísticas aos acontecimentos sociais da época. Parafraseando, entender a história da imprensa está submetido a conhecer a história da cidade, também, concordando com Marialva Carlos Barbosa (2016), os processos comunicacionais estão arraigados às questões de tempo e espaço, não é possível olhar para as páginas dos jornais sem antes verificar qual história eles têm a contar.

Sendo assim, conforme definido por Jorge Pedro de Sousa (2002), o jornalismo é um fenômeno construído pelos acontecimentos que perpassam as questões sociais daquela época. É difícil dissociar essas categorias de eventos, a cada edição os jornais têm contado e contam a história social daquele espaço. Nesse sentido,

[…] resulta de um processo de construção onde interagem factores de natureza pessoal, social, ideológica, histórica e do meio físico e tecnológico, é difundida por meios jornalísticos e comporta informação com sentido compreensível num determinado momento histórico e num determinado meio sócio cultural, embora a atribuição última de sentido. (SOUSA, 2002, É usando desse processo que a autora desvela em seu trabalho como a imprensa na cidade de Imperatriz foi se formando, entre 1930 a 2010. Esses 80 anos mapeados revelam um trabalho intenso e contínuo, Thays Assunção ao longo da sua carreira acadêmica demonstrou bastante interesse em entender o funcionamento da imprensa imperatrizense, o que tornou possível, em seu livro, fazer um trabalho completo e bem fechado. Em conjunto com o grupo de pesquisa jornalismo, mídia e memória (JOIMP) esse estudo é fruto de uma iniciativa acadêmica que a autora realiza desde a iniciação científica. É valido ressaltar que alguns trabalhos no curso de Comunicação Social – Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão do campus de Imperatriz buscaram traçar o perfil e a parte da história do jornalismo praticado na cidade, no entanto, a autora destaca, nesse livro, uma proposta pioneira para os pesquisadores que têm buscado entender melhor sobre o assunto.

É possível afirmar que o livro é uma leitura elementar no currículo daqueles que têm interesse em estudar e compreender a formação da imprensa em Imperatriz. É um texto essencial para entender os nivelamentos que foram construindo o cenário que hoje compõe o jornalismo da cidade, mesmo com as dificuldades de acesso ao material, em razão de que são escassos os acervos desses documentos.

Aos que investigam sobre o tema é de conhecimento que pesquisar nessa área tende a esbarrar ainda nos pouquíssimos materiais de domínio público, muito deles, arquivados pelo JOIMP, ou que precisam de um extenso trabalho para se ter acesso em acervos pessoais, o que dificulta o trabalho sobre o estudo da nossa própria imprensa histórica. A autora contribui facilitando o alcance à informação desses documentos.

O jornal é uma importante fonte histórica, o documento ajuda a contar e desvelar fatos políticos, culturais e econômicos (LEITE, 2015). O estudo e a documentação desses fatos são importantes para garantir a manutenção patrimonial da história e acessibilidade à informação. Ressalva-se, então, o trabalho interdisciplinar da autora em cooperar nas pesquisas locais sobre o assunto2.

O livro se divide em quatro partes, a saber: três capítulos e, ao final, o apêndice, que é rico e detalhado ao trazer um mapeamento organizado com 215 títulos que circularam na cidade. A linha seguida pela autora, de forma didática, divide a história da imprensa imperatrizense em três momentos de: os primórdios da imprensa (1930-1960), a modernização da imprensa (1970-1980) e a imprensa contemporânea (1990-2010).

No primeiro capítulo, apresenta-se o início da história da imprensa na cidade, como o próprio título do capítulo denúncia. Esse período começa com a criação dos quatro primeiros jornais da cidade: O Alicate; A luz; O Astro e Correio do Tocantins, as produções dos impressos corroboram a elevação do título de cidade ao povoado imperatrizense em 1924. Desde a sua fundação (1852) até a publicação do seu primeiro título (1932) há um silêncio da vida cotidiana do imperatrizense. Ao que parece, cresce o sentimento da necessidade da criação de produções que pudessem datar os acontecimentos diários da cidade.

As páginas dos jornais serviram para reclamar o direito ao acesso às outras cidades; notou-se nas páginas dos jornais uma produção de caráter político e opinativo, com os títulos ligados a partidos políticos, como no caso do jornal O Astro. A imprensa quase sempre utilizava das discussões políticas, com o intuito de cobrar e incentivar o desenvolvimento social do território através das criações de estradas que pudessem ligar com outros polos. Até então, Imperatriz era conhecida como Sibéria Maranhense.

A autora também nota o grande número de anúncios nos jornais, que é reflexo “[…] do crescimento econômico vivenciado por Imperatriz devido aos garimpos de diamantes e cristais” (REIS, 2018, p. 17). Há também um marco datado na década de 1960, que é a publicação da primeira imagem impressa em um jornal na cidade, no periódico Correio do Tocantins. O fato só foi possível porque o título era produzido na capital, que de acordo com Thays Assunção “Esse dado demonstra que o desenvolvimento da imprensa local ainda esbarrava na ausência de iniciativas voltadas para o estabelecimento de atividades tipográficas no município” (REIS, 2018, p. 21).

No segundo capítulo, iluminam-se as transformações que os jornais passaram com a construção da rodovia Belém-Brasília, a modernização das produções com as offset nos jornais e o aumento da violência na cidade. Um fato histórico na década de 1950 altera não só a região, como também os modos de produção, a criação da BR é o fim das dificuldades do acesso territorial. Outrossim, marcaram as páginas dos jornais a exploração de madeira, em 1970, e o impacto do garimpo, em 1980, que transformaram a cidade de Imperatriz em um polo econômico na época.

Thays Assunção relata como o desenvolvimento socioeconômico alterou as redações jornalísticas da época. O aumento da violência, com o crescimento populacional, tornou-se uma realidade local e emergiu nas páginas dos títulos em circulação da época. De acordo com a autora, a narrativa adotada pelos jornais na época contribuiu para o título de “capital da pistolagem” que a cidade carregou durante um tempo.

Ao noticiarem com destaque os crimes de pistolagem e as outras formas de violência da cidade, os impressos podem ter contribuído para a construção da imagem de Imperatriz como “capital da pistolagem”, relacionando o lugar à violência, percepção comum até a atualidade. (REIS, 2018, p. 28).

Em contrapartida, aumentaram-se as produções culturais na cidade. As intensas movimentações culturais no município tiveram sua contribuição, adicionando ao cenário um extenso número de títulos dedicados à cultura. A chegada das gráficas com as modernas offsets auxiliaram os jornais a realizarem produções com alterações visuais, a divisões em editoriais e segmentadas, dando um novo tom às produções. Os movimentos estudantis participaram desse desenvolvimento, com as mudanças no cenário educacional da cidade, ocasionado pela chegada dos centros universitários, como Universidade Federal do Maranhão, que influenciaram nas produções direcionadas ao público estudantil; a imprensa religiosa também ganhou o seu espaço com produções segmentadas, mas também com cunho político.

No terceiro capítulo, desenvolvem-se as alterações das redações com as chegadas dos computadores, na década de 1990, e da internet, que inovaram o designer e as produções jornalísticas, e a migração do impresso para o digital. Com os programas de editoração, os jornais ganham um novo ar, “mais arrojado” (REIS, 2018, p. 45), segundo a autora. Os jornais também ganham um novo espaço nos sites, O Progresso é o primeiro a migrar, desenvolvendo o primeiro webjornal da cidade.

Outro produto que cresceu na cidade foi a narrativa esportiva, com as folhas dedicadas às seções e um grupo de jornalistas que comentava sobre o assunto. Esse tipo de produção perdura até hoje na cidade, e é interessante perceber o seu início.

Diante do desenvolvimento da cidade, há um marco pautado nas edições dos anos 2000, que é o apoio político pleno dos jornais que, na época, circulavam a pauta do “Maranhão do Sul”, o movimento separatista é amplamente apoiado, assumindo o discurso que a divisão corroboraria para o desenvolvimento econômico do território com a divisão das cidades, tornando, assim, Imperatriz capital do sul do Maranhão. O discurso perpetuado pela imprensa também tomou cidades próximas como Açailândia.

Dessa forma, a imprensa imperatrizense demonstra compartilhar, por meio de suas formulações discursivas, o mesmo posicionamento em relação à proposta de divisão do território maranhense. Isso acontece pelo fato de os jornais da época se colocarem a favor do movimento, assumindo a defesa do Maranhão do Sul e combatendo de forma árdua os atores contrários a causa. (REIS, 2018, p. 54).

Posteriormente, as publicações voltadas para educação crescem também nos anos 2000, “Imperatriz se transforma em um polo educacional na região tocantina” (REIS, 2018, p. 54), novos centros universitários público e particulares chegam à cidade, transformando o panorama da educação da cidade, visto no aumento de produções dedicadas ao público, que, em sua maioria, eram produzidas pelos próprios centros, como um esforço de também ganhar o seu espaço na mídia imperatrizense.

A autora permite desenhar uma perspectiva maior da formação da imprensa na cidade, gradualmente caminhando pela sua primeira publicação até o momento que migra para o digital com a convergência, desvelando a realidade do perfil de produção e das redações que levaram ao cenário do jornalismo na cidade atualmente. Ao observar o texto da autora, é possível entender o porquê de Imperatriz, hoje, ter apenas um jornal impresso, enquanto ocorre o aumento da criação de perfis digitais de produção jornalística.

Por fim, o livro conta, como foi mencionado anteriormente, com um extenso e inédito mapeamento, que é uma contribuição pontual para quem pesquisa o jornalismo local. Nas primeiras páginas, há uma organização dos títulos, os 215 avaliados, que circularam na cidade divididos pelos períodos propostos pela autora, contendo as seguintes informações: década, título, periodicidade, perfil e fundação.

Ademais, também há um “catálogo dos jornais imperatrizenses” (REIS, 2018, p. 75) dividido por décadas, e que funciona como um “grande” sumário dos títulos que circularam na cidade, em que se pode encontrar os seguintes dados: título, slogan, local para consulta, data de fundação, diretor/proprietário, endereço, funcionários e colaboradores, periodicidade, exemplares e preço.

Sublinhar o mérito das últimas páginas do livro é relevante diante das dificuldades do resgate desses títulos para a realização das análises acadêmicas, não só na área da comunicação, mas também em outras áreas. Os documentos transitam na interdisciplinaridade e são importantes para os estudos da cidade. O que a autora traz é crucial para dar luz a quem investiga e tem desenhado sobre o assunto, mesmo para despertar o futuro anseio pela investigação, contribuindo para que haja um ponto de partida para o pesquisador, possibilitando à investigação, logo de início, filtrar questões essenciais. Com as informações segmentadas, o pesquisador tem em mãos o nome do título, qual seu perfil, tempo de circulação, onde encontrar, quem participou e endereço, o que torna minimamente executável o estudo. Embora haja um problema de acesso aos documentos na realidade local, a autora consegue colaborar com os estudos históricos da cidade através do mapeamento dos títulos.

Por meio dos dados apresentados, é possível a visualização do panorama das produções jornalísticas realizadas em Imperatriz nos últimos anos.

Referências

BARBOSA, Marialva Carlos. A pluralidade de modelos interpretativos nas ciências humanas e o lugar da comunicação. In: MOURA, Claúdia; LOPES, Maria Immacolata (org.). Pesquisa em comunicação: metodologias e práticas acadêmicas. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2016. p. 195-212.

LEITE, Carlos Henrique Ferreira. Teoria, metodologia e possibilidades: os jornais como fonte e objeto de pesquisa histórica. Escritas: Revista do Curso de História de Araguaína, v. 7, n. 1, p. 3-17, 2015.

SOUSA, Jorge Pedro. Por que as notícias são como são? Construindo uma teoria da notícia. Biblioteca on-line de Ciência da Comunicação. Covilhã: Universidade de Beira Interior, 2002, p. 1-19. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/sousa-jorge-pedro-construindo-teoria-da-noticia.pdf. Acesso em: 24. abr. 2021.


Resenhista

Gabriela Almeida Silva – Mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Maranhão. Imperatriz/Maranhão/Brasil. E-mail: [email protected].


Referências desta resenha

REIS, Thays Assunção. História da Imprensa em Imperatriz – MA: 1930-2010. São Luís: EDUFMA, 2018. Resenha de: SILVA, Gabriela Almeida. Conhecendo a história da cidade: os jornais que marcaram Imperatriz. Outros Tempos. São Luíz, v.18, n.32, p.411-416, 2021

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