Histórias do vestir masculino: narrativas de moda, beleza e elegância | Guilherme Ivana Simili e Maria Cláudia Bonadio

BONADIO Maria Claudia Histórias do vestir
Maria Claudia Bonadio é uma das organizadoras do livro “Histórias do vestir masculino – narrativas de moda, beleza, elegância”, lançado nesta terça no IAD/UFJF | Foto: Divulgação

BONADIO Historias do vestir Histórias do vestirAs construções de sentidos para as virilidades e as masculinidades, em diferentes tempos e espaços, norteiam as discussões do livro História do vestir masculino: narrativas de moda, beleza e elegância. O livro, sob organização das historiadoras Ivana Guilherme Simili e Maria Claúdia Bonadio, objetiva trazer reflexões acerca das concepções de homem, de masculinidade, de virilidade e de outros adjetivos, e suas relações com as indumentárias. Para tanto a obra, composta por onze capítulos, um prefácio e uma apresentação, conta com a contribuição das seguintes pesquisadoras e pesquisadores: Maria Cristina Volpi, Ivana Guilherme Simili e Alessandra Vaccari, Fernanda Theodoro Roveri, Jefferson Queler, Marko Monteiro, Maria Claudia Bonadio, Taisa Vieira Sena, Wagner Xavier de Camargo, Elisabeth Murilho, Maria Eduarda Araujo Guimarães e Wladimir Silva Machado.

No prefácio da obra, Denise Bernuzzi de Sant’Anna aponta que o tema, história do vestir masculino, ainda é pouco explorado no Brasil e que por se tratar de uma experiência cultural requer atenção, questionamentos e pesquisas. Em consonância com a reflexão de Sant’Anna, as autoras, na apresentação da obra, traçam uma breve trajetória da moda masculina e as discussões intelectuais acerca da temática, destacando os trabalhos de John Carl Flügel (1930), Gilda de Mello e Souza (1987), Alain Corbin, Jean-Jacques Courtine e Georges Vigarello (2013). Ao realizar tal percurso, as autoras destacam que as indumentárias e os adornos masculinos, entre os séculos XX e XXI, expressaram-se enquanto vocabulários dos homens que constroem imagens e narrativas de si.219

No primeiro capítulo, intitulado Modos masculinos de vestir na Belle Époque carioca, Maria Cristina Volpi analisa o processo de modernização do Rio de Janeiro e o cosmopolitismo das indumentárias entre os fins do século XIX e início do XX. Fazendo uso de fotografias e imagens, enquanto fonte, a autora destaca dois tipos/modos de vestir da Belle Époque carioca: as figuras cosmopolitas – Joaquim Nabuco (1849-1910), Ruy Barbosa (1849-1923), Lauro Müller (1863-1926) e Alberto Santos-Dumont (1873-1932) – e os boêmios – Olavo Bilac (1865-1918), Coelho Neto (1864-1934), Medeiros de Albuquerque (1867-1934), Elysio de Carvalho (1880-1925) e Paulo Barreto (1881-1921), conhecido sob o pseudônimo de João do Rio.

Já Ivana Guilherme Simili e Alessandra Vaccari, em Acessórios viris e patrióticos: os soldados e as mulheres na Segunda Guerra Mundial, buscam compreender a instrumentalização das roupas pelas políticas de guerra. No período da Segunda Guerra Mundial as roupas tornaram-se peças políticas e pedagógicas para ensinar e formar homens capazes de defender a pátria. Com as funções de protetora e de cuidadora, as mães e esposas, objetivando apoiar os homens, deviam produzir vestimentas que traduzissem os conceitos de masculinidade, de virilidade, de força e de guerreiro. Para tanto, as autoras utilizam do periódico Jornal das Moças (1914-1968) e dos relatório da Legião Brasileira de Assistência (LBA), criada pela então primeira-dama Darcy Vargas.

A educação do corpo de meninos, por meio das vestimentas e o discurso de revistas infantis na década de 1950, é a temática central do texto de Fernanda Theodoro Roveri. Em ‘Seja um menino levado, mas sempre bem penteado’: a educação dos corpos de meninos nos anos 1950, a autora analisa imagens publicitárias contidas no periódico O Tico-Tico e o conjunto de pedagogias corporais que estas propõem.

Por sua vez, Jefferson José Queler, em Ternos amarrotados, colarinhos abertos e slacks indianos: os significados políticos das roupas de Jânio Quadros (1947-1961), objetiva compreender a imagem construída sobre Quadros, principalmente por seus opositores, e que foi perpetrada pela memória coletiva. Para tanto o autor utiliza imagens de Jânio Quadros (1917-1992) publicadas nos periódicos O Cruzeiro e Manchete, entre os anos de 1947 e 1961.

Marko Monteiro, em Ele Ela: deslocamentos de gênero em uma revista brasileira (1969- 1972), discute os regimes discursivos acerca das masculinidades, no plural, a partir do periódico Ele Ela. Em sua análise, Monteiro pautando-se em teóricos da Análise do Discurso e busca período, principalmente os movimentos feminista e gay.

As imagens construídas de si por Dener Pamplona Abreu (1937-1978), em fotografias veiculadas na imprensa entre os anos 1957 e 1978, são o mote abordado por Maria Claudia Bonadio, em As roupas do costureiro, ou Dener Pamplona Abreu e as representações de si. Segundo a autora, Dener criou uma imagem singular para si, enquanto costureiro altivo, imponente e exótico. Além disso, fez da sua aparecia uma performance que ora apresentava uma imagem de sexualidade ambígua, ora como homem de negócios e chefe de família, borrando as fronteiras de gênero.

No capítulo Roupa íntima, cueca, underwear: o que veste o homem na intimidade? Taisa Vieira Sena trabalha com a intimidade masculina analisando campanhas publicitárias de cuecas. A autora parte dos campos científicos da semiótica e do design na perspectiva de compreender os significados construídos com relação ao masculino e ao corpo e as modificações nos usos das peças intimas.

As Athletes’ Party e os Dress Code em festas de sexo são as temáticas norteadoras de ‘Vestido para transar’: notas etnográficas sobre roupas esportivas e festas de sexo, de Wagner Xavier de Camargo. No capítulo em questão, Camargo traça algumas reflexões, produzidas a partir de registros de campo, realizadas entre os anos de 2006 e 2011, acerca das inter-relações entre roupas esportivas e as sexualidades dos atletas em festas particulares. As roupas esportivas, segundo Camargo, constituem-se, nos referidos espaços, enquanto peças de fetiche que reforçam um estereótipo de masculinidade e de corpo, para além de expressar-se como instrumento de ludicidade.

Elizabeth Murilho da Silva, em A troca de passes entre a moda e o futebol: moda de luxo, moda esportiva e modelos de sucesso, tece análises sobre as relações entre os jogadores de futebol e a indústria de moda, bem como os processos que levaram a grande inserção dos referidos esportistas no campo da moda. Enquanto fonte analítica, Silva prima por propagandas publicitárias voltadas para o público masculino, a quais fizeram uso de jogadores de futebol. Além das figuras dos esportistas, Silva destaca a importância que as Copas do Mundo possuem para a moda. Os torneios organizados pela Federação Internacional de Futebol (FIFA) tornaram-se passarelas ou vitrines da moda, no qual são apresentados e difundidos uniformes, tecnologias esportivas e uma imagem de corpo ideal masculino.

Em Moda, música e consumo: as identidades masculinas da periferia para o centro, Maria Eduarda Araujo Guimarães busca compreender a moda que nasce nas periferias brasileiras e 221

a construção das representações e dos estilos de vida jovens destes espaços. Assim, Guimarães reflete sobre os movimentos musicais do Hip Hop e do Funk Ostentação e a sua relação com a moda e a imagem, no Brasil. O primeiro estilo nasce em São Paulo, na década de 1980, e utiliza-se da imagem, da indumentária e do consumo como forma de crítica social e de visibilidade. Por sua vez no segundo estilo musical, também nascido em São Paulo, porém dos anos 2000, a imagem, a indumentária e o consumo configuram-se como meta e estilo de vida desejado.

Os movimentos culturais urbanos também são destacados por Wladimir Machado em Os hipsters de ontem e de hoje: um percurso histórico sobre moda, política e subcultura urbanas. No referido capítulo, o autor centra sua atenção na sociabilidade urbana e a figura do hipster, na perspectiva de compreender a relação entre o vestir e a construção de uma identidade social e/ou posição política. Em tal perspectiva, o autor estabelece o período entre 1920 e 2000 como a barreira cronológica da discussão e utiliza-se da mídia eletrônica e bibliografia especializada enquanto fonte da pesquisa.

Em suma, Histórias do vestir masculino: narrativas de moda, beleza e elegância traz à tona olhares, visões, interpretações e análises que desconstroem a concepção preconceituosa de moda como algo vinculado a futilidade. Ademais, por meio de discussões multi/interdisciplinares, as autoras e os autores apresentam como as indumentárias expressaram-se e expressam-se mais do que um ornamento ao corpo. Ao contrário traduzem visões de mundo, comportamentos sociais, posicionamentos políticos, realidades econômicas e expressões culturais.

REFERÊNCIAS:

CORBIN, Alain; COURTINE, Jean-Jacques; VIGARELLO, Georges. História da virilidade: a virilidade em crise? Petrópolis: Vozes, 2013.

FLÜGEL, John Carl. Psychology of clothes. Londres: The Hograth Press, 1930.

SIMILI, Ivana Guilherme; BONADIO, Maria Cláudia (Orgs.). Histórias do vestir masculino: narrativas de moda, beleza e elegância. Maringá: Eduem, 2017.

SOUZA, Gilda de Mello e. O espírito das roupas: a moda no século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.


Resenhista

André Rocha Cordeiro – Doutorando em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual de Maringá (PPH/UEM).


Referências desta resenha

SIMILI, Ivana Guilherme; BONADIO, Maria Cláudia (Orgs.). Histórias do vestir masculino: narrativas de moda, beleza e elegância. Maringá: Eduem, 2017. Resenha de: CORDEIRO, André Rocha. Entre corpos, identidades e recortes: a história do vestir masculino em debate. Dimensões.  Vitória, n.45, p.2218-221, 2021. Acessar publicação original [IF]

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