Golpe de 1964 e a Ditadura militar: Processos históricos e historiografia | História Revista | 2015

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É com muita satisfação que apresentamos o Dossiê que a História Revista publica neste número. Passados mais de 50 anos do Golpe de Estado de 1964 e da implantação da Ditadura Militar (1964‐1985) o debate sobre seu caráter e significado continua mais vivo do que nunca. Isto porque além da herança deixada por 21 anos de governos ditatoriais seguir muito presente na dinâmica econômico‐social e na estrutura política da sociedade brasileira atual, a disputa ideológica acerca do seu caráter e legado marca fortemente o debate político atual. E foi com o propósito de refletir sobre esses fatores que organizamos este Dossiê.

Os seis artigos que compõem o dossiê expressam, com grande êxito, resultados de pesquisas que jovens historiadores vêm desenvolvendo sobre o assunto, sobre particularidades institucionais de fundamental importância no período do golpe militar e na ditadura militar que se seguiu. Trata‐se, portanto, de modo inquestionável, de uma grande contribuição da História Revista para a reflexão historiográfica brasileira em seu público leitor especializado, assim como para com o público leitor em geral.

O primeiro artigo – Os empreiteiros de obras públicas e o golpe civil de 1964 – de Pedro Henrique Pedreira Campos (DH / DRI / UFRRJ) apresenta‐nos as relações dos “empreiteiros de obras públicas” e suas empresas beneficiadas no regime militar com exclusivas contratações para com inúmeros órgãos do governo federal, especialmente aqueles ligados ao Ministério dos Transportes. O autor descreve em detalhe algumas das conexões institucionais desses empresários junto ao SINICOM (Sindicato Nacional da Construção Pesada),sindicato criado em 1959 e que foi um dos aparelhos centrais na articulação do golpe de 1964 consorciado com o complexo IPES / IBAD.

O artigo de Walmir Barbosa (IFG, Goiânia) – Da criação à fase de estruturação do IPEA (1964‐1970) – apresenta detalhada descrição dos processos institucionais envolvidos com a criação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), um órgão fundamental na formulação dos programas e diretrizes da administração pública federal, especialmente na consolidação do Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG) mobilizado no primeiro governo militar (Castelo Branco) entre 1964 e 1967. Descrevendo as trajetórias de intelectuais como Roberto Campos e Mario Henrique Simonsen, o autor apresenta o quadro do pensamento tecnocrático que articulou o golpe de 1964 e ancorou ideologicamente o regime militar nas décadas seguintes.

No terceiro artigo – A Guerrilha do Araguaia e a repressão contra camponeses: reflexões sobre os fundamentos e as práticas repressivas do Estado brasileiro em tempos de ditadura – a professora Patrícia Mechi (IESP / UNILA) desenvolve uma detalhada análise das táticas de repressão militar contra os militantes do PCdoB e os camponeses na região do Araguaia (enclave fronteiriço no Pará, Maranhão e Tocantins) e de como essas táticas estiveram balizadas ideologicamente nos termos da Doutrina de Segurança Nacional, o credo geopolítico reacionário formulado pelo pensamento militar brasileiro (em especial por Golbery do Couto e Silva) em vinculação institucional direta com o pensamento militar dos EUA na década de 1950. Enfim, uma descrição atualíssima da violência institucional do Estado brasileiro (ou das conivências deste) contra os trabalhadores no campo.

O artigo de David Maciel (FH / UFG) – Ernesto Geisel e a autocracia burguesa no Brasil – destaca a trajetória do militar gaúcho que foi um dos presidentes do regime militar (1974‐1979), visto pelo autor como um intelectual orgânico da autocracia burguesa. Com base em referenciais teóricos gramscianos (na definição de Geisel como um intelectual orgânico de tipo específico) e os de Florestan Fernandes para a definição do Estado brasileiro como autocrático burguês pela sua articulação institucional dos padrões de reprodução capitalistas baseados na dependência associada ao capital estrangeiro e pela combinação interna (nacional) dos setores pré‐capitalistas e sub‐ capitalistas. E dentro desse quadro definidor, Ernesto Geisel ao longo da sua trajetória firmou‐se politicamente como uma sólida referência ideológica na organização do capitalismo brasileiro, especialmente durante o regime militar.

Analisando algumas das principais referências bibliográficas sobre o Golpe militar de 1964, Wanderson Fábio Melo (DH / UFF – Campus Rio das Ostras) no seu artigo – Processualidades do golpe de Estado de 1964 – desenvolve uma descrição da processualidade factual que levou o país ao golpe de 1964. Descrição alicerçada em quatro caracterizações processuais, destacando‐se nelas, a descrição das lutas sociais dos trabalhadores brasileiros às vésperas do golpe.

O último artigo deste dossiê – Dois golpes, duas ditaduras – é o de Eurelino Coelho (DCHF / UEFS) que apresenta ao leitor como os fatos do golpe e o conseqüente regime militar foram dimensionados pela historiografia brasileira e como essa historiografia, na ocasião dos cinqüenta anos do golpe tem revisado seus parâmetros analíticos sob forte crivo ideológico reacionário, isto é, como algumas das mais recentes referências bibliográficas têm imposto um “segundo” golpe militar, uma “segunda” ditadura militar com suas perspectivas revisionistas.

Enfim, agradecemos à direção da História Revista pela oportunidade concedida na organização deste Dossiê e esperamos que o leitor diante dasleiturassugeridas possa encontrar nas páginas seguintes exemplos de estudos para uma profícua reflexão sobre os insidiosos acontecimentos do Golpe militar de 1964 que levaram o país a 21 anos de uma devastadora ditadura militar.


Organizadores

David Maciel (Faculdade de História da UFG)

João Alberto da Costa Pinto (Faculdade de História da UFG)


Referências desta apresentação

MACIEL, David; PINTO, João Alberto da Costa. Apresentação. História Revista. Goiânia, v. 20, n. 1, jan. / abr., 2015. Acessar publicação original [DR]

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