La prensa de Montevideo, 1814-1825 | Wilson González Demuro

Wilson Gonzalez Demuro La prensa de Montevideo
Wilson González Demuro | Foto:  Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación – Universidad de la República

DEMURO La prensa La prensa de MontevideoNeste livro, Wilson González Demuro analisa o papel da imprensa na criação de um espaço moderno de opinião pública em Montevidéu, integrado ao processo de des­construção do Antigo Regime na América por suas independências e construção de Estados nacionais, assentados em governos represen­tativos, baseados princípios liberais.

Um dos alvos de Demuro são as abordagens que consideram os meios de comunicação apenas como fontes ou testemunhos, e não objetos de análise. Colocando-se ao lado de outros historiadores como Noemí Goldman, Fabio Ares, Renán Silva e Fabio Wasserman, Demuro junta-se ao esforço por valorizar “la prensa como fuente his­tórica” e encará-la como “campo disciplinario”[3].

Para essa renovação da área, Demuro debruça-se sobre uma rica documentação formada sobretudo por periódicos, mas também por memórias, correspondência e documentos oficiais com o propósito de contestar análises anacrônicas e atemporais de “tipos ideais” so­bre o tema [4]. Ao tratar a imprensa como objeto de análise, e não um meio ou instrumento, o autor amplia a visão sobre esses veículos, in­cluindo a análise de sociabilidades associadas à imprensa, presente em sociedades literárias e tipografias, e leva em conta as formas de comunicação escritas e orais que incrementavam o impacto político e social das publicações periódicas. Nesta empreitada, dialoga com a Escola de Cambridge, a História Conceitual de Reinhart Koselleck, as análises de papéis públicos de Roger Chartier e o esquema de pergun­tas de Harold Lasswell para a definição de uma técnica filológica qua­litativa que também tem função quantitativa [5]. Para o contexto ibe­ro-americano, particularmente, os estudos de Fernández Sebastián lhe fornecem bases fundamentais para suas análises, não se esquiva de contribuir com a construção do conhecimento sobre os conceitos políticos publicado nos tomos do Diccionario político y social del mundo ibero-americano [6].

Demuro também amplia a análise da função da imprensa, iden­tificando seu papel fundamental na fabricação de bases da cultura impressa [7]. Com base nas ideias de autores como Marshall Mcluhan, Asa Briggs, Peter Burke, Roger Chartier e Guglielmo Cavallo, o autor discute alguns pressupostos sobre a formação do espaço público mo­derno e a capacidade de intervenção da imprensa em processos de alfabetização, práticas intelectuais, criação, difusão e crítica do co­nhecimento ocidental [8]. O autor explora as definições de Habermas, o debate realizado por Guerra e Lempérière e estudos de autores mais recentes, como Noemí Goldman, que são capazes de historicizar o tema no quadro da sociedade rio-platense de 1814-1825, recorte cro­nológico de sua obra, que cobre o fim da dominação colonial, a crise monárquica e o início das revoluções na América e construção dos Es­tados hispano-americanos independentes [9]. A esse respeito, Demuro é certeiro ao dar especial atenção às relações de Montevidéu com o Império Português e do Brasil, tratando deste assunto do ponto de vista historiográfico e documental no segundo e terceiro capítulos [10]. Ademais, compreende a questão como disputa entre os impérios co­loniais na América do Sul, Brasil e Estados hispano-americanos re­centemente independentes, leva em conta os impactos das decisões tomadas em Cortes liberais, localizadas na Europa, e considera as transformações políticas do período como mutuamente influencia­das pelos seus desdobramentos particulares nas diversas porções dos impérios coloniais [11].

No primeiro capítulo, Wilson Demuro faz um trabalho louvável de levantar hipóteses sobre o “perfil del potencial campo lector” dos periódicos [12]. Ele persegue os dados sobre tipografias e redatores e a circulação dos periódicos no extremo sul da América para sustentar sua concepção sobre a imprensa como instrumento e objeto de cria­ção de repertórios e de experiências políticas essenciais para a trans­formação da política. Na esfera local, provincial e mesmo na relação entre os impérios português, espanhol, brasileiro, francês e inglês, o autor destaca o engajamento de redatores e tipógrafos, a autoridade dos Cabildos e do governo e de grupos de particulares, tal como os Caballeros Orientales. Com base em um trabalho investigativo sólido, revisita informações consagradas na historiografia e realiza a crítica e atualização do “campo disciplinario” da imprensa.

Nesse mesmo capítulo, e retomando o tema nos próximos, o autor apresenta a história dos termos liberdade e opinião pública [13]. A respeito do termo liberdade, analisa dicionários espanhóis do século XVIII e recupera a relação do termo com o direito natural, de origem divina, bem como explora suas derivadas acepções, por exemplo, de fazer e dizer e a perspectiva econômica. Neste ponto, há uma cons­tatação que norteia toda a obra do autor: a ideia em voga, no final do século XVIII e início de XIX, de que a liberdade deveria ser restrita, obedecer ao direito e à lei, isto é, ao pacto estabelecido. No caso da liberdade de imprensa, o autor demonstra que, junto à transforma­ção da definição do conceito, desenvolveu-se a ideia da exigência de seu controle, em geral, diretamente proporcional à capacidade da im­prensa de influenciar decisões políticas. Este entendimento do termo legitimaria ações concretas de proibição ou de controle restritivo da imprensa, sendo um dos elementos para sua decadência, que levou ao decréscimo do número de periódicos em Montevidéu a partir de meados de 1823. Já no caso do termo opinião pública, ao explorar seus significados, o autor identifica um, mais subjetivo, de opinião sobre o público, outro, mais objetivo, de opinião do público sobre algo, e, por fim, a opinião transparente, visível, considerada “Rainha do Mundo”[14]. Ao analisar este termo, na sociedade rio-platense, o autor destaca que ele é entendido do ponto de vista moral em correlação com a reputa­ ção do indivíduo e é associado à noção da cultura jurídica, presente na ideia de pueblos, característica dos Cabildos em funcionamento no Antigo Regime [15].

No segundo capítulo, o autor discute a função pedagógica da im­prensa no primeiro periodismo pós-hispânico (1814-1822), concentra­-se em periódicos publicados, sobretudo, em Montevidéu e Buenos Aires, mas também no Rio de Janeiro e em Londres [16]. O autor reco­nhece a necessidade de explorar outros termos como pátria, nação, ci­dadão, revolução, independência e ordem quanto às acepções que ganham na discussão de temas como as formas de governo, o constituciona­lismo e a geopolítica envolvida na ocupação da “Provincia Oriental” pelo Império de Portugal e do Brasil, bem como a resistência a esta ocupação em Montevidéu e Buenos Aires. Neste caso, especialmente importante e valorosa é a análise do uso antagônico da imprensa para afirmar ou negar o artiguismo [17].

No terceiro capítulo, o autor analisa o auge e a decadência da cir­culação de impressos em Montevidéu, entre 1822 e 1825. Inspirado nos estudos da imprensa basco-navarro de Fernández Sebastián, es­tabelece a hipótese geral de que o auge – marcado pelo aumento de impressos, de agosto de 1822 a outubro de 1823 – incidiu de forma decisiva sobre o processo político e cultural que estava em curso, pro­porcionando mais opções e acesso a informações sobre a política e ampliando o campo ideológico da imprensa. Em Montevidéu, a domi­nação portuguesa era o principal tema do debate em curso nos peri­ódicos escritos pelos membros dos Caballeros Orientales. Nesse ponto, o autor analisa estas publicações de forma sincrônica e não particu­larizada, e levanta dados quantitativos e graus de coincidência entre elas. Assim, Demuro consegue acompanhar as diversas perspectivas do que os atores desse período entendiam como sendo constituinte de uma política liberal para a construção de Estados nacionais, desta­cadamente a transformação da educação dos cidadãos, do teatro, do papel das mulheres, da exigência de implementação de uma rede ins­titucional e o patriotismo, associado a uma postura moral do cidadão. Além disto, o autor retoma a questão do conceito de opinião pública, com todas as suas ambiguidades de sentido e associado ao debate so­bre as formas de governo, tema essencial na competição entre os im­périos ibéricos, o Brasil, as Províncias encabeçadas por Buenos Aires, e as alianças externas [18].

Neste capítulo, destaca-se o êxito do autor em relacionar a in­vestigação sobre a História dos Conceitos com a trajetória política de redatores, tipografias e grupos políticos. Demuro associa as diversas definições e usos de termos e conceitos políticos nas publicações da imprensa, como liberdade e ordem, em uma leitura diacrônica e sin­crônica da história política do período. A partir desta análise, o autor formula conclusões mais amplas sobre a expansão editorial em Mon­tevidéu, destacando o importante papel do êxito “transitorio y par­cial” do constitucionalismo ibérico, com a vigência da nova legislação sobre a liberdade de imprensa (1821) e a divisão do “bando invasor” em torno da ocupação de Montevidéu, depois da declaração de indepen­dência do Brasil. Isto permitiu ao autor aproximar os contextos da construção do espaço público moderno na Espanha, depois de 1810, e de Montevidéu, a partir de 182119.

Nas considerações finais da obra, Demuro traz uma reflexão fun­damental sobre a dificuldade de identificar a recepção das ideias pu­blicadas na imprensa, em especial pelos setores populares. Pode-se dizer que esta é uma dificuldade generalizada para os estudos dos periódicos de finais do século XVIII e início do século XIX, o que, no limite, ajuda a explicar a prevalência de análises centradas na produ­ção de obras, em seus impactos políticos e em seu público leitor. Ao mesmo tempo, Demuro sinaliza a tendência de redatores em homo­ geneizar os setores populares, vistos como incapazes de refletirem e participarem de forma independente da política, imagem esta que era paradoxal à visão utópica de um “colectivo de seres tranquilos y sencillos, amantes de la libertad en el orden”20. Não resta dúvida de que a obra de Demuro é uma demonstração louvável de esforço in­vestigativo e reflexão atualizada sobre o tema da imprensa rio-pla­tense do período, apresentando uma síntese historiográfica crítica e completa do campo de pesquisa. O autor nos dá a noção do imenso desafio historiográfico a que se propõe. Em contrapartida, ele ofere­ce renovadas análises, conclusões e caminhos teóricos metodológicos que instigam novas pesquisas.

Notas

3. Ibidem, p. 30

4. Ibidem, p. 33.

5. Ibidem, p. 31-36.

6. FERNÁNDEZ SEBASTIÁN, Javier (org.). Diccionario político y social del mundo iberoamericano. La era de las revoluciones, 1750-1850. 11 vols., Iberoconceptos-I. Madrid: Fundación Carolina/Sociedad Estatal de Conmemoraciones Culturales/Centro de Estudios Políticos y Constitucionales, 2009; Idem. Diccionario político y social del mundo iberoamericano. La era de las revoluciones, 1750-1850. 10 vols. Iberoconceptos-II, tomo II. Madrid: Centro de Estudios Políticos y Constitucionales – Uni­versidad del País Vasco, 2014.

7. Ibidem, p. 42-43.

8. Ibidem, p. 41-45.

9. Ibidem, p. 53-60.

10. Ibidem, p. 81-248. O autor explora o debate sobre a “interiorização da metrópole”, termo de Maria Odila Dias, e os estudos mais recentes de autores como João Paulo Garrido Pimenta, Lilian Moritz Schwarcz, Kirsten Schultz, Andreá Slemian e Eduardo Scheidt. Da historiografia portuguesa, destaca-se José Tengarrinha. Em relação à documentação, utiliza periódicos e correspondência particular e oficial.

11. Ibidem, p. 139-151; 152-161; 181-233.

12. Ibidem, p. 17.

13. Ibidem, p. 53.

14. Ibidem, p. 256-260.

15. Ibidem, p. 57.

16. El Sol, El Pacífico Oriental de Montevideo, El Censor, El Observador Americano, La Crónica Argentina, La Gaceta de Montevideo, El Periódico Oriental; El Argos de Buenos Ayres, Gazeta do Rio de Janeiro e Correio Braziliense.

17. Ibidem, p. 100-135; 229-260; 275-276.

18. Ibidem, p. 167-248.

19. Ibidem, p. 247.

Referências

DEMURO, Wilson Gonzalez. La prensa de Montevideo, 1814-1825. Impren­tas, perodicos y debates publicos em tiempos de revolucion. Montevi­deo: Ediciones Universitarias, Unidad de Comunicacion de la Universi­dad de la Republica, 2018.

FERNANDEZ SEBASTIAN, Javier (org.). Diccionario politico y social del mun­do iberoamericano. La era de las revoluciones, 1750-1850. 11 vols., Iberocon­ceptos-I. Madrid: Fundacion Carolina/Sociedad Estatal de Conmemo­raciones Culturales/Centro de Estudios Políticos y Constitucionales, 2009

FERNANDEZ SEBASTIAN, Javier (org.). Diccionario politico y social del mun­do iberoamericano. La era de las revoluciones, 1750-1850. 10 vols. Iberocon­ceptos-II, tomo II. Madrid: Centro de Estudios Políticos y Constitucio­nales – Universidad del País Vasco, 2014.


Resenhista

Paula Botafogo – Doutora em História Social pela Universidade Estadual de Campinas (2017), financiada pela CAPES e sob orientação da Profª Iara Lis Schiavinatto, realizou o doutorado sanduíche (PDSE- 2014/2015) na Universidade de Lisboa, com a supervisão do Prof. Nuno Gonçalo Pimenta de Freitas Monteiro. Possui graduação em História pela Universidade de São Paulo (2007) e mestrado em História Social na mesma Universidade, sob orientação da Profª Márcia Regina Berbel e finan­ciada pela FAPESP. Cursou o “Máster de Historia del Mundo Hispánico: Las Independencias Iberoamericanas”, como bolsista da Fundación Carolina e MAPFRE (2008-2009), quando foi orientada pelo Prof. Manuel Chust Calero. Atualmente, realiza o pós-doutorado em História na Universidade de São Paulo (USP).


Referências desta resenha

DEMURO, Wilson González. La prensa de Montevideo, 1814-1825. Imprentas, periódicos y debates públicos en tiempos de revolución. Montevi­deo: Ediciones Universitarias, Unidad de Comunicación de la Universi­dad de la República, 2018. Resenha de: BOTAFOGO, Paula. Imprensa em Montevidéu (1814-1825) como fonte histórica. Almanack. Guarulhos, n.28, p.1-7, 2021. Acessar publicação original [IF]

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